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— Eles conhecem o cheiro de quem querem — disse a seu cavalo, parado na grota —, e esse alguém não sou eu. A Aes Sedai tem razão, ao que parece. O Pastor da Noite que a engula.

Tomando uma decisão, ela partiu rio abaixo, conduzindo seu cavalo. Seguia devagar, olhando, desconfiada, para a floresta ao redor; só porque os Trollocs não a haviam querido na noite anterior não significava que a deixariam em paz se topasse com eles novamente. Por mais cuidado que tomasse com a floresta, dava ainda mais atenção ao chão à sua frente. Se os outros tivessem atravessado mais abaixo durante a noite, deveria ver alguns sinais deles, sinais que poderia perder se estivesse montada. Talvez ela até mesmo os encontrasse ainda daquele lado. Se não achasse nada, o rio acabaria por levá-la até Ponte Branca, e de lá havia uma estrada que ia para Caemlyn, seguindo até Tar Valon se preciso fosse.

A perspectiva era quase o suficiente para intimidá-la. Antes, ela se afastara de Campo de Emond não mais que os rapazes. Barca do Taren já lhe parecera estranha; Baerlon a teria deixado pasma se ela não estivesse tão concentrada em encontrar Egwene e os outros. Mas não permitiu que nada disso enfraquecesse sua resolução. Mais cedo ou mais tarde encontraria Egwene e os rapazes. Ou encontraria um jeito de fazer a Aes Sedai responder pelo que quer que tivesse acontecido com eles. Uma coisa ou outra, jurou ela.

De quando em quando encontrava rastros, muitos rastros, mas seus melhores esforços não eram suficientes para dizer se aqueles que os haviam feito estavam procurando algo, caçando ou sendo caçados. Alguns haviam sido feitos por botas que podiam pertencer tanto a humanos quanto a Trollocs. Outros eram marcas de cascos, como de bodes ou bois; esses com certeza eram Trollocs. Mas nunca um sinal claro que ela pudesse dizer definitivamente que vinha de qualquer daqueles que ela procurava.

Havia percorrido talvez quatro milhas quando o vento trouxe até ela um leve cheiro de fumaça de lenha. Vinha de mais abaixo no rio, e não de muito longe, pensou. Hesitou apenas um momento antes de amarrar seu cavalo a um abeto, bem afastado do rio, num pequeno e denso bosque de coníferas que deveria manter o animal oculto. A fumaça poderia significar Trollocs, mas a única forma de descobrir era olhar. Tentou não pensar no uso que os Trollocs poderiam estar fazendo de uma fogueira.

Abaixada, foi se esgueirando de uma árvore a outra, amaldiçoando mentalmente as saias que tinha de manter levantadas. Vestidos não eram feitos para espreitar ninguém. O som de um cavalo a fez ir mais devagar, e, quando finalmente olhou com cuidado ao redor do tronco de um freixo, o Guardião estava desmontando de seu cavalo de guerra negro em uma pequena clareira na margem. A Aes Sedai encontrava-se sentada num tronco ao lado de uma fogueirinha onde uma chaleira com água começava a ferver. Atrás dela, sua égua branca procurava algo para comer entre ervas esparsas. Nynaeve permaneceu onde estava.

— Todos se foram — anunciou Lan, em tom sombrio. — Quatro Meios-homens partiram para o sul cerca de duas horas antes do amanhecer, até onde pude descobrir. Eles não deixam muitos vestígios. Mas os Trollocs desapareceram. Até mesmo os cadáveres, e os Trollocs não são conhecidos por carregarem seus mortos. A menos que estejam famintos.

Moiraine jogou um punhado de alguma coisa dentro da água fervente e tirou a chaleira do fogo.

— Sempre se pode torcer para que eles tenham voltado para Shadar Logoth e sido consumidos por ela, mas seria esperar demais por isso.

O odor delicioso de chá chegou ao nariz de Nynaeve. Luz, não deixe meu estômago roncar.

