Os tentáculos de neblina, que engrossavam cada vez mais, oscilaram desorientados por um instante, e então atacaram como víboras. Pelo menos dois se agarraram a cada Trolloc, banhando-os em uma luz cinzenta; cabeças com focinhos lançaram-se para trás para gritar, mas a névoa rolou sobre as bocas abertas, penetrando-as, devorando os uivos. Quatro tentáculos grossos como pernas se enroscaram no Desvanecido, e o Meio-homem e seu cavalo negro começaram a se contorcer como se dançassem, até o capuz escorregar para trás, desnudando aquele rosto pálido e sem olhos. O Desvanecido soltou um grito agudo.
Não havia som naquele grito, não mais do que nos dos Trollocs, mas alguma coisa emergiu, um gemido devastador além do ponto de audição, como se todas as cornetas do mundo perfurassem os ouvidos de Rand com todo o medo que podia existir. Nuvem convulsionou, como se também conseguisse ouvir, e correu mais furiosamente do que nunca. Rand se segurou, ofegando, a garganta seca como areia.
Depois de algum tempo ele percebeu que não conseguia mais ouvir o berro silencioso do Desvanecido morrendo, e subitamente o estrépito de seu galope pareceu tão alto quanto gritos. Ele puxou com força as rédeas de Nuvem, parando ao lado de uma parede ruída, onde duas ruas se encontravam. Um monumento sem nome erguia-se na escuridão à sua frente.
Abaixado sobre a sela, ele apurou os ouvidos, mas não havia nada para ouvir a não ser o sangue martelando em seus ouvidos. Um suor frio começou a escorrer pelo seu rosto, e ele estremeceu quando o vento fustigou-lhe o manto.
Por fim ele se endireitou. Estrelas coalhavam o céu onde as nuvens não as ocultavam, mas a estrela vermelha perto do horizonte a leste era fácil de localizar. Alguém mais está vivo para vê-la? Estariam livres, ou nas mãos dos Trollocs? Egwene, a Luz me cegue, por que você não me seguiu? Se estivessem vivos e livres, estariam seguindo aquela estrela. Se não… As ruínas eram vastas; ele poderia procurar durante dias sem encontrar ninguém, se conseguisse manter distância dos Trollocs. E dos Desvanecidos, e de Mordeth, e de Mashadar. Com relutância, decidiu seguir para o rio.
Puxou as rédeas. Na rua transversal, uma pedra batera em outra, produzindo um som seco e agudo. Ele ficou paralisado, sem sequer respirar. Estava oculto nas sombras, a um passo da esquina. Freneticamente, pensou em recuar. O que estaria atrás dele? O que faria um ruído e se revelaria? Não conseguia se lembrar, e tinha medo de tirar os olhos da esquina do prédio.
A escuridão tomava conta daquela esquina, com as trevas mais compridas de um bastão despontando dela. Um cambão! Mal esse pensamento passou pela cabeça de Rand, ele meteu os calcanhares nas costelas de Nuvem, e sua espada saiu voando da bainha; um grito sem palavras acompanhou seu ataque, e ele brandiu a espada com toda a força. Apenas um esforço desesperado foi capaz de deter a lâmina, por muito pouco. Com um grito, Mat cambaleou para trás, quase caindo do cavalo e quase soltando o arco.
Rand respirou fundo e abaixou a espada. Seu braço tremia.
— Viu mais alguém? — Ele conseguiu dizer.
Mat engoliu em seco antes de voltar a subir, desajeitado, em sua sela.
— Eu… eu… Apenas Trollocs. — Levou a mão à garganta e passou a língua pelos lábios. — Apenas Trollocs. E você?
Rand sacudiu a cabeça.
— Eles devem estar tentando chegar ao rio. É melhor fazermos o mesmo.
Mat assentiu em silêncio, ainda apalpando a garganta, e começaram a cavalgar na direção da estrela vermelha.
Antes de terem coberto cem braças, o lamento de uma corneta Trolloc se elevou atrás deles nas profundezas da cidade. Outra respondeu, do lado de fora das muralhas.
