Выбрать главу

— Se você ainda quiser — disse Perrin a Mordeth —, voltaremos amanhã e o ajudaremos. — Cuidadosamente ele colocou o machado de volta na pilha de cálices incrustados de gemas e joias. — Se você quiser.

— Não. Isto é… — Ofegante, Mordeth sacudiu a cabeça como se não pudesse decidir. — Peguem o que quiserem. Exceto… Exceto…

Subitamente Rand percebeu o que o havia incomodado a respeito do homem. As tochas espalhadas pelo corredor haviam dado a cada um deles um anel de sombras, o mesmo acontecendo com as tochas da sala do tesouro. Só que… Ele estava tão chocado que disse em voz alta.

— Você não tem sombra.

Um cálice caiu da mão de Mat com um estrondo.

Mordeth assentiu, e pela primeira vez suas pálpebras carnudas se abriram por completo. Seu rosto macilento subitamente pareceu magro e faminto.

— Então. — Ele se empertigou, parecendo mais alto. — Está decidido. — Subitamente não havia mais dúvida. Como um balão, Mordeth inchou, distorceu-se, a cabeça fazendo pressão contra o teto, os ombros contra as paredes, preenchendo a extremidade do aposento, bloqueando a saída. As faces encovadas, os dentes arreganhados num rosnado, ele estendeu subitamente mãos grandes o bastante para envolver a cabeça de um homem.

Com um grito, Rand deu um pulo para trás. Seus pés se enroscaram numa corrente de ouro e ele caiu no chão, o ar expulso de seus pulmões. Lutando para conseguir respirar, ele tentava ao mesmo tempo pegar a espada, pelejando contra seu manto, que havia se enroscado ao redor do punho. Os gritos de seus amigos enchiam o aposento, assim como o estrondo de bandejas e cálices de ouro indo ao chão. Subitamente um grito de agonia estremeceu os ouvidos de Rand.

Quase soluçando, ele conseguiu finalmente respirar, bem no instante em que tirava a espada da bainha. Cautelosamente, Rand se levantou, perguntando-se qual de seus amigos dera aquele grito. Perrin olhou para ele do outro lado do aposento, os olhos arregalados. Agachado, segurava o machado como se estivesse prestes a derrubar uma árvore. Mat espiava por trás de uma pilha de objetos preciosos, agarrando um punhal retirado do tesouro.

Alguma coisa se moveu na parte mais funda das sombras deixadas pelas tochas, e todos pularam. Era Mordeth, segurando os joelhos de encontro ao peito, encolhido no canto mais distante que conseguiu encontrar.

— Ele enganou a gente — disse Mat, ofegante. — Foi uma espécie de truque.

Mordeth jogou a cabeça para trás e uivou; a poeira caiu em nuvens quando as paredes tremeram.

— Vocês estão todos mortos! — gritou ele. — Todos mortos! — E ergueu-se de um salto, atravessando o aposento em disparada.

O queixo de Rand caiu, e ele quase deixou cair a espada também. Quando Mordeth saltou no ar, ele se esticou e se afinou, como um tentáculo de fumaça. Com a espessura de um dedo, ele alcançou uma rachadura nos azulejos de uma parede e desapareceu dentro dela. Um último grito ecoou no aposento quando ele sumiu, desvanecendo lentamente depois que partiu.

— Vocês estão todos mortos!

— Vamos sair daqui — disse Perrin debilmente, segurando o machado com mais força enquanto tentava olhar para todas as direções ao mesmo tempo. Ornamentos de ouro e joias espalhavam-se aos seus pés sem que ele sequer se desse conta.

— Mas o tesouro — protestou Mat. — Não podemos simplesmente deixá-lo aqui agora.

— Eu não quero nada dele — replicou Perrin, ainda voltando-se para todos os lados. Levantou a voz e gritou para as paredes. — O tesouro é seu, está ouvindo? Não vamos levar nada!

Rand olhou zangado para Mat.

— Você quer que ele venha atrás de nós? Ou vai esperar aqui enchendo os bolsos até ele voltar com mais dez que nem ele?

Mat simplesmente apontou para todo o ouro e as joias. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, porém, Rand agarrou um de seus braços e Perrin o outro. Eles o arrastaram dali, Mat lutando e gritando sobre o tesouro.

