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- Acho-o com aspecto saudável - disse Mundy, que observava o interlocutor atentamente.

- Havia de me ver quando tenho um ataque.

- Pode ser - aquiesceu, vendo Jamie pegar na garrafa, Em seguida, esvaziou o copo pela segunda vez e levantou-se: - Tenho de ir à vida. Disse que estava aqui apenas de passagem?

- Partirei assim que me sentir mais forte.

- Voltarei na sexta-feira, para trocarmos mais algumas palavras.

Naquela noite, Jamie e Banda iniciaram os trabalhos na arrecadação abandonada, e o primeiro perguntou:

- Alguma vez construíste uma jangada?

- Para ser franco, Mister McGregor, não.

- Nem eu - e os dois homens entreolharam-se, embaraçados. - Será muito difícil?

Apoderaram-se de quatro bidões de duzentos litros, vazios, das traseiras do mercado, e levaram -nos para a arrecadação. Depois de os reunirem, dispuseramnos num rectângulo e colocaram um caixote, também vazio, em cima de cada um.

- Não se parece muito com uma jangada - observou Banda, com uma expressão de dúvida.

- Ainda não está pronta - esclareceu Jamie.

Como não dispunham de tábuas, cobriram a parte de cima com o que se achava ao seu alcance, ramos e folhas de árvores, que prenderam fortemente com cordas.

No final, o negro contemplou o resultado e declarou: - Continua a não se parecer com uma jangada.

- Ficará com melhor aspecto quando montarmos a vela - garantiu Jamie.

Improvisaram um mastro com um tronco caído e aproveitaram dois ramos de extremidades largas para remos.

Foi Banda quem, ao fim da tarde, descobriu a vela, um pano azul enorme.

- Isto serve, Mister McGregor?

- Perfeitamente. Onde o arranjaste?

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- É melhor não querer saber. Bastam os riscos em que já nos envolvemos.

A montagem final desenrolou-se sem dificuldades e a jangada ficou pronta para enfrentar o mar.

- Partimos às duas da madrugada, quando estiverem todos a dormir - decidiu Jamie. - Até lá, convém que descansemos um pouco.

Contudo, nenhum deles conseguiu dormir, excitados com a aventura em perspectiva.

Encontraram-se na arrecadação à hora combinada, dominados por um misto de ansiedade e receio dissimulado. Preparavam-se para empreender uma operação que lhes proporcionaria a fortuna ou a morte. Não havia meio-termo.

- São horas - anunciou de súbito Jamie, em voz ligeiramente trémula.

Transpuseram a saída com prudência. Não se registava o mínimo ruído. Soprava uma brisa suave e o céu apresentava-se completamente limpo de nuvens, com a Lua em quarto crescente sobre as suas cabeças. “Óptimo…”, reflectiu Jamie. “Não há muita luz para que nos vejam.” O horário previsto era complicado pelo facto de necessitarem de abandonar a povoação durante a noite, para que ninguém se apercebesse da sua partida, e chegar ao campo de diamantes na noite seguinte, a fim de se introduzirem nele e regressarem ao mar, sem novidade, antes da alvorada.

- A corrente de Benguela deve conduzir-nos até aos campos de diamantes amanhã ao fim da tarde - calculou Jamie. - Mas não podemos viajar durante o dia.

Temos de nos manter ao largo até anoitecer.

- Podemos ocultar-nos numa das ilhotas ao longo da costa.

- Quais ilhotas?

- São às dezenas. Mercury, Ichabod, Plum Pudding…

- Plum Puddingl - ecoou com estranheza.

- Também há a Roast Beef.

- Não vêm no mapa - declarou, depois de o consultar.

- São formadas por guano. Os ingleses utilizam os excrementos das aves para adubo.

- Vive lá alguém?

- É impossível, por causa do mau cheiro. Há lugares em

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que o guano tem dezenas de metros de altura. O Governo recorre aos desertores do exército e presos para o recolher. Alguns morrem nas ilhotas e os corpos ficam lá a apodrecer.

- Então, é o lugar ideal para nos escondermos - decidiu Jamie.

