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única vez. Mesmo agora, consciente de que não existia salvação possível, não pronunciava uma palavra de censura.
Voltando-se em seguida para a muralha de vagas enfurecidas que se desfaziam na praia, reconheceu que só um milagre explicava que tivessem chegado até tão longe. Eram duas horas da madrugada, faltando quatro para a alvorada e a descoberta da sua presença por parte dos guardas, e continuavam inteiros.
“Demónios me levem se vou desistir!”, decidiu com firmeza.
- Vamos a isto, Banda.
- A quê? - inquiriu o negro, pestanejando de perplexidade.
- Não viemos à procura de diamantes? Então, vamos a eles.
Banda fixou o olhar arregalado no companheiro de cabelos brancos encharcados colados à cabeça e calças encharcadas e rasgadas e confessou:
- Não compreendo.
- Disseste que os guardas nos abatiam, não foi? Nesse caso, mais vale que nos matem ricos do que pobres. Um milagre fez com que chegássemos até aqui.
Talvez outro nos permita sair, e se tal acontecer não quero partir de mãos vazias.
- Endoideceu!
- Sem dúvida, de contrário não estávamos aqui.
- Muito bem - e Banda encolheu os ombros, num gesto de resignação. - Não tenho nada que fazer até que nos descubram.
Jamie despiu a camisa e o outro compreendeu e imitou-o.
- Ora bem. Onde estão esses diamantes enormes de que falaste?
- Em toda a parte - afirmou o negro. - Como os guardas e os cães.
- Preocupamo-nos com eles mais tarde. Quando vêm para aqui?
- Logo que amanhece.
Jamie reflectiu por um momento e perguntou:
- Há algum sector da praia que não frequentem e onde nos possamos esconder?
- Não.
- Bom, vamos ao trabalho.
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Banda agachou-se e afundou os dedos na areia, fazendo-os deslizar como um ancinho. Ainda não haviam decorrido dois minutos, quando se imobilizou e extraiu uma pedra.
- O primeiro!
Jamie tratou de o imitar. As duas primeiras que encontrou eram pequenas, porém a terceira devia pesar uns quinze quilates e ele olhou-a pensativamente por uns momentos. Afigurava -se-lhe incrível que semelhante fortuna pudesse ser recolhida com tanta facilidade. E tudo aquilo pertencia a Salomon van der Merwe e seus associados.
Nas três horas seguintes, os dois homens encontraram mais de quarenta diamantes, que variavam entre os dois e trinta quilates. Entretanto, o céu começava a clarear a nascente, anunciando o momento em que Jamie projectara partir na jangada. Agora, porém, nem merecia a pena pensar nisso.
- Não tarda a amanhecer - murmurou. - Vejamos quantos mais recolhemos.
- Não viveremos para os desfrutar. Interessa-lhe morrer rico, pelo que vejo.
- Não me interessa morrer. Rico ou pobre.
Reataram as pesquisas, como que dominados por uma loucura irresistível. O monte foi-se avolumando, até que sessenta diamantes, que valiam o resgate de um rei, se reuniam nas camisas que haviam colocado na areia.
- Quer que os leve? - perguntou Banda.
- Não. Podemos repartir o peso e… - de súbito, Jamie apercebeu-se da ideia do companheiro: aquele que fosse apanhado com as pedras em seu poder teria uma morte mais lenta e dolorosa. - Levo-os eu.
Reuniu todos os diamantes na sua camisa e deu-lhe um nó cautelosamente. O horizonte apresentava-se mais claro e pairavam no firmamento tonalidades rubras prenunciadoras do aparecimento iminente do Sol.
Que deviam fazer a seguir? Permanecer ali e morrer ou aventurar-se no deserto e perder igualmente a vida?
- Toca a andar - resolveu, por fim.
Principiaram a afastar-se do mar com lentidão, olhando em volta repetidamente.
- Onde começam as minas?
- Uns cem metros à nossa frente - mas naquele momento soou um latido ao longe e Banda comentou: - Não creio
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que mereça a pena preocuparmo-nos com elas. Os cães vêm já aí. O turno de guardas da manhã vai entrar de serviço.
- Quanto tempo demoram a chegar aqui?
