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Os cavalos se encontraram perto da fonte.

— Viu mais alguém? — perguntaram ao mesmo tempo, e ambos responderam sacudindo a cabeça.

— Eles vão ficar bem — murmurou Egwene, dando palmadinhas no pescoço de Bela. — Não vão?

— Moiraine Sedai e Lan vão cuidar deles — respondeu Perrin. — Vão cuidar de todos nós assim que chegarmos ao rio. — Ele torcia para que fosse assim.

Perrin sentiu um grande alívio quando passaram pelo portão, mesmo que houvesse Trollocs na floresta. Ou Desvanecidos. Interrompeu essa linha de pensamento. Os galhos nus não eram suficientes para impedi-lo de se orientar pela estrela vermelha, e agora estavam além do alcance de Mordeth. Aquilo o tinha apavorado mais que os Trollocs jamais haviam conseguido.

Logo chegariam ao rio e encontrariam Moiraine, e ela os colocaria além do alcance dos Trollocs também. Ele acreditava nisso porque precisava acreditar. O vento fazia os galhos rasparem uns contra os outros, e folhas e agulhas de pinheiros farfalharem. O pio solitário de um gavião noturno atravessou as trevas, e ele e Egwene aproximaram seus cavalos, como se estivessem se aconchegando em busca de calor. Na prática, estavam sozinhos.

Uma corneta Trolloc soou em algum lugar atrás deles, toques ligeiros e plangentes, instando os caçadores a correr, correr. Em seguida, uivos graves, semi-humanos, fizeram-se ouvir na trilha deles, atiçados pela corneta. Uivos que se tornaram mais agudos conforme os Trollocs captaram o cheiro de humanos.

Perrin lançou seu cavalo num galope, gritando:

— Vamos embora!

Egwene o seguiu, os dois cravando as botas nos cavalos, sem se importar mais se estavam fazendo barulho ou não, sem se importar com os galhos que os açoitavam quando passavam.

Enquanto disparavam entre as árvores, guiados tanto pelo instinto quanto pela luz fraca do luar, Bela ficou para trás. Perrin olhou sobre o ombro. Egwene chutava a égua e batia nela com as rédeas, mas de nada adiantava. Pelos sons, os Trollocs estavam se aproximando. Ele recuou o suficiente para não deixá-la para trás.

— Depressa! — gritou ele. Já conseguia ver os Trollocs, imensas formas escuras pulando entre as árvores, urrando e resfolegando de um modo que fazia seu sangue gelar. Ele agarrou o cabo do machado, pendurado no cinto, até os dedos doerem. — Depressa, Egwene! Depressa!

Subitamente seu cavalo relinchou, e ele caiu, tombando da sela enquanto o cavalo também caía embaixo dele. Estendeu as mãos para se proteger e caiu de cabeça na água gelada. Ele havia cavalgado direto pela borda de um barranco que dava para o Arinelle.

O choque da temperatura o fez ofegar, e ele engoliu um bocado de água até conseguir voltar à superfície. Sentiu, mais do que ouviu, outra queda na água, e achou que Egwene devia ter caído logo depois dele. Arfando e ofegando, ele foi avançando na água. Não era fácil se manter à tona; o casaco e o manto já estavam ensopados, e as botas, cheias d’água. Olhou ao redor à procura de Egwene, mas só viu o brilho do luar refletido na água negra, agitada pelo vento.

— Egwene? Egwene!

Uma lança passou num relance bem diante de seus olhos e jogou água em seu rosto. Outras caíram no rio ao seu redor. Vozes guturais se erguiam, numa discussão na margem do rio, e as lanças dos Trollocs cessaram, mas ele desistiu de chamar Egwene por ora.

A corrente o arrastou rio abaixo, mas os gritos e rosnados o seguiram ao longo da margem, mantendo o mesmo ritmo. Ele soltou o manto e deixou o rio levá-lo. Um pouco menos de peso para puxá-lo para baixo. Obstinadamente, pôs-se a nadar na direção da outra margem. Não havia Trollocs lá. Assim ele esperava.

Nadou do jeito que faziam em sua terra, nos lagos da Floresta das Águas, dando braçadas simultâneas, chutando com os dois pés, mantendo a cabeça fora da água. Ou ao menos tentava deixar a cabeça fora d’água, o que não era fácil. Mesmo sem o manto, o casaco e as botas pareciam pesar tanto quanto ele. E o machado pesava em sua cintura, ameaçando fazê-lo virar, isso se não o puxasse para baixo. Pensou em deixar que o rio o levasse também; pensou nisso mais de uma vez. Seria fácil, muito mais fácil do que tentar tirar as botas, por exemplo. Mas toda vez que pensava nisso ele imaginava sair na outra margem e deparar com Trollocs à sua espera. O machado não o ajudaria muito contra meia dúzia de Trollocs, talvez nem mesmo contra um, mas era melhor que as mãos vazias.

