Mas essa satisfação durou apenas um momento. Ela fixou os olhos em Moiraine e caminhou até ela, firme em seu propósito. Queria permanecer fria e calma, mas sua voz tremia de fúria.
— No que você meteu Egwene e os rapazes? Em que tramas perversas das Aes Sedai você está planejando usá-los?
A Aes Sedai pegou sua xícara e provou calmamente o chá. Entretanto, quando Nynaeve chegou mais perto, Lan estendeu um braço para barrar seu caminho. Ela tentou empurrá-lo para o lado, e ficou surpresa quando o braço do Guardião não se moveu mais do que o faria um galho de carvalho. Ela não era frágil, mas os músculos dele eram como ferro.
— Chá? — ofereceu Moiraine.
— Não, eu não quero chá nenhum. Não beberia o seu chá nem que estivesse morrendo de sede. Você não vai usar ninguém de Campo de Emond nos seus esqueminhas sujos de Aes Sedai.
— Você não tem muito motivo para falar, Sabedoria. — Moiraine demonstrava mais interesse no chá quente do que em qualquer coisa que ela estivesse falando. — Você também pode usar o Poder Único, de certa forma.
Nynaeve voltou a empurrar o braço de Lan; ele continuou imóvel, e ela decidiu ignorá-lo.
— Por que você não experimenta me acusar de ser um Trolloc?
O sorriso de Moiraine tinha tanto ar de quem sabia mais do que estava falando que Nynaeve teve vontade de bater nela.
— Você acha que posso ficar cara a cara com uma mulher que pode tocar a Fonte Verdadeira e canalizar o Poder Único, ainda que apenas de vez em quando, sem saber o que ela é? Assim como você sentiu o potencial de Egwene. Como acha que eu sabia que você estava atrás daquela árvore? Se eu não estivesse distraída, teria percebido no instante exato em que você se aproximou. Você com certeza não é um Trolloc para que eu possa sentir o mal do Tenebroso. Então, o que foi que eu senti, Nynaeve al’Meara, Sabedoria de Campo de Emond e usuária inconsciente do Poder Único?
Lan estava olhando para Nynaeve de um jeito que não lhe agradava; surpreso e intrigado, ao que lhe pareceu, embora nada tivesse mudado em seu rosto a não ser os olhos. Egwene era especial; disso ela sempre soubera. Egwene daria uma ótima Sabedoria. Eles estão trabalhando em conjunto, ela pensou, tentando me desequilibrar.
— Eu não vou ouvir mais nada disso. Você…
— Você precisa ouvir — disse Moiraine com firmeza. — Tive minhas suspeitas em Campo de Emond mesmo antes de conhecer você. As pessoas me diziam como a Sabedoria estava irritada por não ter previsto o rigor do inverno e a primavera tardia. Diziam-me como ela era boa em prever o tempo, as colheitas; diziam como as curas dela eram maravilhosas, como ela às vezes sarava ferimentos capazes de deixar as pessoas aleijadas, e os curava tão bem que mal se via uma cicatriz, e as pessoas nem sequer mancavam ou sentiam dor. As únicas palavras duras que ouvi a seu respeito foram de algumas pessoas que a achavam jovem demais para essa responsabilidade, e isso só reforçou minhas suspeitas. Tanta habilidade com tão pouca idade…
— A Senhora Barran me ensinou bem. — Ela tentou olhar para Lan, mas os olhos dele ainda a deixavam incomodada, então decidiu olhar para o rio, por cima da cabeça da Aes Sedai. Como a aldeia ousa ficar de mexericos na frente de uma estrangeira! — Quem disse que eu era jovem demais? — exigiu saber.
Moiraine sorriu, recusando-se a se deixar distrair.
— Ao contrário da maioria das mulheres que afirmam escutar o vento, você tem mesmo essa capacidade, às vezes. Ah, isso nada tem a ver com o vento, é claro. Está ligado ao Ar e à Água. Não é algo que precise ser ensinado; nasceu com você, assim como nasceu com Egwene. Mas você aprendeu a lidar com isso, coisa que ela ainda precisa aprender. Dois minutos depois de ficar cara a cara com você, eu já sabia. Lembra-se de como lhe perguntei de repente se você era a Sabedoria? Ora, por que pensa que eu fiz isso? Não havia nada que a distinguisse de qualquer outra moça bonita se aprontando para o Festival. Mesmo procurando por uma Sabedoria jovem, eu esperava alguém com uma vez e meia a sua idade.
