- Imediatamente - prometeu o homem.
“É incrível e maravilhoso o que se consegue com o dinheiro!”, cogitou Jamie, com uma ponta de amargura.
A casa de banho da suite real era um autêntico paraíso, e ele conservou-se imerso em água tépida demoradamente, ao mesmo tempo que recapitulava os acontecimentos das últimas semanas. Tinham passado apenas semanas desde que construíra a jangada com Banda? Na realidade, pareciam-lhe anos. Evocou a viagem na frágil embarcação, assediada por tubarões e destruída pelos recifes, o mis do mar que os protegera dos guardas e dos cães, embora não evitasse que um dos animais lhe cravasse os dentes no braço, as vozes à sua volta, que lhe perdurariam nos ouvidos para sempre: Kruger… Brent… Kruger… Brent…
No entanto, acima de tudo, pensava em Banda. O seu amigo.
Quando desembarcaram na Cidade do Cabo, Jamie rogou-Lhe que continuasse com ele, mas o negro abanou a cabeça.
- A vida é muito monótona a seu lado. Quero ir para um lugar onde haja certa excitação.
- Que pensas fazer?
- Graças a si e ao seu maravilhoso plano para superar recifes numa jangada, tenciono comprar uma herdade, procurar uma esposa e ter muitos filhos.
- Como queiras. Vamos ao diamaní kooper, para que te entregue a tua parte.
- Não quero.
- Que estás aí a dizer? - Jamie enrugou a fronte. - Metade dos diamantes pertence-te. És milionário.
- Repare na minha pele. Se me tornasse milionário, a minha vida não valia um chavo,
- Podes esconder alguns dos diamantes.
- Só preciso dos suficientes para comprar uma herdade e dois bois para trocar por uma esposa. Dois ou três diamantes mais pequenos bastam para conseguir o que pretendo. Os restantes são seus.
- É impossível. Não podes prescindir da tua parte.
- Posso, sim, porque me vai entregar Salomon van der Merwe.
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Jamie contemplou Banda em silêncio por um longo momento e assentiu:
- Prometo.
- Nesse caso, vamos despedir-nos, meu amigo - e apertaram a mão. - Voltaremos a encontrar-nos. Para a próxima vez, pense numa coisa realmente excitante para fazermos.
E o negro afastou-se com três pequenos diamantes na algibeira.
Jamie enviou à família uma ordem de pagamento no valor de vinte mil libras, comprou a melhor carruagem e a melhor parelha de cavalos que conseguiu encontrar e seguiu para Klipdrift.
Chegara o momento da vingança.
Naquela noite, quando entrou na loja do holandês, Jamie McGregor foi assolado por uma sensação tão desagradável e violenta que teve de fazer uma pausa para se dominar.
Van der Merwe surgiu da sala contígua e, quando viu quem era, o rosto iluminouse- lhe.
- Seja bem-vindo, Mister Travis!
- Obrigado, Mister… desculpe, não me recordo do seu nome.
- Salomon van der Merwe. Não necessita de se desculpar. Os nomes holandeses são difíceis de fixar. O jantar está pronto. Margaret!
Na verdade, nada se alterara. A rapariga encontrava-se junto do fogão, de costas para a entrada.
- Está aqui o convidado de que te falei - acrescentou o pai. - Mister Travis.
Ela voltou-se e murmurou a fórmula habitual em semelhantes circunstâncias, sem deixar transparecer o mínimo indício de reconhecimento.
Naquele momento, a campainha da entrada soou e Van der Merwe proferiu:
- Com licença. Não me demoro. Esteja como em sua casa, Mister Travis - e precipitou-se para a loja.
Margaret levou uma caçarola fumegante com legumes e carne para a mesa e em seguida foi buscar o pão, enquanto Jamie a observava em silêncio. Desenvolvera - se notavelmente desde a última vez que a vira. Tornara-se mulher, com uma sexualidade que outrora não possuía.
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- Seu pai diz que é uma excelente cozinheira.
- Faço o possível - murmurou ela, corando.
- Há muito que não saboreio comida caseira e confesso que sinto o apetite aguçado.
Jamie tomou da mão da rapariga um prato com manteiga e pousou-o na mesa, provocando-lhe uma admiração que a deixou boquiaberta, pois nunca vira um homem colaborar nas actividades próprias das mulheres, e atreveu-se pela primeira vez a olhar o desconhecido de frente. O nariz deformado e uma cicatriz alteravam o aspecto geral do rosto, que se podia considerar bem-parecido. Os olhos eram cinzentos e brilhavam com inteligência e uma intensidade ardente. Os cabelos brancos indicavam que não se tratava de um jovem, apesar de haver algo de juvenil nele. Era alto e forte e… neste ponto das apreciações, Margaret desviou os olhos, perturbada.
