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— Gelb! — berrou. — Fortuna! Cadê você, Gelb? — Ele falava tão rápido, com todas as palavras coladas umas nas outras, que Rand mal conseguia entendê-lo. — Você não pode se esconder de mim no meu próprio barco! Tragam Floran Gelb cá fora!

Um tripulante apareceu com uma lanterna, e outros dois chegaram empurrando um homem de rosto estreito para o círculo de luz que ela lançava. Rand reconheceu o sujeito que lhe havia oferecido o barco. Os olhos do homem iam de um lado para o outro, sem encarar os do homem atarracado. O capitão, pensou Rand. Uma mancha roxa começava a aparecer na testa de Gelb onde uma de suas botas o havia atingido.

— Você não deveria amarrar esta retranca, Gelb? — perguntou o capitão com uma calma surpreendente, embora com a mesma rapidez de antes.

Gelb pareceu verdadeiramente surpreso.

— Mas foi o que eu fiz. Amarrei bem amarrado. Confesso que sou um pouco lento nas coisas de vez em quando, Capitão Domon, mas eu faço.

— Então você é lento, é? Não tão lento para dormir. Dormir quando devia estar montando guarda. Poderíamos estar todos mortos agora se dependesse de você.

— Não, Capitão, não. Foi ele. — Gelb apontou direto para Rand. — Eu estava de guarda, do jeito que devia estar, quando ele chegou de fininho e me atacou com um porrete. — Ele tocou o machucado na cabeça, fez uma careta pela dor e olhou fuzilando para Rand. — Eu lutei com ele, mas aí os Trollocs vieram. Ele está mancomunado com eles, Capitão. Um Amigo das Trevas. Mancomunado com os Trollocs.

— Mancomunado é com a minha avó! — rugiu o Capitão Domon. — Eu não avisei da última vez, Gelb? É em Ponte Branca que você cai fora! Some da minha vista antes que eu lhe ponha para fora agora. — Gelb saiu correndo da luz do lampião, e Domon ficou ali, abrindo e fechando as mãos enquanto olhava fixamente para o nada. — Esses Trollocs ficam a me seguir. Por que não me deixam em paz? Por quê?

Rand olhou sobre a amurada e ficou chocado por não ver mais a margem do rio. Dois homens manobravam o longo braço do leme que despontava da popa, e seis remos trabalhavam na lateral, puxando a embarcação como um inseto batendo suas múltiplas patas para avançar rio adentro.

— Capitão — disse Rand —, nós temos amigos que ficaram para trás. Se o senhor voltar e apanhá-los, tenho certeza de que irão recompensá-lo.

O rosto redondo do capitão girou na direção de Rand, e quando Thom e Mat apareceram, ele também os incluiu em seu olhar sem expressão.

— Capitão — começou Thom com uma mesura —, permita-me…

— Vocês desçam — disse o Capitão Domon — para onde eu possa ver que espécie de coisa apareceu no meu convés. Vamos. A fortuna me deixe! Alguém prenda esta maldita retranca dos chifres! — Enquanto os tripulantes corriam para pegar a retranca, ele saiu pisando forte na direção da popa. Rand e seus dois companheiros foram atrás.

O Capitão Domon tinha uma cabine bem-arrumada na popa, acessível descendo-se uma pequena escada, onde tudo dava a impressão de estar em seu devido lugar, até os casacos e mantos pendurados em pinos atrás da porta. A cabine se estendia por toda a largura do barco, com uma cama grande fixada em um dos lados e uma mesa pesada embutida no lado oposto. Só havia uma cadeira, com espaldar alto e braços fortes, e nela o capitão se acomodou, gesticulando para que os outros encontrassem lugares sobre diversas arcas e bancos que eram as únicas outras peças do mobiliário. Um longo pigarro impediu Mat de se sentar na cama.

— Bem — disse o capitão quando estavam todos sentados —, meu nome é Bayle Domon, capitão e proprietário do Espuma, que vem a ser este navio. Agora, quem são vocês, e para onde vão aqui no meio do nada, e por que eu não deveria jogar vocês pela amurada pelos problemas que me causaram?