— Não havia nenhum sinal claro dos rapazes, nem de nenhum dos outros. As trilhas estão confusas demais para dizer qualquer coisa. — Em seu esconderijo, Nynaeve sorriu; o fracasso do Guardião era uma pequena vingança para o dela. — Mas há outra coisa importante, Moiraine — continuou Lan, franzindo a testa. Ele dispensou com um gesto a oferta de chá da Aes Sedai e começou a marchar de um lado para o outro na frente da fogueira, uma das mãos no punho da espada e o manto mudando de cores quando ele se virava. — Eu pude aceitar Trollocs nos Dois Rios, até mesmo uma centena deles. Mas isso? Devia haver quase mil à nossa caça ontem.

— Tivemos muita sorte por nem todos terem ficado para vasculhar Shadar Logoth. Os Myrddraal devem ter duvidado que fôssemos nos esconder lá, mas eles também temiam retornar a Shayol Ghul deixando até uma possibilidade por menos que fosse inexplorada. O Tenebroso nunca foi um mestre tolerante.

— Não tente fugir do assunto. Você sabe do que eu estou falando. Se aqueles mil estavam aqui para serem mandados para os Dois Rios, por que não foram? Só existe uma resposta. Eles só foram mandados depois que atravessamos o Taren, quando se percebeu que um Myrddraal e cem Trollocs não eram suficientes. Como? Como eles foram enviados? Se mil Trollocs podem ser trazidos até um ponto tão distante da Praga, tão rapidamente, sem serem vistos, para não falar em serem retirados da mesma maneira, será que dez mil podem ser enviados para o coração de Saldaea, Arafel ou Shienar? As Terras da Fronteira poderiam ser tomadas em um ano.

— O mundo inteiro será tomado em cinco se não encontrarmos esses rapazes — disse Moiraine simplesmente. — A questão também me preocupa, mas não tenho respostas. Os Caminhos estão fechados, e não existe uma Aes Sedai poderosa o bastante para Viajar, desde o Tempo da Loucura. A menos que um dos Abandonados esteja à solta, queira a Luz que isto não aconteça, nem agora nem nunca, ainda não há quem possa. De qualquer maneira, acho que nem mesmo todos os Abandonados juntos poderiam transportar mil Trollocs. Vamos lidar com os problemas que temos diante de nós aqui e agora; todo o resto deve esperar.

— Os garotos. — Não era uma pergunta.

— Não fiquei parada enquanto você esteve fora. Um deles atravessou o rio, vivo. Quanto aos outros, havia um traço fraco rio abaixo, mas ele se desfez quando o encontrei. O vínculo havia sido rompido horas antes que eu iniciasse minha busca.

Abaixada atrás da árvore, Nynaeve franziu a testa, intrigada.

Lan parou de andar.

— Você acha que os Meios-homens que estão indo para o sul estão com eles?

— Talvez. — Moiraine se serviu de uma xícara de chá antes de continuar. — Mas não vou admitir a possibilidade de que eles estejam mortos. Não posso. Não me atrevo. Você sabe o quanto está em jogo. Preciso daqueles rapazes. Que Shayol Ghul os cace, eu já espero. Oposição dentro da Torre Branca, até mesmo do Trono de Amyrlin, eu aceito. Sempre haverá Aes Sedai que aprovam uma única solução. Mas… — Subitamente ela pousou a xícara e se endireitou, fazendo uma careta. — Se você vigiar demais o lobo — resmungou ela —, um rato lhe morde o calcanhar. — E ela então olhou diretamente para a árvore atrás da qual Nynaeve estava se escondendo. — Senhora al’Meara, pode sair agora, se quiser.

Nynaeve se levantou, desajeitada, limpando apressadamente folhas mortas do vestido. Lan havia girado para encarar a árvore assim que os olhos de Moiraine se moveram; sua espada estava na mão antes que ela terminasse de dizer o nome de Nynaeve. Então ele tornou a embainhá-la com mais força do que o necessário. Seu rosto estava quase tão inexpressivo quanto sempre, mas Nynaeve achou ter visto um quê de contrariedade no jeito como a boca do Guardião se crispou. Ela sentiu uma pontada de satisfação; pelo menos ele não havia percebido sua presença.