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— Eu dei a cada um dos rapazes uma moeda, que criou uma espécie de vínculo entre mim e eles. Contanto que eles estejam vivos e de posse dessas moedas, serei capaz de encontrá-los. — Nynaeve voltou seus olhos na direção em que o Guardião havia seguido, e Moiraine balançou a cabeça. — Não assim. Esse vínculo só me permite saber se eles ainda estão vivos, e encontrá-los caso nos separemos. Prudente sob tais circunstâncias, não acha?

— Não gosto de nada que conecte você a qualquer um de Campo de Emond — disse Nynaeve com teimosia. — Mas se ajudar a encontrá-los…

— Ajudará. Eu buscaria o jovem que está do outro lado do rio primeiro, se pudesse. — Por um momento, a voz da Aes Sedai ganhou um quê de frustração. — Ele está a apenas algumas milhas de nós. Mas não posso me dar ao luxo de usar esse tempo. Ele deverá chegar a Ponte Branca em segurança agora que os Trollocs se foram. Os dois que desceram o rio podem estar precisando mais de mim. Eles perderam suas moedas, e os Myrddraal ou os estão perseguindo ou estão tentando interceptar a todos nós em Ponte Branca. — Ela suspirou. — Preciso cuidar da necessidade maior primeiro.

— Os Myrddraal poderiam… poderiam tê-los matado — disse Nynaeve.

Moiraine balançou a cabeça levemente, negando a sugestão como se ela fosse trivial demais para ser levada em conta. A boca de Nynaeve se contraiu.

— Onde está Egwene, então? Você nem sequer a mencionou.

— Eu não sei — admitiu Moiraine —, mas espero que ela esteja segura.

— Você não sabe? Você espera? Toda aquela conversa sobre salvar a vida dela levando-a para Tar Valon e ela pode estar morta até onde você sabe!

— Eu poderia procurar por ela e dar ao Myrddraal mais tempo antes de ir em socorro dos dois jovens que foram para o sul. São eles que o Tenebroso deseja, não ela. Eles não se importariam com Egwene, não enquanto suas verdadeiras presas permanecerem à solta.

Nynaeve se lembrou de seu próprio encontro com os Trollocs, mas se recusou a reconhecer o bom senso no que Moiraine dizia.

— Então o melhor que você tem a oferecer é que ela pode estar viva, se tiver tido sorte. Viva, talvez sozinha, assustada, até mesmo ferida, a dias da aldeia mais próxima ou de qualquer socorro a não ser nós. E sua intenção é abandoná-la.

— Ela pode estar igualmente segura com o rapaz do outro lado do rio. Ou a caminho de Ponte Branca com os outros dois. De qualquer modo, não há mais Trollocs aqui para ameaçá-la, e ela é forte, inteligente e bem capaz de encontrar seu caminho até Ponte Branca sozinha. Você prefere ficar para o caso de ela precisar de ajuda, ou quer tentar ajudar aqueles que sabemos que estão em necessidade? Você prefere que eu vá procurá-la e deixe os garotos… e os Myrddraal que certamente os estão perseguindo… irem? Por muito que eu torça pela segurança de Egwene, Nynaeve, luto contra o Tenebroso, e por ora é isto que define meu caminho.

A calma de Moiraine não se abateu em nenhum instante enquanto ela apresentava as horríveis alternativas. Nynaeve queria gritar com ela. Fechando os olhos com força para evitar as lágrimas, virou o rosto para que a Aes Sedai não pudesse ver. Luz, uma Sabedoria deveria cuidar de toda a sua gente. Por que preciso fazer essa escolha?

— Ah, Lan está de volta — disse Moiraine, levantando-se e ajeitando o manto sobre os ombros.

Para Nynaeve foi apenas um pequeno golpe quando o Guardião surgiu com seu cavalo, saindo do meio das árvores. Mesmo assim, seus lábios se apertaram quando ele lhe entregou as rédeas. Teria se sentido um pouco melhor se tivesse havido um vestígio de arrogância no rosto dele em vez daquela insuportável calma pétrea. Os olhos dele se arregalaram ao verem o rosto dela, que lhe deu as costas para enxugar as lágrimas. Como ele ousa fazer pouco do meu choro?

— Você vem, Sabedoria? — perguntou Moiraine com frieza.

