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- Temos de nos livrar deles antes que voltem a jangada.

- Como? - quis saber Banda.

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- Passa-me uma lata de carne.

- Deixe-se de brincadeiras. Eles não se satisfazem com tão pouco. Querem uma refeição suculenta. Nós, por exemplo!

Registou-se novo embate e a jangada inclinou-se.

- A carne, depressa! - bradou Jamie.

No instante imediato, o negro colocava-lhe uma lata na mão. Em seguida, puxou de um canivete e rasgou parte da tampa.

- Agora, segura -te bem. Banda!

Jamie acercou-se da borda da jangada e aguardou. Quase imediatamente, surgiu um tubarão que abria a boca ameaçadoramente. O rapaz visou-lhe os olhos com um movimento rápido. A folha metálica da tampa, aguçada como uma faca, retalhou a pele da cabeça do tubarão, que se agitou como um possesso, ao mesmo tempo que a água em volta se tingia de sangue. Os outros desinteressaram-se dos dois homens e concentraram-se no companheiro, que principiaram a devorar com ferocidade.

- Espero, um dia, poder contar isto aos meus netos - articulou Banda, com um suspiro de alívio, enquanto se afastavam. - Parece-lhe que acreditarão?

E riram até as lágrimas lhes rolarem pelas faces.

Mais tarde, Jamie consultou o relógio de bolso e declarou:

- Devemos estar ao largo da praia dos diamantes cerca da meia-noite. O Sol nasce às seis e um quarto. Portanto, dispomos de quatro horas para recolher o maior número possível de diamantes e duas para regressar ao mar alto. Achas que são suficientes?

- Nenhum ser humano viveria o tempo necessário para gastar.o que se pode apanhar naquela praia em quatro horas. Oxalá nós vivamos o suficiente para os levar.

Prosseguiram para o Norte durante o resto do dia, impelidos pelo vento e a corrente. Perto do anoitecer, descortinaram uma ilhota à sua frente, que parecia não ter um perímetro superior a duzentos metros. À medida que se aproximavam o odor acre a amoníaco intensificava -se, afectando-lhes os olhos. Jamie compreendeu sem dificuldade a razão pela qual ninguém vivia lá. Na verdade, o fedor era insuportável. No

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entanto, constituiria um lugar excelente para se ocultarem até ao momento oportuno. Ele ajustou a vela devidamente e a jangada não tardou a acostar à superfície rochosa da ilhota. Em seguida, Banda tratou de a amarrar e saltaram para terra. Havia uma infinidade de aves: corvos marinhos, pelicanos, pinguins e flamingos.

Avançaram meia dúzia de passos e os pés afundaram-se em guano, pelo que Jamie sugeriu que regressassem à jangada.

No momento em que se preparavam para retroceder, um bando de pelicanos levantou voo e revelou um espaço no solo… ocupado por três homens estendidos.

Não havia possibilidade de determinar há quanto tempo estavam mortos, pois os corpos haviam sido preservados pelo amoníaco que saturava a atmosfera.

Instantes depois, Jamie e Banda encontravam -se de novo na jangada e afastavam-se para o largo.

Mantiveram-se distantes da costa, com a vela recolhida, na expectativa. Jamie decidiu permanecer ali até à meia-noite, após o que se acercariam de terra.

Conservaram-se sentados em silêncio, imersos em cogitações relacionadas com o que se avizinha va. O Sol principiou a mergulhar no horizonte e, de súbito, imperou a escuridão.

Deixaram transcorrer mais duas horas e Jamie içou a vela. Acto contínuo, a jangada começou a deslocar-se para a costa, cujos contornos não tardaram em descortinar ao luar pálido. O vento aumentou de intensidade e a velocidade da embarcação improvisada tornou-se quase assustadora. Em breve avistaram um gigantesco parapeito de rocha. Apesar da distância, era possível ver e ouvir a rebentação que explodia nos recifes. Constituía um espectáculo impressionante, observado de longe, e Jamie preferia não especular sobre o efeito que exerceria no seu espírito se admirado de perto.

- Tens a certeza de que o lado do mar não é vigiado? - perguntou de súbito.

