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As vozes soavam agora abafadas e distantes, infiltrando-se no mis, provenientes de todas as direcções.

- Kruger! Sou Brent… Ouves-me?

- Muito bem, Kruger!

- São dois - volveu a primeira voz. - Um branco e um preto. Fugiram para a praia.

Espalha os teus homens pelo areal. Skiet hom! Atirem a matar.

- Segura-te a mim - recomendou Jamie.

- Onde vamos? - quis saber Banda, rodeando-lhe o pulso com os dedos.

- Sair daqui! - Jamie aproximou a bússola dos olhos para conseguir distinguir o mostrador, após o que a moveu até que o ponteiro apontou para leste. - Para este lado.

- Espere! Se nos movemos e não esbarramos num guarda ou num cão, fazemos explodir uma mina.

- Disseste que estavam a uns cem metros. Afastemo-nos da praia.

Começaram a encaminhar-se para o deserto, em passos lentos e hesitantes, como cegos num local desconhecido. Jamie ia medindo a distância, detendo-se para consultar a bússola de vez em quando. Quando calculou que haviam percorrido cerca de uma centena de metros, deteve-se e disse:

- As minas devem principiar mais ou menos aqui. Sabes se estão dispostas segundo uma maneira definida? Ocorre-te alguma coisa que nos possa ser útil?

- Uma oração. Ninguém conseguiu transpor o campo de minas, até hoje. Estão dispersas por todos os lados, a uns quinze centímetros de profundidade. Vamos ter de ficar aqui até que o mis se dissipe e entregar-nos.

Entretanto, Jamie distinguia as vozes envoltas em algodão:

- Mantém o contacto vocal, Kruger!

- Entendido, Brent.

- Kruger…

- Brent…

Vozes sem corpos que se chamavam mutuamente no nevoeiro impenetrável. A mente de Jamie desenvolvia actividade

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frenética, explorando todas as possibilidades de fuga possíveis. Se se mantivessem ali, seriam abatidos instantaneamente no momento em que o mis levantasse. Se tentassem aventurar-se no campo minado, voariam em pedaços.

- Alguma vez viste as minas? - perguntou a meia-voz.

- Ajudei a enterrar várias.

- O que as faz explodir?

- O peso de quem as pisa. Tudo o que pesa mais de quarenta quilos é suficiente.

É por isso que os cães não correm perigo.

- Talvez se arranje uma maneira de nos safarmos - murmurou, depois de encher os pulmões de ar. - O êxito não é garantido. Queres arriscar-te comigo?

- Que ideia se lhe meteu na cabeça?

- Vamos atravessar o campo de minas rastejando. Assim, distribuímos o peso do corpo por uma superfície mais ampla.

- Santo Deus!

- Que te parece?

- Parece-me que devia estar doido para o seguir até aqui.

- Vens ou não?

- Que remédio! - assentiu Banda, com um suspiro. Jamie deitou-se cautelosamente de bruços e, após um momento de hesitação, o companheiro imitou-o. Em seguida, principiaram a rastejar com a máxima prudência em direcção ao campo de minas.

- Não exerças pressão só com as mãos e as pernas - recomendou Jamie. - Distribui o peso por todo o corpo.

Banda não replicou, totalmente concentrado na suprema operação de permanecer vivo.

Encontravam-se num vácuo cinzento e sufocante que tornava impossível enxergar coisa alguma. Podiam colidir com um guarda, um cão ou uma mina a todo o instante, mas Jamie esforçava -se por afastar semelhante hipótese do pensamento. O avanço desenrolava-se com lentidão pungente. Achavam -se ambos de tronco nu e a areia roçava -lhes desagradavelmente no estômago enquanto rastejavam. Ele tinha plena consciência das reduzidas probabilidades de escaparem. Mesmo que lograssem atravessar o deserto sem serem alvejados ou voarem em pedaços, teriam de enfrentar a vedação de arame farpado e os guardas armados na torre de vigilância. E

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tornava-se impossível prever a duração do mis, que podia dissipar-se a todo o momento e expô-los.