Ela dirigiu um último e lento olhar para a floresta, perguntando-se se Egwene estaria ali, antes de montar tristemente em seu cavalo. Lan e Moiraine já estavam em suas selas, virando as montarias para o sul. Ela seguiu, rígida, recusando-se a se permitir olhar para trás; em vez disso, manteve os olhos em Moiraine. A Aes Sedai tinha tanta confiança em seu poder e em seus planos, ela pensou, mas se eles não encontrassem Egwene e os rapazes, todos eles, vivos e ilesos, nem todo o seu poder seria capaz de protegê-la. Nem todo o seu Poder. Eu posso usá-lo, mulher! Você mesma me disse. Posso usá-lo contra você!

22

Um Caminho Escolhido

Num pequeno bosque, sob uma pilha de galhos de cedro cortados de qualquer maneira na escuridão, Perrin dormiu até bem depois do amanhecer. Foram as agulhas do cedro, espetando-o através das roupas ainda úmidas, que acabaram por perfurar também sua exaustão. Mergulhado profundamente num sonho com Campo de Emond, no qual trabalhava na forja do Mestre Luhhan, ele abriu os olhos e fitou, sem entender, os galhos de cheiro doce entremeados sobre seu rosto, a luz do sol gotejando através deles.

A maioria dos galhos caiu quando ele se sentou, surpreso, mas outros ficaram pendurados a esmo em seus ombros, e até na cabeça, fazendo com que ele próprio parecesse uma árvore. Campo de Emond foi desvanecendo à medida que a memória voltava rapidamente, tão vívida que por um instante a noite anterior pareceu mais real do que qualquer coisa ao seu redor naquele momento.

Arfando, frenético, ele pelejou para resgatar seu machado do meio da pilha. Agarrou-o com as duas mãos e olhou ao redor com cautela, contendo a respiração. Nada se movia. A manhã estava fria e silenciosa. Se havia algum Trolloc na margem leste do Arinelle, não estava se movendo, pelo menos não perto dele. Respirando fundo, abaixou o machado até os joelhos e esperou um momento até o coração parar de martelar.

O pequeno arvoredo de espécies perenes que o cercava havia sido o primeiro abrigo que ele encontrara na noite anterior. Era bastante esparso, oferecendo pouca proteção contra olhos vigilantes se ele se levantasse. Arrancando galhos da cabeça e dos ombros, empurrou para o lado o resto de seu cobertor pinicante e depois engatinhou até o limite do arvoredo. Ali ficou deitado, estudando a margem do rio e coçando nos pontos em que as agulhas o haviam espetado.

O vento cortante da noite anterior se tornara uma brisa silenciosa que mal fazia a superfície da água ondular. O rio corria, calmo e vazio. E largo. Certamente largo demais e fundo demais para Desvanecidos atravessarem. A margem oposta parecia uma massa sólida de árvores até onde ele podia ver, rio acima e abaixo. Certamente nada daquele lado se movia em seu campo de visão.

Não sabia ao certo o que sentia naquela situação. Podia viver muito bem sem Desvanecidos e Trollocs, mesmo do outro lado do rio, mas uma lista inteira de preocupações teria desaparecido com a aparição da Aes Sedai, ou do Guardião, ou, ainda melhor, de qualquer um de seus amigos. Se desejos fossem asas, as ovelhas voariam. Era o que a Senhora Luhhan sempre dizia.

Não vira sinal de seu cavalo desde que descera o barranco, e torcia para que ele tivesse nadado para fora do rio em segurança. Estava mais acostumado a caminhar do que cavalgar, de qualquer maneira, e suas botas eram firmes e de bom solado. Não tinha nada para comer, mas sua funda ainda estava atada na cintura, e isso ou os laços para armadilha em seu bolso deviam servir para apanhar um coelho em pouco tempo. Tudo para fazer uma fogueira havia desaparecido com seus alforjes, mas os cedros lhe dariam gravetos e madeira para friccionar com um pouco de trabalho.

Estremeceu quando a brisa soprou em seu esconderijo. Seu manto estava em algum lugar do rio, e o casaco e tudo o mais que ele vestia ainda estavam pegajosos por causa do mergulho. Tinha ficado cansado demais para que o frio e a umidade o incomodassem na noite anterior, mas já estava acordado o bastante para sentir cada calafrio. Mesmo assim, decidiu não pendurar as roupas nos galhos para que secassem. Se o dia não estava exatamente frio, também não estava nem perto de estar quente.