Banda limitou-se a pontar para os recifes, mais desencora-jadores que qualquer obstáculo que o homem pudesse conceber. Eram os guardas do mar, e nunca dormiam nem descansavam. Mantinham-se imóveis, inabaláveis, à espera que os imprudentes se aproximassem. “Havemos de os ludibriar”, reflectiu Jamie.

“Passaremos por cima…”

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A jangada levara-os até ali e continuaria a transportá-los até ao fim. A costa parecia acercar-se vertiginosamente e os dois homens começaram a sentir a ondulação das vagas gigantescas.

- Levamos uma velocidade enorme - advertiu Banda, segurando-se fortemente ao mastro.

- Não te preocupes. Quando estivermos mais perto, recolho a vela. Assim, passamos a ir mais devagar e ultrapassamos os recifes com facilidade.

Entretanto, o impulso do vento e das vagas aumentava, arrastando a jangada para os recifes fatais. Jamie calculou rapidamente a distância que faltava e decidiu que a ondulação os conduziria à praia sem o auxílio da vela, pelo que se apressou a arriá-la. Todavia, a velocidade não sofreu alteração. A embarcação achava-se totalmente nas garras das enormes vagas, descontrolada, lançada de uma crista para a seguinte. Os solavancos eram tão fortes que os dois tripulantes necessitavam de se segurar com ambas as mãos. Jamie previra que a etapa final se revelaria difícil, mas aquilo excedia todas as suas expectativas. Em dado momento, sentiram-se como que erguidos no espaço e propulsionados para a frente, e ele bradou:

- Segura-te bem, Banda, que vamos entrar!

As vagas “agarraram” a jangada como se fosse um simples fósforo e começaram a arrastá-la para terra, por cima dos recifes. De súbito, Jamie atreveu-se a olhar para baixo e avistou o gume cortante do obstáculo natural.

Ouviu-se um ruído seco, produzido pelo rasgar de metal no instante em que um dos barris contactou com os recifes e foi dilacerado implacavelmente.

- Salta para a água! - gritou Jamie.

Mergulhou para a frente e pareceu-lhe que uma mão gigantesca e irresistível o impelia como se fosse um mero boneco. Apesar de transcorrerem poucos segundos até ao instante em que experimentou o contacto da areia, afigurou-selhe que não sairia da aventura com vida.

Por fim, soergueu-se e olhou em volta. Banda achava-se agachado a uns dez metros de distância, vomitando água do mar. Sacudindo a cabeça para dissipar o leve aturdimento, Jamie pôs -se de pé e aproximou-se dele em passos hesitantes.

- Estás bem?

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O negro inclinou a cabeça com lentidão e, erguendo os olhos, informou:

- Não sei nadar.

Jamie ajudou-o a levantar-se e viraram-se para contemplar o recife. Não havia vestígios da jangada. O oceano destruíra -a por completo. Tinham conseguido introduzir-se no campo de diamantes.

Mas não dispunham de qualquer meio para o abandonar.

Capítulo quinto Atrás deles encontrava-se o mar em fúria. À frente, o deserto, até ao sopé das distantes montanhas arroxeadas da cordilheira Richterveld, um mundo de ravinas, desfiladeiros e cristas, sob o luar pálido. Antecedia-os o vale Hexenkessel (“caldeirão da bruxa”), uma área fustigada por ventos fortes constantes. Era uma paisagem primitiva, desoladora, que remontava aos primórdios do Tempo. A única indicação de que o homem visitara o local consistia numa tabuleta rudimentar pregada a uma estaca imersa na areia: “VERBODE GEBIED SPERRGEBIET”

Zona interdita.

Não existia fuga possível na direcção do mar. O único caminho que lhes restava era o deserto da Namíbia.

- Vamos ter de tentar atravessá-lo e confiar na nossa boa estrela - admitiu Jamie.

- Os guardas abatem-nos ou enforcam-nos - replicou Banda, meneando a cabeça.

- E mesmo que conseguíssemos evitá -los e aos cães, restavam as minas.

Estamos virtualmente mortos.

Não deixava transparecer medo. Apenas uma aceitação resignada do seu destino.

Jamie olhou-o em silêncio e sentiu-se dominado por remorsos. Arrastara -o para aquela aventura e não se lamentara uma