— O que fazemos agora? — Nynaeve quis saber, irritada. — Para onde vamos?
— Só nos restam norte e sul — disse Moiraine, mais pensando alto do que respondendo à Sabedoria. — Ao sul ficam as Colinas de Absher, desoladas e mortas, e o Taren, sem meio de atravessar e sem tráfego por barco. Ao norte, podemos chegar ao Arinelle antes do cair da noite, e haverá uma chance de acharmos o barco de algum comerciante se o gelo tiver quebrado em Maradon.
— Existe um lugar onde os Trollocs não irão — disse Lan, mas a cabeça de Moiraine girou bruscamente para o lado.
— Não! — Ela fez um gesto para o Guardião, que aproximou a cabeça da de Moiraine para que ninguém pudesse ouvir a conversa.
As cornetas soaram, e o cavalo de Rand pateou, nervoso.
— Estão tentando nos assustar — grunhiu Thom, tentando firmar sua montaria. Ele soava ao mesmo tempo zangado e como se os Trollocs estivessem conseguindo. — Estão tentando nos apavorar até entrarmos em pânico e fugirmos. Aí, sim, é que eles nos pegam.
A cabeça de Egwene girava violentamente a cada toque da corneta, olhando primeiro à frente deles, como se procurando os primeiros Trollocs. Rand queria fazer a mesma coisa, mas tentou esconder. Conduziu Nuvem para mais perto dela.
— Vamos para o norte — anunciou Moiraine.
As cornetas soavam agudas quando eles deixaram a estrada e trotaram para as colinas adjacentes.
As colinas eram baixas, mas o caminho era todo em subida e descida, sem um trecho plano sequer, sob árvores de galhos nus e entre arbustos rasteiros mortos. Os cavalos escalavam laboriosamente uma encosta somente para descer a outra. Lan estabeleceu um ritmo difícil, mais rápido do que haviam adotado na estrada.
Galhos chicoteavam Rand no rosto e no peito. Velhas trepadeiras se prendiam em seus braços, e às vezes agarravam seus pés, tirando-o do estribo. As cornetas se aproximavam cada vez mais, e cada vez com mais frequência.
Apesar do ritmo em que Lan os conduzia, eles não avançavam muito rápido. Viajavam dois passos para cima ou para baixo para cada um que avançavam, e cada passo era um esforço. E as cornetas iam se aproximando. Duas milhas, pensou. Talvez menos.
Depois de um tempo Lan começou a espiar primeiro para um lado e depois para o outro, suas duras feições assumindo o mais próximo de um ar de preocupação que Rand já tinha visto. Numa ocasião o Guardião se levantou nos estribos para olhar pelo caminho por onde haviam vindo. Tudo o que Rand podia ver eram árvores. Lan se acomodou de volta na sela e inconscientemente empurrou o manto para trás a fim de liberar sua espada enquanto voltava a vasculhar a floresta.
Rand dirigiu a Mat um olhar questionador, mas Mat se limitou a fazer uma careta para as costas do Guardião e dar de ombros, impotente.
Lan então falou, olhando para trás:
— Há Trollocs por perto. — Eles alcançaram o topo de uma colina e começaram a descer pelo outro lado. — Alguns dos batedores, enviados à frente do resto, provavelmente. Se depararmos com eles, fiquem comigo a todo custo, e façam o que eu fizer. Precisamos continuar no caminho que estamos seguindo.
— Sangue e cinzas! — murmurou Thom. Nynaeve fez um gesto para que Egwene ficasse perto dela.
Grupos dispersos de árvores perenes forneciam a única cobertura, mas Rand tentou espiar em todas as direções ao mesmo tempo, sua imaginação transformando troncos de árvore cinzentos vistos de canto de olho em Trollocs. As cornetas também estavam mais próximas. E logo atrás deles. Disso Rand tinha certeza. Atrás e cada vez mais perto.
Chegaram ao topo de outra colina.
Abaixo deles, começando a subir a encosta, marchavam Trollocs carregando varas encimadas por grandes laços de corda ou ganchos compridos. Muitos Trollocs. A linha se estendia para os dois lados, as extremidades fora do campo de visão, mas no centro, diretamente à frente de Lan, cavalgava um Desvanecido.
O Myrddraal pareceu hesitar quando os humanos surgiram no topo da colina, mas no instante seguinte ele sacou uma espada com a lâmina negra da qual Rand se lembrava de modo tão nauseante, e a brandiu sobre a cabeça. A fileira de Trollocs avançou.
