— Você não iria simplesmente nos deixar na margem… — disse Mat. — Não com Trollocs por lá…
— Quem falou em margem? — respondeu Domon com secura. Ele os estudou por um momento, depois abriu bem as mãos sobre a mesa. — Bayle Domon é, sim, um homem razoável. Eu não jogaria vocês pela amurada se houvesse outra maneira. Agora, vejo que um de seus aprendizes tem uma espada. Preciso de uma boa espada e, bom sujeito que sou, vou deixar que tenham passagem até Ponte Branca em troca dela.
Thom abriu a boca, mas Rand falou rapidamente:
— Não! — Tam não lhe dera a espada para que ele a trocasse por qualquer coisa. Correu a mão pelo cabo, sentindo a garça de bronze. Enquanto a tivesse, era como se Tam estivesse com ele.
Domon balançou a cabeça.
— Bem, se é não, é não. Mas Bayle Domon não dá passagem de graça, nem para a própria mãe.
Com relutância, Rand esvaziou o bolso. Não havia muito. Alguns cobres e a moeda de prata que Moiraine lhe dera. Ele a estendeu para o capitão. Depois de um segundo, Mat suspirou e fez o mesmo. Thom fuzilou-os com os olhos, mas um sorriso substituiu a expressão tão rapidamente que Rand não soube ao certo se ela estivera mesmo ali.
Habilmente, o Capitão Domon tirou as duas enormes moedas de prata das mãos dos rapazes e retirou uma pequena balança e uma sacolinha tilintante de dentro de uma arca com acabamento em latão atrás de sua cadeira. Depois de pesá-las com cuidado, jogou as moedas na sacola e devolveu a cada um deles moedas menores de prata e cobre. A maioria de cobre.
— Até Ponte Branca — disse ele, fazendo uma anotação meticulosa num livro-caixa de capa de couro.
— É uma passagem pesada só até Ponte Branca — resmungou Thom.
— Mais o dano ao meu barco — respondeu o capitão placidamente. Colocou a balança e a sacolinha de volta na arca e a fechou, satisfeito. — E mais um pouco por trazerem Trollocs para cima de mim de modo que tenho de correr rio abaixo no meio da noite quando há baixios de sobra para me fazerem encalhar.
— E os outros? — perguntou Rand. — Você vai pegá-los também? Eles já devem ter chegado ao rio a esta altura, ou logo chegarão, e verão a luz no seu mastro.
O Capitão Domon ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Por acaso acha que estamos parados, homem? A fortuna me morda, estamos três, quatro milhas rio abaixo de onde vocês embarcaram. Trollocs fazem esses sujeitos porem toda a força nos remos. Eles conhecem Trollocs mais do que gostariam… e a corrente também ajuda. Mas não faz diferença. Eu não pararia esta noite mesmo que a minha velha avozinha estivesse na margem do rio. Pode ser que eu nem volte à terra novamente até chegar a Ponte Branca. Já tive minha cota de Trollocs nos meus calcanhares muito antes desta noite, e não terei mais, se puder evitar.
Thom inclinou-se para a frente, interessado.
— O senhor já teve encontros com Trollocs antes? Ultimamente?
Domon hesitou, estreitando os olhos para Thom, mas, quando falou, parecia haver apenas repugnância em sua voz.
— Passei o inverno em Saldaea, homem. Passei. Não foi escolha minha, mas o rio congelou cedo e o gelo quebrou tarde. Dizem que dá para ver a Praga das torres mais altas de Maradon, mas nem tive cabeça para isso. Já estive lá antes, e sempre houve histórias de Trollocs atacando uma fazenda ou coisa parecida. No entanto, nesse último inverno havia fazendas pegando fogo toda noite. É, e aldeias inteiras também, às vezes. Eles até chegaram às muralhas da cidade. E, como se isso já não fosse ruim o bastante, todos falam que isso quer dizer que o Tenebroso está inquieto, que os Últimos Dias estão chegando. — Ele estremeceu e coçou a cabeça como se pensar nisso fizesse seu couro cabeludo comichar. — Mal posso esperar para voltar para onde as pessoas acham que os Trollocs são só história, e que as histórias que eu conto são mentira de viajante.
Rand parou de escutar. Ficou encarando a parede oposta e pensou em Egwene e nos outros. Não parecia certo ele estar a salvo no Espuma enquanto eles ainda estavam lá em algum lugar no meio da noite. A cabine do capitão não pareceu mais tão confortável quanto antes.