- Quinze minutos. Talvez dez.
Entretanto, amanhecera por completo e os contornos da paisagem árida, com as montanhas ao fundo, destacavam-se com nitidez, revelando que não havia lugar algum para se ocultarem.
- De quantos homens se compõe cada turno?
- Cerca de dez - informou Banda, após um momento de reflexão.
- Não são muitos para uma praia destas dimensões.
- Bastava um. Lembre-se das armas e dos cães de que dispõem. Os guardas não são cegos nem nós invisíveis.
Os latidos aproximavam-se gradualmente e Jamie abanou a cabeça.
- Lastimo ter-te envolvido nisto.
- Não envolveu.
Alcançaram uma pequena duna e ele sugeriu:
- Porque não nos enterramos na areia?
- É um truque que já foi tentado. Os cães localizavam-nos e degolavam-nos.
Quero uma morte rápida. Vou deixar que me vejam e começo a correr. Assim, liquidam-me com um tiro. Não estou interessado em estabelecer contacto com os cães.
- Podemos morrer, mas macacos me mordam se consinto que nos lancemos nos braços da morte.
Começaram a distinguir vozes ao longe. “Movam-se, bastardos indolentes!”, rugia alguém em tom irritado. “Si-gam-me em fila indiana… Tiveram toda a noite para se recompor… São horas de trabalhar…”
Apesar das palavras de encorajamento que pronunciara, Jamie descobriu que tentava afastar-se da origem da voz. Voltou-se para contemplar o mar uma vez mais e perguntou-se se o afogamento constituiria uma maneira mais fácil de morrer. De súbito, descortinou algo para além da rebentação impetuosa e, sem compreender de que se tratava, consultou Banda.
Ao largo, uma muralha cinzenta impenetrável avançava para terra, impelida pelo poderoso vento oeste.
- É o mis do mar! - exclamou o negro. - Aparece duas ou três vezes por semana.
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Entretanto, o mis continuava a acercar-se, como uma cortina cinzenta gigantesca, cobrindo o horizonte e ofuscando o céu.
Ao mesmo tempo, as vozes também se aproximavam: “Den Dousaní! Maldito misl Mais um atraso. Os patrões não vão.gostar disto…” - Temos uma possibilidade - gritou Jamie.
- Qual?
- O mis! Eles não poderão ver-nos.
- Não lucramos nada com isso. Acabará por se dissipar e nessa altura continuaremos aqui. Se os guardas não podem avançar entre as minas, nós muito menos. Por outro lado, se tentamos atravessar o deserto durante o mis, ficamos reduzidos a pedaços. Precisávamos de outro dos seus milagres.
- Talvez aconteça.
O céu tornava-se cada vez mais negro sobre as suas cabeças. O mis estava perto e cobria o mar, preparando-se para tragar a praia. Apresentava um aspecto tenebroso e ameaçador à medida que rolava na direcção dos dois homens, mas Jamie pensava que os salvaria.
De repente, uma voz rugiu:
- Que diabo fazem vocês aí?
Voltaram-se e, no topo de uma duna, a uns cem metros deles, avistaram um homem uniformizado munido de uma espingarda. Jamie virou-se para a praia e viu que o mis estava quase sobre eles.
- Vocês os dois! - volveu o guarda, erguendo a arma. - Venham cá!
- Torci o pé - anunciou Jamie, levantando os braços. - Não posso andar.
- Deixem-se estar aí - rectificou o homem, baixando a espingarda e começando a mover-se para eles.
Jamie voltou-se uma vez mais e verificou que o mis alcançara a orla da praia e prosseguia em frente rapidamente.
- Mexe-te! - indicou a Banda, e deu o exemplo principiando a correr para a praia.
- Alto!
No segundo imediato ouviram um estampido seco e a areia um pouco adiante deles pareceu explodir. No entanto, continuaram a correr ao encontro da enorme muralha
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cinzenta de nevoeiro. Registou-se nova detonação, agora mais perto, logo seguida de outra, e os dois fugitivos viram -se imersos em escuridão absoluta. O mis do mar parecia envolvê-los, como em algodão. Tornava-se impossível enxergar coisa alguma.