Van der Merwe não tardou a reaparecer, esfregando as mãos de satisfação.
- Já fechei a loja. Sentemo-nos para apreciar uma boa refeição - e indicou o lugar de honra a Jamie, acrescentando: - Oremos.
Fecharam os olhos e Margaret voltou a abri-los quase imediatamente, a fim de poder prosseguir o exame ao elegante desconhecido, enquanto a voz do pai articulava, em inflexão monocórdica:
- Todos somos pecadores aos teus olhos, Senhor, e temos de ser castigados.
Concede-nos forças para suportar as provações na Terra, a fim de podermos desfrutar dos frutos do Céu, quando formos chamados. Agradecemos-te, Senhor, por auxiliares aqueles de nós que merecem prosperar. Amém! - e, em seguida, começou a servir, mas desta vez as doses de Jamie revelavam-se muito mais generosas. - É a sua primeira visita a estas paragens, Mister Travis?
- Sim - assentiu Jamie. - A primeira.
- Suponho que não o acompanha sua esposa?
- Não sou casado - declarou, com um sorriso. - Ainda não encontrei quem me quisesse.
“Só uma louca o rejeitaria”, pensou Margaret, baixando os olhos, com receio de que o forasteiro adivinhasse a natureza das suas cogitações.
- Klipdrift é uma cidade de grandes oportunidades - volveu Van der Merwe. - Extraordinárias, mesmo.
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- Estou ansioso por que mas mostrem - disse Jamie, com um olhar a Margaret, que corou.
- Se não considera a pergunta impertinente, como obteve a sua fortuna?
A rapariga sentia-se embaraçada com a curiosidade excessiva do progenitor, mas Travis não parecia contrariado.
- Herdei-a de meu pai - explicou com naturalidade.
- Mas estou certo de que possui larga experiência de negócios.
- Nem por isso. Preciso que me orientem.
- Foi o destino que nos reuniu - proclamou Van der Merwe, com visível satisfação.
- Tenho muitos conhecimentos úteis. Quase lhe posso garantir que duplicarei o seu dinheiro em poucos meses - e inclinou-se para a frente, dando uma palmada amigável no braço de Jamie. - Palpita-me que este dia ficará gravado na nossa memória! - fez uma pausa, enquanto o interlocutor se limitava a esboçar um sorriso. - Instalou-se no Grande Hotel, claro?
- Exacto.
- É criminosamente dispendioso. No entanto, para uma pessoa com as suas posses…
- Ouvi dizer que o campo é muito bonito, nesta região. Posso pedir-lhe que consinta que sua filha me sirva de cicerone?
Margaret sentiu o coração palpitar-lhe desordenadamente, enquanto o pai enrugava a fronte e articulava:
- Bem, não sei…
Uma das regras imutáveis de Salomon van der Merwe consistia em não permitir que a rapariga estivesse a sós com um homem. Todavia, no caso de Mr. Travis, admitia-se perfeitamente uma excepção. Com tudo o que se achava em jogo, não convinha que se mostrasse pouco hospitaleiro. Assim, declarou:
- Posso dispensá-la da loja por uma ou duas horas. Acompanharás o nosso convidado, Margaret?
- Se o desejar, pai - murmurou ela.
- Então, fica combinado - disse Jamie. - Às dez horas, está bem?
Quando o convidado alto e elegantemente vestido se retirou, Margaret levantou a mesa e pôs-se a lavar a loiça, imersa num aturdimento aprazível. “Ele deve julgarme pateta!” Tentou recordar as suas intervenções na conversa desenrolada durante o jantar e não conseguiu encontrar uma única. Dir-se-ia que ficara com a língua imobilizada. Porquê? Porventura não atendera centenas de clientes do sexo masculino, na loja, sem se portar como uma imbecil? Em todo o caso, nenhum a olhava como lan Travis. “Todos os homens têm o mal no seu íntimo, Margaret. Não permitirei que te corrompam a inocência!” As advertências do pai nunca lhe abandonavam o pensamento. Seria essa a causa da sua atitude? Da debilidade e do tremor que experimentara sempre que o forasteiro a contemplara?