Rand estremeceu, mas manteve o ritmo lento, vigiando os lugares mais escuros e evitando-os quando podia. Depois de um puxão nas rédeas, como se fosse disparar a galope, Mat acabou fazendo o mesmo. Nenhuma das cornetas voltou a soar, e foi em silêncio que eles chegaram a uma abertura na muralha coberta de lianas onde antes existira um portão. Restavam apenas as torres, os topos quebrados destacando-se contra o céu negro.
Mat hesitou no portão, mas Rand disse baixinho:
— É mais seguro aqui dentro do que lá fora? — Ele não reduziu a velocidade do tordilho, e depois de um instante Mat o seguiu, saindo de Shadar Logoth, tentando olhar para todos os lados ao mesmo tempo. Rand deixou escapar o ar lentamente dos pulmões; sua boca estava seca. Nós vamos conseguir. Luz, nós vamos conseguir!
As muralhas desapareceram atrás deles, engolidas pela noite e pela floresta. Apurando os ouvidos em busca do mais leve som, Rand manteve a estrela vermelha sempre à frente.
Subitamente Thom apareceu galopando por trás deles, reduzindo a velocidade apenas por tempo suficiente para gritar:
— Rápido, seus tolos! — Um instante depois gritos de caça e ruídos nos arbustos atrás dele anunciaram a presença de Trollocs em seu rastro.
Rand enterrou os calcanhares, e Nuvem disparou atrás do capão do menestrel. O que vai acontecer quando chegarmos ao rio sem Moiraine? Luz, Egwene!
Perrin estava nas sombras, montado em seu cavalo, observando o portão aberto a uma certa distância ainda, e correu distraído o polegar ao longo da lâmina de seu machado. O caminho parecia livre para deixar a cidade em ruínas, mas ele estava sentado ali havia cinco minutos estudando o portão. O vento mexia seus cachos embaraçados e tentava carregar-lhe o manto, mas ele o puxava de volta, ajustando-o em torno do corpo sem nem reparar no que fazia.
Ele sabia que Mat, como quase todos em Campo de Emond, o considerava lento de raciocínio. Isso devia-se em parte ao fato de ele ser grande e costumar mover-se com cuidado. Sempre tinha medo de quebrar alguma coisa ou machucar alguém acidentalmente, sendo tão maior que os garotos com os quais havia crescido. Mas na verdade ele preferia mesmo pensar tudo com calma se fosse possível. Pensar de modo rápido e descuidado havia colocado Mat em apuros muitas vezes, e o pensamento rápido de Mat normalmente acabava colocando Rand, ou ele próprio, ou ambos, no fogo junto com Mat.
Sua garganta apertou. Luz, nem pense em estar no fogo. Tentou reordenar o pensamento. Pensar com cautela era o caminho.
No passado existira algum tipo de praça na frente do portão, com uma fonte imensa no meio. Parte da fonte ainda estava ali, um aglomerado de estátuas quebradas em pé sobre uma bacia grande e redonda, e o espaço ao redor delas ainda permanecia intocado. Para chegar até o portão ele teria de cavalgar quase cem braças tendo apenas a noite para protegê-lo de olhos perscrutadores. Ainda se lembrava bem demais daqueles observadores invisíveis.
Pensou nas cornetas que havia ouvido na cidade um pouco antes. Quase dera meia-volta, pensando que alguns dos outros poderiam ter sido apanhados, antes de se dar conta de que, se tivessem mesmo sido capturados, ele não conseguiria fazer nada sozinho. Não contra… o que Lan dissera?… cem Trollocs e quatro Desvanecidos. Moiraine Sedai mandou que fôssemos para o rio.
Voltou a olhar para o portão. O pensamento cauteloso não lhe havia valido de muita coisa, mas ele tomara sua decisão. Saiu da escuridão profunda para as sombras menores.
Nisso, outro cavalo apareceu do outro lado da praça e parou. Ele também parou e levou a mão ao machado, o que não lhe deu nenhuma grande sensação de alívio. Se aquela forma escura fosse um Desvanecido…
— Rand? — Veio um chamado suave e hesitante.
Ele soltou o ar devagar, aliviado.
— Sou eu, Perrin, Egwene — respondeu no mesmo tom suave. Mas, ainda assim, soou alto demais na escuridão.