Nynaeve se lembrava bem demais daquele encontro; aquela mulher, mais segura de si do que qualquer uma do Círculo das Mulheres, com um vestido mais bonito do que qualquer outro que ela já tivesse visto, dirigindo-se a ela como se ela fosse uma criança. Então, Moiraine havia subitamente piscado, como se surpresa, e do nada perguntado…
Ela passou a língua pelos lábios subitamente secos. Os dois estavam olhando para ela, o rosto do Guardião tão impossível de ler quanto uma pedra, o da Aes Sedai, compreensivo, mas bastante atento. Nynaeve balançou a cabeça.
— Não! Não, é impossível. Eu saberia. Vocês estão apenas tentando me enganar, e isso não vai funcionar.
— É claro que você não sabe — disse Moiraine em tom tranquilizador. — Por que você deveria suspeitar? Por toda sua vida você ouviu sobre escutar o vento. De qualquer maneira, você preferiria anunciar a todo Campo de Emond que era uma Amiga das Trevas a admitir para si mesma, mesmo nos recantos mais fundos de sua mente, que tem alguma coisa a ver com o Poder Único, ou com as temidas Aes Sedai. — Um quê de divertimento perpassou o rosto de Moiraine. — Mas eu posso lhe dizer como isso começou.
— Eu não quero ouvir mais nenhuma das suas mentiras — respondeu Nynaeve, mas a Aes Sedai continuou falando.
— Talvez cerca de oito ou dez anos atrás… a idade varia, mas a coisa sempre acontece numa idade bem tenra… você desejava alguma coisa mais do que qualquer outra no mundo, algo de que você precisava. E você conseguiu. Um galho subitamente caindo onde você pudesse apanhá-lo a fim de sair de um lago e não se afogar. Um amigo, ou um animal de estimação, melhorando quando todos pensavam que ia morrer.
“Você não sentiu nada de especial naquele momento, mas uma semana ou dez dias depois teve sua primeira reação ao fato de tocar a Fonte Verdadeira. Talvez uma febre e calafrios que surgiram subitamente e a fizeram ficar de cama, para desaparecer depois de apenas algumas horas. Nenhuma das reações, e elas variam, dura mais do que algumas horas. Dores de cabeça, entorpecimento e euforia, tudo isso misturado, e você correndo riscos tolos ou agindo de forma imatura. Uma tontura súbita, quando você tropeçava e caía sempre que tentava se mover, quando não conseguia dizer uma frase sem que a língua mutilasse metade das palavras. E outras coisas mais. Você se lembra?”
Nynaeve se sentou pesadamente no chão; as pernas não suportavam seu peso. Ela se lembrava, mas balançou a cabeça em negativa assim mesmo. Tinha de ser coincidência. Ou então Moiraine havia feito mais perguntas em Campo de Emond do que ela pensava. A Aes Sedai fizera uma quantidade enorme de perguntas. Tinha de ser isso. Lan lhe estendeu a mão, mas ela nem sequer notou.
— Irei além — disse Moiraine quando Nynaeve continuou em silêncio. — Você usou o Poder para Curar ou Perrin ou Egwene em algum momento. Uma afinidade se desenvolve. Você consegue sentir a presença de alguém a quem Curou. Em Baerlon você foi direto à Cervo e Leão, embora não fosse a estalagem mais próxima de nenhum portão pelo qual você pudesse ter entrado. Das pessoas de Campo de Emond, apenas Perrin e Egwene estavam na estalagem quando você chegou. Foi Perrin ou foi Egwene? Ou os dois?
— Egwene — murmurou Nynaeve. Ela nunca pensara muito na capacidade que às vezes tinha de dizer quem estava se aproximando dela, mesmo quando não podia ver a pessoa; e até aquele instante não havia se dado conta de que era sempre alguém em quem suas curas haviam funcionado de forma quase milagrosa. E ela sempre soubera quando o remédio iria funcionar para além das expectativas, sempre sentira a certeza quando dizia que as colheitas seriam especialmente boas, ou que as chuvas viriam cedo ou tarde. Era como ela achava que deveria ser. Nem todas as Sabedorias conseguiam escutar o vento, mas as melhores sim. Era o que a Senhora Barran sempre dizia, assim como dizia que Nynaeve seria uma das melhores.