Выбрать главу

— Seus sabichões idiotas! — disparou a Sabedoria. Ela estava muito irritada, da cabeça aos pés; seus olhos reluziam, e pontos vermelhos brilhantes queimavam em suas bochechas. — Por que, sob a Luz, vocês fugiram assim? Vocês estão bem? Vocês não têm juízo? Lan está lá fora procurando vocês agora, e terão mais sorte do que merecem se ele não meter juízo à força na cabeça de vocês quando retornar.

O rosto da Aes Sedai não revelava absolutamente nenhuma agitação, mas, quando eles chegaram, suas mãos, os nós dos dedos ainda brancos, soltaram o vestido que agarravam. O que quer que Nynaeve lhe dera devia ter ajudado, pois ela estava de pé.

— Vocês não deviam ter feito o que fizeram — disse ela com uma voz tão límpida e serena quanto um lago da Floresta das Águas. — Falaremos sobre isso mais tarde. Alguma coisa aconteceu lá fora, ou vocês não estariam caindo um por cima do outro desse jeito. Contem-me.

— Você disse que era seguro — queixou-se Mat, levantando-se com dificuldade. — Você disse que Aridhol era aliada de Manetheren, e que os Trollocs não iam entrar na cidade, e…

Moiraine avançou tão subitamente que Mat parou de falar, boquiaberto, e Rand e Perrin detiveram-se enquanto se levantavam, ficando meio agachados ou de joelhos.

— Trollocs? Vocês viram Trollocs dentro das muralhas?

Rand engoliu em seco.

— Trollocs não — disse ele, e os três começaram a falar excitadamente, todos ao mesmo tempo.

Cada um começou de um ponto diferente. Mat iniciou com a descoberta do tesouro, quase dando a impressão de que havia feito isso sozinho, ao passo que Perrin começou a explicar por que eles haviam saído sem comunicar a ninguém. Rand pulou direto para o que achava importante, o encontro com o estranho entre as colunas. Mas todos estavam tão agitados que ninguém contava os acontecimentos na ordem em que ocorreram; sempre que um deles pensava em alguma coisa, começava a contar, sem nenhuma conexão com o que tinha vindo antes ou com o que viria depois, nem com quem estava contando o quê. Os olhos observadores. Todos falavam atabalhoadamente sobre os observadores.

Isso fez com que a história soasse praticamente incoerente, mas o medo deles não passou despercebido. Egwene começou a lançar olhares incomodados para as janelas vazias que davam para a rua. Lá fora, os últimos vestígios do crepúsculo desvaneciam; o fogo parecia muito pequeno e fraco. Thom tirou seu cachimbo do meio dos dentes, ouvindo com a cabeça inclinada e a testa franzida. Os olhos de Moiraine demonstravam preocupação, mas não em demasia. Até que…

Subitamente a Aes Sedai sibilou e agarrou Rand pelo cotovelo com força.

— Mordeth! Tem certeza de que o nome era esse? Têm mesmo certeza, todos vocês? Mordeth?

Eles murmuraram um “sim” em coro, assustados pela intensidade da reação da Aes Sedai.

— Ele tocou vocês? — perguntou ela a todos. — Ele lhes deu alguma coisa, ou vocês fizeram alguma coisa para ele? Eu preciso saber.

— Não — disse Rand. — Nenhum de nós. Nenhuma dessas coisas.

Perrin assentiu, concordando, e acrescentou:

— Tudo o que ele fez foi tentar nos matar. Isso não é o bastante? Ele inchou até encher metade da sala, gritou que estávamos todos mortos e em seguida desapareceu. — Moveu sua mão para demonstrar. — Como fumaça.

Egwene deu um gritinho agudo.

Mat virou-se de costas, petulante.

— A salvo, você disse! Toda aquela conversa sobre Trollocs não virem até aqui. O que é que nós íamos pensar?

— Aparentemente vocês simplesmente não pensaram — disse ela, novamente composta. — Qualquer um que pensasse teria cautela em um lugar no qual os Trollocs temem entrar.

— Isso é coisa do Mat — disse Nynaeve, sem a menor sombra de dúvida. — Ele está sempre aprontando, fazendo uma traquinagem ou outra, e os outros perdem o pouco senso com o qual nasceram quando estão perto dele.

Moiraine assentiu rapidamente, mas seus olhos permaneceram em Rand e em seus dois amigos.