Rand ainda tinha dificuldade em acompanhar a fala veloz de Domon. Quando conseguiu entender a última parte do que o capitão dissera, piscou, surpreso. Nos lançar pela amurada?

Mat disse, apressado:

— Não queríamos causar nenhum problema ao senhor. Estamos a caminho de Caemlyn, e de lá para…

— E de lá para onde o vento nos levar — interrompeu Thom com naturalidade. — É assim que os menestréis viajam, como poeira ao vento. Eu sou um menestrel, sabe? Thom Merrilin é o meu nome. — Ele virou seu manto de modo que os retalhos multicores se agitaram, como se o capitão pudesse não ter notado. — Estes dois caipiras querem se tornar meus aprendizes, embora eu ainda não tenha muita certeza de que os quero. — Rand olhou para Mat, que sorriu.

— Sim, até aí tudo muito bem, homem — disse o Capitão Domon placidamente —, mas isso não me diz nada. Menos ainda. A fortuna me morda, aquele lugar não é estrada para Caemlyn de lugar nenhum que eu já tenha ouvido falar.

— Bem, essa é uma senhora história — disse Thom, e começou a contá-la imediatamente.

Segundo Thom, ele havia ficado preso pelas neves do inverno numa cidade mineradora nas Montanhas da Névoa além de Baerlon. Durante o tempo em que estivera lá, ouvira lendas sobre um tesouro que datava das Guerras dos Trollocs, nas ruínas perdidas de uma cidade chamada Aridhol. Acontece que, por acaso, ele havia sabido antes a localização de Aridhol por um mapa que lhe fora dado muitos anos atrás por um amigo moribundo em Illian, cuja vida ele um dia tinha salvado, um homem cujas últimas palavras haviam afirmado que o mapa tornaria Thom rico, coisa em que Thom jamais acreditara até ouvir aquelas lendas. Quando as neves derreteram o suficiente, ele partira com alguns companheiros, incluindo seus dois futuros aprendizes, e depois de uma jornada de muitas adversidades eles haviam de fato encontrado a cidade em ruínas. No entanto, o tesouro pertencera a um dos próprios Senhores do Medo, e os Trollocs haviam sido enviados para levá-lo de volta a Shayol Ghul. Quase todos os perigos que eles tinham enfrentado de verdade, Trollocs, Myrddraal, Draghkar, Mordeth, Mashadar, os haviam atacado em um ponto ou outro da história, embora a maneira como Thom contava fizesse parecer que todos o haviam tido pessoalmente como alvo, e que todos tinham sido combatidos por ele com a maior destreza. Com muita bravura, principalmente da parte de Thom, eles haviam escapado, perseguidos por Trollocs, embora tivessem se separado na escuridão da noite, até que finalmente Thom e seus dois companheiros buscaram refúgio no último lugar que lhes restara, o muito bem-vindo barco do Capitão Domon.

Quando o menestrel chegou ao fim da história, Rand percebeu que estava de boca aberta havia algum tempo, e a fechou com um estalido. Quando olhou para Mat, o amigo olhava para o menestrel com os olhos arregalados.

O Capitão Domon batucou os dedos no braço da cadeira.

— É uma história em que muita gente não creria. Mas, naturalmente, eu vi os Trollocs, sim, como não?

— Cada palavra que eu disse é verdadeira — afirmou Thom suavemente —, contada por alguém que a viveu.

— E acontece de ter uma parte desse tesouro aí com vocês?

Thom estendeu as mãos em sinal de tristeza.

— Infelizmente, o pouco que conseguimos carregar estava com nossos cavalos, que fugiram quando esses últimos Trollocs apareceram. Tudo que me resta são minha flauta e minha harpa, alguns cobres e as roupas que levo comigo. Mas, creia em mim, o senhor não vai querer nada daquele tesouro. Ele tem a mácula do Tenebroso. Melhor deixá-lo para as ruínas e os Trollocs.

— Então vocês nem têm dinheiro para pagar a passagem. Eu não deixaria meu próprio irmão navegar comigo se ele não pudesse pagar a passagem, especialmente se trouxesse Trollocs para atacar minhas amuradas e cortar meu cordame. Por que eu não deveria deixar vocês nadarem de volta para onde vieram, e me livrar de vocês?