Antes mesmo que o Myrddraal se movesse, a espada de Lan já estava na mão.
— Fiquem comigo! — gritou, e Mandarb mergulhou colina abaixo na direção dos Trollocs. — Pelas Sete Torres! — bradou.
Rand engoliu em seco e incitou o tordilho adiante, o grupo inteiro descendo numa corrente atrás do Guardião. Ele ficou surpreso ao encontrar a espada de Tam em sua mão. Contagiado pelo grito de Lan, descobriu o seu próprio.
— Manetheren! Manetheren!
Perrin adotou o grito:
— Manetheren! Manetheren!
Mat, porém, gritou:
— Carai an Caldazar! Carai an Ellisande! Al Ellisande!
A cabeça do Desvanecido se virou dos Trollocs para os cavaleiros que vinham em sua direção. A espada negra ficou parada sobre sua cabeça, e a abertura de seu capuz girou, procurando algo em meio aos cavaleiros que se aproximavam.
Então Lan chegou ao Myrddraal, enquanto os humanos caíam sobre a fileira de Trollocs. A lâmina do Guardião encontrou a lâmina negra das forjas de Thakan’dar com um clangor semelhante ao de um imenso sino ecoando na grota, um relâmpago de luz azul enchendo o ar como raios acima das nuvens.
Quase-homens com focinho de fera cercaram como um enxame cada um dos humanos, com suas varas e ganchos balançando. Evitaram somente Lan e o Myrddraal; esses dois lutavam em um círculo aberto, cavalos negros enfrentando-se passo a passo, espadas enfrentando-se golpe a golpe. O ar faiscava e repicava.
Nuvem revirou os olhos e relinchou alto, empinando e atacando com os cascos as caras de dentes afiados que o cercavam rosnando. Corpos pesados se apinhavam ombro a ombro ao seu redor. Metendo os calcanhares sem piedade, Rand forçou o tordilho com tudo, brandindo sua espada com pouco da habilidade que Lan havia tentado lhe transmitir, golpeando como se cortasse madeira. Egwene! Desesperado, ele procurou por ela enquanto forçava o cavalo a seguir em frente, abrindo caminho por entre os corpos peludos como se estivesse cortando arbustos rasteiros.
A égua branca disparava e se desviava ao menor toque da mão da Aes Sedai nas rédeas. A expressão de Moiraine era tão dura quanto a de Lan enquanto seu cajado atacava. As chamas envolveram os Trollocs, depois explodiram com um rugido que deixou figuras disformes e imóveis caídas ao chão. Nynaeve e Egwene cavalgavam próximas à Aes Sedai com urgência frenética, mostrando os dentes de maneira tão feroz quanto os Trollocs, as facas na mão. Aquelas lâminas curtas não seriam de nenhuma utilidade se um Trolloc chegasse realmente perto. Rand tentou guiar Nuvem na direção delas, mas o tordilho havia assumido o controle. Relinchando e escoiceando, Nuvem avançava, por mais forte que Rand puxasse as rédeas.
Ao redor das três mulheres um espaço se abria à medida que Trollocs tentavam fugir do cajado de Moiraine, mas, enquanto eles tentavam evitá-la, ela os buscava. Chamas rugiram, e os Trollocs uivaram de ódio e fúria. Acima do rugido e dos uivos era possível ouvir o choque da espada do Guardião contra a do Myrddraal; ao redor deles, o ar reluzia com um clarão azul, seguido por outro. E mais outro.
Um laço na extremidade de uma vara passou sobre a cabeça de Rand. Com um golpe desajeitado, ele cortou o cambão em dois, depois atingiu o Trolloc com cara de bode que o empunhava. Um gancho agarrou seu ombro por trás e se prendeu em seu manto, puxando-o para trás. Freneticamente, quase perdendo a espada, ele agarrou o cepilho da sela para não cair. Nuvem contorceu-se, relinchando. Rand se segurava desesperadamente na sela e nas rédeas; sentia que estava escorregando, pouco a pouco, puxado pelo gancho. Nuvem fez meia-volta; por um instante, Rand viu Perrin, meio fora da sela, pelejando para arrancar o machado das mãos de três Trollocs. Eles o tinham prendido por um braço e ambas as pernas. Nuvem deu um salto, e a visão de Rand encheu-se de Trollocs.