Mas, antes que tivessem dado dez passos no corredor, a luz já fraca atrás deles começou a falhar. As tochas da sala do tesouro estavam se apagando. Mat parou de gritar. Eles apressaram o passo. A primeira tocha do lado de fora da sala se apagou, depois a seguinte. Quando alcançaram as escadas em espiral não havia mais necessidade de arrastar Mat. Todos estavam correndo, com a escuridão se aproximando atrás deles. Mesmo o breu absoluto das escadas só os fez hesitar por um instante antes de dispararem para cima, gritando a plenos pulmões. Gritando para assustar qualquer coisa que pudesse estar à espreita; gritando para lembrar a si mesmos de que ainda estavam vivos.

Irromperam no salão acima, escorregando e caindo no mármore coberto de poeira, levantando-se e correndo desesperados por entre as colunas, tropeçando escadarias abaixo e desabando numa pilha ferida no meio da rua.

Rand se desembaraçou dos outros e pegou a espada de Tam do chão, olhando inquieto ao redor. Menos de metade do sol ainda brilhava acima dos telhados. As sombras se estendiam na direção deles como mãos escuras, ainda mais enegrecidas pela luz remanescente, tomando a rua quase completamente. Ele estremeceu. As sombras se pareciam com Mordeth, estendendo-se.

— Pelo menos saímos dessa. — Mat se levantou da base da pilha, limpando a roupa numa imitação trêmula de seu jeito costumeiro. — E pelo menos eu…

— Saímos mesmo? — perguntou Perrin.

Rand soube que dessa vez não era sua imaginação. Os pelos de sua nuca se arrepiaram. Alguma coisa os observava da escuridão entre as colunas. Ele se virou, olhando os prédios do outro lado. Conseguia sentir os olhares vindos dali também. Sua mão apertou ainda mais o cabo da espada, embora não soubesse dizer de que isso adiantaria. Tinha a sensação de que havia olhos vigilantes por toda parte. Os outros olhavam ao redor, desconfiados; Rand sabia que eles estavam sentindo o mesmo.

— Vamos ficar no meio da rua — disse ele, a voz rouca. Os outros olharam nos olhos dele; pareciam tão assustados quanto ele, que engoliu em seco. — Vamos ficar no meio da rua, o mais longe das sombras que pudermos, e andar rápido.

— Andar bem rápido — concordou Mat fervorosamente.

Os observadores os acompanharam. Isso, ou havia outros observadores, muitos olhos em quase todas as construções. Rand não conseguia ver nada se movendo, por mais que tentasse, mas conseguia sentir os olhos, ansiosos, famintos. Não sabia o que seria pior. Milhares de olhos, ou apenas alguns, seguindo-lhes os passos.

Nos trechos onde o sol ainda os alcançava, eles reduziam o passo, só um pouco, forçando a vista, nervosos, na direção das trevas que sempre pareciam estar à frente. Nenhum deles estava ansioso para penetrar nas sombras; ninguém tinha realmente certeza de que não havia nada esperando. A expectativa dos observadores era uma coisa palpável sempre que as sombras se estendiam e atravessavam a rua, bloqueando a passagem deles. Por esses lugares escuros eles corriam gritando. Rand achou que ouvia uma gargalhada seca, como um farfalhar de folhas.

Por fim, com a noite caindo, eles avistaram o prédio de pedra branca que haviam deixado, ao que lhes parecia, dias atrás. Subitamente os olhos que os observavam partiram. Sem dizer uma só palavra, Rand disparou num passo acelerado, seguido pelos amigos, e depois numa carreira desabalada que só terminou quando passaram pela entrada e desabaram ofegantes no chão.

Uma pequena fogueira queimava no meio do piso, a fumaça desaparecendo por um buraco no teto de uma forma que trouxe a Rand a desagradável lembrança de Mordeth. Todos menos Lan estavam ali, reunidos ao redor do fogo, e suas reações variaram consideravelmente. Egwene, esquentando as mãos na beira do fogo, levantou-se de um salto quando os três irromperam no salão, levando as mãos à garganta; quando viu quem eram, um suspiro de alívio estragou sua tentativa de lhes dirigir um olhar de raiva. Thom simplesmente resmungou alguma coisa com o cachimbo na boca, mas Rand captou a palavra “tolos” antes que o menestrel voltasse a atiçar as chamas com um pedaço de pau.