Surpreendeu-se quando Thom o puxou para que se levantasse. O menestrel empurrou Mat e ele na direção da escada, pedindo desculpas ao Capitão Domon pelos caipiras. Rand subiu sem dizer palavra.
Assim que se viram no convés, Thom olhou ao redor rapidamente para se certificar de que ninguém mais o ouviria, então grunhiu:
— Eu poderia ter conseguido nossa passagem em troca de algumas canções e histórias se vocês dois não tivessem saído mostrando a prata com tanta pressa.
— Não tenho tanta certeza — disse Mat. — Para mim, ele parecia sério quando falou em nos jogar no rio.
Rand caminhou devagar até a amurada e se debruçou sobre ela, olhando para trás, para o rio envolto na noite. Não conseguia ver nada a não ser o negror, nem mesmo a margem. Depois de um minuto, Thom pôs a mão em seu ombro, mas ele não se moveu.
— Não há nada que você possa fazer, rapaz. Além disso, a esta altura eles provavelmente estão seguros com a… com Moiraine e Lan. Você consegue pensar em alguém melhor do que aqueles dois para fazê-los escapar?
— Eu tentei convencê-la a não vir — disse Rand.
— Você fez o que pôde, rapaz. Ninguém poderia pedir mais do que isso.
— Eu disse a ela que cuidaria dela. Devia ter me esforçado mais. — O rangido das velas e o zumbido do cordame no vento criavam uma melodia triste. — Devia ter me esforçado mais — sussurrou.
21
Escute o Vento
O sol nascendo sobre o Rio Arinelle abriu caminho até a pequena grota não muito longe da margem, onde Nynaeve estava sentada com as costas apoiadas no tronco de um carvalho novo, respirando pesadamente no sono. Seu cavalo também dormia, cabeça baixa e pernas dobradas à maneira dos cavalos. As rédeas estavam enroladas em seu pulso. Quando a luz do sol pousou nas pálpebras do cavalo, o animal abriu os olhos e levantou a cabeça, puxando as rédeas. Nynaeve acordou com um susto.
Por um momento ela ficou parada, tentando descobrir onde estava, então olhou ao redor ainda mais assustada quando se lembrou. Mas só havia as árvores, seu cavalo e um tapete de folhas velhas e secas no fundo da grota. Na penumbra mais profunda, alguns dos cogumelos mão-de-sombra do ano anterior formavam anéis em um tronco caído.
— A Luz a proteja, mulher — murmurou ela, voltando a relaxar —, se você não consegue ficar acordada nem por uma noite. — Ela desamarrou as rédeas e massageou o pulso ao se levantar. — Você podia ter acordado no caldeirão de um Trolloc.
As folhas mortas farfalharam quando ela subiu na beira da grota e espiou. Não havia mais do que um punhado de freixos entre ela e o rio. A casca rachada e os galhos nus lhes davam um aspecto de árvores mortas. Mais adiante, corria o rio largo de águas azul-esverdeadas. Vazio. Vazio de tudo. Grupos dispersos de coníferas, salgueiros e abetos pontilhavam a outra margem, e parecia haver menos árvores do que no lado onde ela estava. Se Moiraine ou algum dos jovens estava lá, estava bem escondido. Naturalmente, não havia motivo para que eles tivessem atravessado, ou tentado atravessar, à vista de onde ela estava. Podiam estar em qualquer lugar dez milhas rio acima ou abaixo. Se é que estavam vivos, depois de ontem à noite.
Com raiva de si mesma por pensar nessa possibilidade, ela deslizou de volta à grota. Nem mesmo a Noite Invernal, ou a batalha antes de Shadar Logoth, a haviam preparado para aquela noite, para aquela coisa, Mashadar. Todo aquele galope frenético, perguntando-se se mais alguém ainda estaria vivo, imaginando quando se defrontaria com um Desvanecido, ou com Trollocs. Ouvira grunhidos e gritos de Trollocs ao longe, e os sons agudos e trêmulos das cornetas dos Trollocs a haviam gelado mais profundamente do que o vento poderia, mas, afora aquele primeiro encontro nas ruínas, ela vira Trollocs apenas uma vez, e mesmo assim já do lado de fora. Uns dez deles pareceram brotar do chão menos de dez braças à frente dela, disparando em sua direção imediatamente, uivando e gritando, brandindo cambões com ganchos. Contudo, enquanto ela tentava dar meia-volta com o cavalo, eles se calaram, erguendo os focinhos para farejar o ar. Ela ficou olhando, estupefata demais para fugir, vendo-os lhe dar as costas e desaparecer na noite. E aquilo havia sido o mais assustador de tudo.