Procedendo com prudência, os dois homens abriram a porta da arrecadação e principiaram a erguer a jangada. No entanto, era demasiado pesada para que a conseguissem mover. Tentaram empurrá-la, transpirando copiosamente, mas debalde.

- Volto já - anunciou Banda, subitamente.

Meia hora depois, reaparecia com um toro de dimensões apreciáveis.

- Vamos servir-nos disto. Quando eu levantar uma das extremidades, introduza -o por baixo.

Jamie surpreendeu-se com o vigor do companheiro, ao vê-lo erguer um dos lados da jangada. Acto contínuo, enfiou o toro no espaço e fizeram rolar o conjunto por cima. Era um trabalho árduo e quando alcançaram a beira-mar achavam-se ambos alagados em suor. Além disso, a operação tardara muito mais do que Jamie previra e estava prestes a amanhecer. Impunha-se que partissem, antes que os habitantes da aldeia os descobrissem e informassem as autoridades das suas actividades. Por conseguinte, Jamie apressou-se a montar a vela e inspeccionou tudo para se certificar de que podiam partir. Tinha a vaga impressão de que se esquecia de alguma coisa e, de repente, fez-se-lhe luz no espírito e soltou uma gargalhada.

- Que foi? - quis saber Banda, intrigado.

- Da outra vez que procurei diamantes, acompanhava-me uma tonelada de equipamento. Agora, só levo uma bússola. Parece fácil de mais.

- Não creio que o nosso problema seja esse, Mister McGregor.

- É altura de me tratares por Jamie.

- Não haja dúvida de que vem de um país distante - e o negro meneou a cabeça, admirado. - Enfim, ninguém me vai enforcar por experimentar uma vez - e tentou pronunciar o nome em surdina, antes de o fazer em voz alta: - Jamie.

- Vamos aos diamantes!

Impeliram a jangada para a água, saltaram para cima e começaram a remar.

Necessitaram de uns minutos para se

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adaptar às oscilações da estranha embarcação. Dir-se-ia que montavam uma rolha gigantesca, mas em breve dominavam a situação. A jangada respondia perfeitamente às manobras, deslocando-se para norte com a corrente impetuosa.

Por fim, Jamie içou a vela e afastaram -se para o largo. Quando os habitantes da aldeia principiaram a surgir das cabanas, os dois homens já se encontravam para além do horizonte.

- Conseguimos! - exclamou Jamie.

- Ainda é cedo para cantar vitória - e Banda mergulhou a mão na fria corrente de Benguela. - Estamos no início.

Continuaram a singrar para o Norte, passando ao largo da baía Alexander e da embocadura do rio Orange sem descortinarem sinais de vida, à parte bandos de corvos marinhos e alguns flamingos. Embora dispusessem de latas de carne e arroz, fruta e dois cantis de água, estavam demasiado nervosos para comer.

Jamie recusava-se a permitir que a imaginação se concentrasse nos perigos que os aguardavam, mas Banda não o podia evitar, sobretudo porque os conhecia por experiência própria. Recordava-se dos guardas brutais munidos de espingardas, dos cães e das minas e perguntava-se como fora possível que se tivesse deixado arrastar para aquela aventura. Lançando uma olhadela ao escocês, reflectiu: “Ainda é mais parvo que eu. Se as coisas correrrem mal, morrerei por minha irmã.

Que motivo o leva a sacrificar a vida?”

Os tubarões surgiram cerca do meio-dia. Eram uns seis, as barbatanas cortando a água à medida que se aproximavam da jangada.

- Tubarões de barbatana preta - anunciou Banda. - São devoradores de homens!

- Que fazemos? - articulou Jamie, conservando os olhos fixos nos terríveis esqualos.

- Para ser franco - redarguiu o negro, engolindo em seco -, é a minha primeira experiência desta natureza.

Um dos tubarões colidiu com a jangada e quase a fez voltar-se, obrigando os dois homens a segurarem-se ao mastro. Jamie pegou num dos ramos para atingir o agressor e, no instante imediato, viu-o cortado em dois pelos dentes aguçados. A seguir, os tubarões principiaram a circundar a jangada, sacudindo-a de vez em quando.