Continuaram a rastejar, até que perderam a noção do tempo. Os milímetros convertiam-se em centímetros e estes em metros. Além disso, viam-se forçados a conservar a cabeça junto do solo, pelo que os olhos, o nariz e as orelhas não tardaram a encher-se de areia e o acto de respirar representava um esforço penoso.

Entretanto, ao longe, as vozes dos guardas persistiam: “Kruger… Brent… Kruger…

Brent…”

Os dois homens detinham-se para descansar e consultar a bússola com frequência, após o que reatavam a marcha. Acudia-lhes uma tentação quase irresistível de progredir mais depressa, mas isso exigiria maior pressão no solo, e Jamie podia imaginar os fragmentos de metal explodindo debaixo dele e introduzindo-se-lhe no ventre. De vez em quando, detectavam outras vozes em redor, mas as palavras eram abafadas pelo nevoeiro e tornava-se impossível determinar a sua origem exacta. “É um deserto enorme”, reflectia. “Não vamos esbarrar em ninguém.”

De súbito, um vulto saltou-lhe em cima. O facto registou-se de modo tão abrupto que o colheu desprevenido e sentiu os dentes do possante lobo-da-alsácia cravarem-se-lhe no braço. Jamie largou os diamantes contidos na camisa e tentou abrir as mandíbulas do animal, mas apenas dispunha de uma das mãos livre.

Quase ao mesmo tempo, notou o sangue quente que deslizava pelo braço. Por fim, ouviu uma espécie de baque e a pressão dos dentes atenuou-se e acabou por se extinguir. Por entre a névoa de dor, Jamie viu Banda continuar a atingir a cabeça do cão com o saco de diamantes, até que este ficou imóvel.

- Como se sente? - sussurrou o negro, com ansiedade. Jamie não conseguiu responder, mantendo-se estendido de bruços, na expectativa de que as vagas de dor se atenuassem. Banda rasgou um pedaço de tecido das calças e improvisou um torniquete para que o sangue estancasse.

- Temos de prosseguir - advertiu. - Se apareceu um, deve haver mais nas proximidades.

Jamie concordou com um movimento de cabeça e, lentamente, moveu o corpo para a frente, esforçando-se por ignorar o intenso latejar no braço.

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Mais tarde, não conseguiu evocar o mínimo pormenor do resto do percurso.

Estava semiconsciente, um autómato. Algo fora dele lhe orientava os movimentos: “Braços para diante… braços para diante… braços para diante…” Era uma odisseia de agonia interminável. A bússola achava -se agora em poder de Banda, e quando o companheiro começava a rastejar na direcção errada, apressava-se a modificarlhe o rumo com suavidade. Estavam rodeados por guardas, cães e minas, e só o mis lhes proporcionava segurança, ainda que precária. Continuaram a avançar até que as forças se lhes esgotaram, incapazes de cobrir sequer mais um centímetro.

Resolveram então dormir.

Quando Jamie abriu os olhos, registara -se uma modificação. Conservou-se estendido na areia, o corpo rígido e dorido, tentando recordar-se onde estava. Ao avistar Banda adormecido a dois metros dele, a situação reapareceu-lhe no espírito. A jangada desfeita contra os recifes… o mis proveniente do mar… Mas existia algo de insólito. Soergueu-se e tentou determinar de que se tratava. De súbito, sentiu uma contracção no estômago. “Conseguia ver Banda! O insólito era precisamente isso. O mis começava a dissipar-se!” Ouviu vozes nas proximidades e, esquadrinhando o nevoeiro, cada vez mais ténue, verificou que se achavam perto da entrada do campo de diamantes. Avistou a torre de vigia e a vedação de arame farpado mencionadas por Banda. Um grupo de cerca de seis dezenas de trabalhadores movia-se do campo para o portão. Tinha terminado o seu período de serviço e o turno seguinte preparava-se para entrar. Jamie ergueu-se de joelhos, acercou-se do companheiro e acordou-o, apontando a torre e o portão.

- Raios! - articulou entre dentes, incrédulo. - Quase conseguimos.

- Podes suprimir o quase. Passa-me os diamantes.

- Não compreendo - confessou, obedecendo.

- Segue-me.

- Os guardas armados do portão descobrem que não fazemos parte do pessoal.