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— Um chá fraco de rabo-de-raposa, marisin e…

Rand perdeu a última parte da fala quando seguiu Thom até um aposento atrás do primeiro, um cômodo tão grande quanto e ainda mais vazio. Ali havia somente poeira, espessa e imóvel até eles chegarem. Nem sequer rastros de pássaros ou pequenos animais marcavam o chão.

Rand começou a tirar a sela de Bela e Nuvem, e Thom, a de Aldieb e de seu capão, e Perrin, de seu cavalo e de Mandarb. Todos menos Mat. Ele deixou cair suas rédeas no meio do aposento. Havia duas entradas no aposento além daquela pela qual haviam entrado.

— Beco — anunciou Mat, afastando a cabeça da primeira. Isso eles podiam ver de onde estavam. A segunda entrada era apenas um retângulo negro na parede dos fundos. Mat atravessou devagar e saiu muito mais rápido, limpando vigorosamente teias de aranha velhas dos cabelos. — Nada aí dentro — disse ele, olhando novamente para o beco.

— Vai cuidar do seu cavalo? — perguntou Perrin. Ele já havia terminado com o dele e estava tirando a sela de Mandarb. Estranhamente, o garanhão de olhos ferozes não lhe deu nenhum trabalho, embora o observasse o tempo todo. — Ninguém vai fazer isso por você.

Mat dirigiu um último olhar para o beco e foi até seu cavalo com um suspiro.

Quando Rand colocou a sela de Bela no chão, reparou que Mat tinha um olhar melancólico. Seus olhos pareciam a mil milhas de distância, e ele se movia como um autômato.

— Você está bem, Mat? — perguntou Rand.

Mat ergueu a sela de seu cavalo e parou com ela nas mãos.

— Mat? Mat!

Mat se assustou e quase deixou a sela cair.

— O quê? Ah. Eu… eu estava só pensando.

— Pensando? — Perrin gritou de onde estava, substituindo o bridão de Mandarb por um bocal. — Você estava era dormindo.

Mat fez uma careta.

— Eu estava pensando em… no que aconteceu lá atrás. Naquelas palavras que eu… — Todos se viraram para ele então, não só Rand, e ele mudou de posição, desconfortável. — Bem, vocês ouviram o que Moiraine falou. É como se algum homem morto estivesse falando pela minha boca. Não gosto disso. — A expressão dele fechou-se ainda mais quando Perrin riu.

— O grito de guerra de Aemon, ela disse… certo? Talvez você seja Aemon reencarnado. Pela maneira como fica toda hora dizendo como Campo de Emond é chato, pensei que você fosse gostar disso… ser um rei e herói renascido.

— Não diga isso! — Thom respirou fundo. Todos olhavam para ele agora. — É conversa perigosa, conversa idiota. Os mortos podem renascer, ou ocupar um corpo vivo, e isso não é uma coisa que se fale de modo leviano. — Ele respirou fundo mais uma vez para se acalmar antes de continuar. — O sangue antigo, ela disse. O sangue, não um morto. Já ouvi dizer que isso pode acontecer às vezes. Ouvi dizer, mas na verdade nunca pensei… São suas raízes, garoto. Uma linhagem que corre de você ao seu pai e ao seu avô, até Manetheren, e talvez além. Bem, agora você sabe que sua família é antiga. Devia deixar isso como está e se dar por satisfeito. A maioria das pessoas não costuma saber muito mais do que o fato de que tiveram um pai.

Alguns de nós não podem sequer ter certeza disso, pensou Rand com amargura. Talvez a Sabedoria tenha razão. Luz, espero que sim.

Mat assentiu diante das palavras do menestrel.

— Suponho que sim. Só que… você acha que isso tem a ver com o que aconteceu com a gente? Os Trollocs e tudo? Quer dizer… ah, eu não sei o que isso quer dizer.

— Eu acho que você devia esquecer isso tudo e se concentrar em sair daqui em segurança. — Thom tirou seu cachimbo de cabo longo de dentro do manto. — E eu acho que vou fumar um pouco. — Balançando o cachimbo na direção deles, ele desapareceu no aposento da frente.

— Estamos todos juntos nisto, não só um de nós — disse Rand a Mat.

Mat estremeceu e riu, uma gargalhada curta e alta.