— No fim das Guerras dos Trollocs, um exército acampou dentro destas ruínas: Trollocs, Amigos das Trevas, Myrddraal, Senhores do Medo, milhares no total. Como eles não saíram, batedores foram enviados para o interior das muralhas. Os batedores acharam armas, pedaços de armaduras e respingos de sangue por toda parte. E mensagens rabiscadas nas paredes na língua dos Trollocs, clamando que o Tenebroso os ajudasse em sua última hora. Homens que vieram depois não encontraram vestígio nem do sangue nem das mensagens. Eles haviam sido apagados. Meios-homens e Trollocs ainda se lembram. É isso que os mantêm fora deste lugar.

— E foi este o lugar que você escolheu como nosso esconderijo? — perguntou Rand sem acreditar. — Estaríamos mais seguros lá fora tentando fugir deles.

— Se vocês não tivessem saído por aí — disse Moiraine pacientemente —, saberiam que eu dispus proteções ao redor deste prédio. Um Myrddraal sequer saberia que essas proteções estavam aqui, pois elas foram criadas para impedir um tipo diferente de mal, mas o que reside em Shadar Logoth não as atravessará, nem sequer chegará muito perto. Pela manhã poderemos partir em segurança; essas coisas não podem suportar a luz do sol. Elas se esconderão bem debaixo da terra.

— Shadar Logoth? — perguntou Egwene, hesitante. — Achei que você tinha dito que esta cidade se chamava Aridhol.

— Ela um dia se chamou Aridhol — replicou Moiraine —, e foi uma das Dez Nações, as terras que constituíram o Segundo Pacto, as terras que se posicionaram contra o Tenebroso desde os primeiros dias após a Ruptura do Mundo. Nos dias em que Thorin al’Toren al Ban era Rei de Manetheren, o Rei de Aridhol era Balwen Mayel, Balwen Mão-de-Ferro. Num período de desespero durante as Guerras dos Trollocs, quando parecia que o Pai das Mentiras certamente conquistaria tudo, o homem chamado Mordeth chegou à corte de Balwen.

— O mesmo homem? — perguntou Rand

— Não pode ser! — exclamou Mat.

Um olhar de esguelha de Moiraine os silenciou. O aposento inteiro ficou paralisado, a não ser pela voz da Aes Sedai.

— Em pouco tempo na cidade, Mordeth já tinha atraído a atenção de Balwen, e logo ele era o segundo no poder, atrás apenas do Rei. Mordeth instilou veneno nos ouvidos de Balwen, e Aridhol começou a mudar. A cidade fechou-se, endureceu-se. Diziam que havia quem preferisse ver Trollocs se aproximando a ver homens de Aridhol. A vitória da Luz é tudo. Esse foi o grito de guerra que Mordeth lhes deu, e os homens de Aridhol o proferiram enquanto seus atos se afastavam da Luz.

“A história é longa demais para que eu lhes conte na íntegra, e cruel demais também, e só se conhecem fragmentos dela, mesmo em Tar Valon. Como o filho de Thorin, Caar, veio para trazer Aridhol de volta ao Segundo Pacto, e Balwen sentou-se em seu trono, uma casca murcha com a luz da loucura nos olhos, gargalhando enquanto Mordeth sorria ao seu lado e ordenava as mortes de Caar e da embaixada sob a acusação de serem Amigos das Trevas. Como o Príncipe Caar veio a ser chamado de Caar Maneta. Como ele escapou dos calabouços de Aridhol e fugiu sozinho para as Terras da Fronteira com os assassinos sobrenaturais de Mordeth no seu encalço. Como lá ele conheceu Rhea, que não sabia quem ele era, e casou-se com ela, e definiu o fio do Padrão que levou à sua morte nas mãos dela, e à dela pela própria mão perante a tumba dele, e a queda de Aleth-Loriel. Como os exércitos de Manetheren vieram para vingar Caar e encontraram os portões de Aridhol arrebentados, nenhum ser vivo dentro das muralhas, mas algo pior que a morte. Nenhum inimigo havia chegado a Aridhol, a não ser a própria Aridhol. Desconfiança e ódio haviam trazido à luz uma coisa que se alimentou daqueles que a criaram, uma coisa que ficou presa no leito rochoso sobre o qual a cidade se erguia. Mashadar ainda espera, faminta. Os homens deixaram de falar em Aridhol. Passaram a chamá-la de Shadar Logoth, o Lugar Onde a Sombra Espera, ou, mais simplesmente, a Espera da Sombra.