Depois de um tempo ele não tinha certeza sequer de que seria capaz de erguer o machado se houvesse Trollocs. Seus braços e pernas viraram chumbo; movê-los demandava um grande esforço, e seu rosto não saía mais inteiramente do rio a cada braçada. Ele tossia com a água que lhe entrava pelo nariz. Um dia na forja nem se compara com isto aqui, pensou, cansado, e nesse instante seu pé bateu em alguma coisa. Só quando deu o chute seguinte ele percebeu o que era. O fundo. Estava na parte rasa. Estava do outro lado do rio.

Arquejando, ele se pôs de pé, debatendo-se no instante em que as pernas quase cederam. Conseguiu tirar o machado do cinto quando chegou à margem, tremendo ao vento. Não viu nenhum Trolloc. Também não viu Egwene. Apenas algumas árvores dispersas ao longo da margem e uma faixa de luar sobre a água.

Quando voltou a respirar normalmente, tornou a chamar seus nomes. Gritos fracos do outro lado lhe responderam; mesmo àquela distância ele conseguiu distinguir as vozes roucas dos Trollocs. Mas seus amigos não responderam.

O vento ficou mais forte, seu uivo abafando as vozes dos Trollocs, e ele começou a tremer. Não estava frio o bastante para congelar a água que encharcava suas roupas, mas Perrin sentia como se isso estivesse acontecendo; o vento cortava os ossos com uma lâmina de gelo. Abraçar a si mesmo era apenas um gesto que não cessava os tremores. Sozinho e exausto, subiu a margem do rio em busca de um abrigo contra o vento.

Rand dava palmadinhas no pescoço de Nuvem, acalmando o tordilho com sussurros. O cavalo sacudiu a cabeça e bateu as patas. Os Trollocs haviam sido deixados para trás, ou assim parecia, mas Nuvem tinha o cheiro deles ainda forte nas narinas. Mat cavalgava com uma flecha encaixada no arco, atento a qualquer surpresa que surgisse da noite, enquanto Rand e Thom espiavam entre os galhos, procurando a estrela vermelha que os guiava. Mantê-la à vista havia sido bem fácil, mesmo com todos os galhos acima, contanto que estivessem cavalgando direto para ela. Mais Trollocs haviam aparecido adiante, porém, e eles saíram galopando para o lado com ambos os bandos uivando em seu encalço. Os Trollocs podiam manter o mesmo ritmo de um cavalo, mas apenas durante uns cem passos aproximadamente, e finalmente os três deixaram a perseguição e os uivos para trás. Mas, com todas as curvas e voltas que tinham feito, haviam perdido a estrela-guia.

— Eu ainda digo que é naquela direção — disse Mat, apontando para sua direita. — Nós íamos para o norte, e isso significa leste naquela direção.

— Lá está ela — anunciou Thom subitamente, apontando através dos galhos emaranhados à esquerda deles. Mat resmungou alguma coisa entredentes.

Pelo canto do olho, Rand captou o movimento quando um Trolloc saltou de trás de uma árvore em completo silêncio, balançando seu cambão. Rand enterrou os calcanhares, e o tordilho disparou à frente no exato instante em que mais dois saltavam das sombras atrás do primeiro. Um laço roçou a nuca de Rand, fazendo um arrepio percorrer sua espinha.

Uma flecha acertou o olho de uma das feras, e em seguida Mat estava a seu lado enquanto os cavalos disparavam por entre as árvores. Estavam correndo na direção do rio, ele percebeu, mas não tinha certeza se isso adiantaria de alguma coisa. Os Trollocs dispararam atrás deles, quase perto o bastante para estender a mão e agarrar a cauda de seus cavalos. Mais meio passo e os cambões arrancariam ambos de suas selas.

Ele se curvou sobre o pescoço do tordilho para aumentar um pouco mais a distância entre o seu próprio pescoço e os laços. O rosto de Mat estava quase enterrado na crina de seu cavalo. Mas Rand se perguntou onde Thom estaria. Teria o menestrel decidido que estaria melhor por conta própria, uma vez que todos os três Trollocs haviam se concentrado nos rapazes?