— Certo. Bem, falando de estarmos juntos nas coisas, agora que terminamos com os cavalos, por que não vamos ver um pouco mais da cidade? Uma cidade de verdade, e sem multidões para acotovelar você. Ninguém olhando você de alto a baixo com o nariz empinado. Ainda nos resta uma ou duas horas de luz do dia.

— Você não está esquecendo dos Trollocs? — perguntou Perrin.

Mat balançou a cabeça com desdém.

— Lan disse que eles não entrariam aqui, lembra? Você precisa escutar o que as pessoas dizem.

— Eu lembro — disse Perrin. — E escuto. Esta cidade… Aridhol?… era aliada de Manetheren. Viu? Eu escuto.

— Aridhol deve ter sido a maior cidade no tempo das Guerras dos Trollocs — disse Rand — para os Trollocs ainda terem medo dela. Eles não tiveram medo de entrar nos Dois Rios, e Moiraine disse que Manetheren foi… como ela disse mesmo?… um espinho no pé do Tenebroso.

Perrin ergueu as mãos.

— Não mencione o Pastor da Noite, por favor.

— O que me diz? — Mat riu. — Vamos lá.

— Devíamos pedir a Moiraine — disse Perrin, e Mat jogou as mãos para o alto.

— Pedir a Moiraine? Você acha que ela vai deixar a gente sair de perto dela? E Nynaeve? Sangue e cinzas, Perrin, por que não aproveita logo e pede à Senhora Luhhan também?

Perrin concordou, relutante, e Mat virou-se para Rand com um sorriso.

— E você? Uma cidade de verdade? Com palácios! — Ele deu uma risada matreira. — E sem Mantos-brancos para ficar encarando a gente.

Rand lhe dirigiu um olhar zangado, mas hesitou apenas por um instante. Aqueles palácios eram iguais aos de uma história de menestrel.

— Está certo.

Pisando devagar para não serem ouvidos no cômodo da frente, eles saíram pelo beco, seguindo na direção oposta à fachada do edifício até uma rua do outro lado. Caminharam rápido, e quando se encontravam a uma quadra de distância do edifício de pedra branca Mat começou subitamente a dançar saltitante.

— Livre. — Ele riu. — Livre! — Ele foi desacelerando e começou a girar em um círculo, olhando para tudo, ainda rindo. As sombras da tarde se estendiam longas e entrecortadas, e o sol que baixava dourava a cidade em ruínas. — Você já sonhou com um lugar assim? Já?

Perrin também riu, mas Rand deu de ombros, pouco à vontade. Aquele lugar em nada se parecia com a cidade de seu primeiro sonho, mas mesmo assim…

— Se queremos ver alguma coisa — disse ele —, é melhor irmos logo. Não resta muita luz do sol.

Mat queria ver tudo, ao que parecia, e impelia os outros com seu entusiasmo. Eles escalaram fontes empoeiradas grandes o bastante para comportar todo o povo de Campo de Emond e entraram e saíram de estruturas escolhidas ao acaso, mas sempre as maiores que conseguiam encontrar. Algumas eles entendiam o que eram, outras não. Um palácio era claramente um palácio, mas o que era um imenso edifício que consistia em uma cúpula redonda, imensa e branca como uma colina do lado de fora e um único e monstruoso salão do lado de dentro? E um lugar murado, a céu aberto, e grande o bastante para conter todo Campo de Emond, cercado por fileiras e mais fileiras de bancos de pedra?

Mat foi ficando impaciente quando não encontraram nada a não ser poeira, ou entulho, ou trapos sem cor, restos de tapeçarias de parede que se desfaziam em pó ao toque. Em determinado momento, algumas cadeiras de madeira encontravam-se empilhadas de encontro a uma parede e desintegraram-se todas quando Perrin tentou pegar uma delas.

Os palácios, com suas câmaras imensas e vazias, algumas das quais poderiam ter contido toda a Estalagem Fonte de Vinho com espaço de sobra dos lados e acima também, faziam Rand pensar demais nas pessoas que um dia os haviam ocupado. Achou que todos nos Dois Rios podiam caber embaixo daquela cúpula redonda, e quanto ao lugar dos bancos de pedra… Ele quase podia ver as pessoas nas sombras, olhando com desaprovação para os três intrusos que perturbavam seu repouso.