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Pretenderia corromper-lhe a inocência? A possibilidade fez com que sentisse o corpo percorrido por uma emoção deliciosa. Baixou os olhos para o prato que acabava de lavar pela terceira vez e sentou-se à mesa. Jamais, como naquele momento, lamentava que a mãe já não vivesse.

Ela teria compreendido. Embora estimasse o pai, Margaret tinha por vezes a sensação opressiva de que era sua prisioneira. Preocupava -a o facto de não consentir que um homem se lhe acercasse. “Nunca casarei”, receou. “Pelo menos, enquanto ele vi ver.” Os pensamentos rebeldes suscitaram-lhe uma noção de culpa e, depois de dar as boas-noites a Van der Merwe apressadamente, recolheu ao quarto.

Estudou o rosto no pequeno espelho circular pendurado na parede e comprimiu os lábios num leve sorriso de amargura. Não acalentava ilusões quanto ao seu aspecto. Não era bonita, embora possuísse uma figura interessante, olhos atraentes e malares salientes. Que teria lan Travis visto quando a contemplara?

Começou a despir-se e imaginou-o na sua frente, admirando-lhe a nudez.

Margaret acariciou os seios, cujos bicos começavam a endurecer, e em seguida fez deslizar as mãos ao longo do corpo, até as imobilizar entre as pernas. Passou a agitá-las com rapidez crescente e assolou-a uma sensação quase frenética que a obrigou a estender-se na cama a balbuciar o nome dele.

Quando percorriam a cidade na carruagem de Jamie, este admirava -se uma vez mais com as modificações registadas. Onde outrora houvera apenas um mar de tendas, erguiam-se agora construções sólidas de madeira, com telhados de chapa ondulada ou colmo.

- Klipdrift parece muito próspera - observou no momento em que seguiam pela rua principal.

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- Um recém-chegado deve achá -la interessante - admitiu Margaret, ao mesmo tempo que pensava: “Até agora, eu não a suportava.”

Por fim, abandonaram a cidade em direcção à zona mineira ao longo do rio Vaal.

As chuvas tinham convertido o campo num vasto jardim colorido repleto de plantas exóticas que não podiam ser admiradas em qualquer outra parte do mundo.

Quando passavam diante de um grupo de pesquisadores, Ja-mie perguntou:

- Têm encontrado diamantes grandes, ultimamente?

- Alguns. Cada vez que há notícia de um achado importante, aparecem centenas de novos pesquisadores. Na sua maioria, partem pobres e desiludidos - e a rapariga considerou que o devia prevenir do perigo. - Meu pai não gostaria de me ouvir dizer isto, mas penso que é uma ocupação horrível.

- Para alguns, provavelmente - admitiu ele. - Para alguns.

- Tenciona permanecer muito tempo entre nós?

- Sim.

- Óptimo - e ela sentiu o coração regozijar-se, mas tratou de acrescentar com prontidão: - Meu pai ficará satisfeito, quando souber.

Passearam durante toda a manhã e, de vez em quando, detinham-se, e Jamie trocava impressões com pesquisadores, muito dos quais reconheciam Margaret e se lhe dirigiam respeitosamente. Por seu turno, ela mostrava-se mais comunicativa do que na presença do pai.

- É muito conhecida - comentou ele, em dado momento.

- Recordam-se de me ver, quando aparecem na loja para negociar com meu pai - alegou Margaret, corando. - Ele fornece equipamento à maior parte dos pesquisadores.

Jamie não insistiu no assunto, mais interessado com o que se lhe deparava em redor. O caminho-de-ferro exercera uma influência decisiva na prosperidade de Klipdrift. Um novo consórcio, denominado De Beers, em homenagem ao agricultor em cujo terreno fora descoberto o primeiro diamante, absorvera a firma rival, pertencente a um indivíduo chamado Barney Barnato, e desenvolvia notável actividade para consolidar as centenas de pequenos lotes numa única organização.

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Recentemente, fora descoberto ouro nas proximidades de Kimberley, além de manganésio e zinco, e Jamie estava convencido de que aquilo era apenas o começo, pois a África do Sul constituía um tesouro de minerais. Na verdade, deparavam-se oportunidades incríveis a um homem de visão.

Quando regressaram, principiava a anoitecer e, no momento em que imobilizou a carruagem à entrada da loja de Van der Merwe, Jamie declarou:

- Teria o maior prazer em que você e seu pai jantassem comigo no hotel, esta noite.

- Hei-de dizer-lhe - prometeu a rapariga, esforçando-se por dissimular a satisfação. - Oxalá concorde. Obrigada pelo dia encantador, Mister Travis!

E afastou-se apressadamente.

Jantaram os três na vasta sala do no vo Grande Hotel e, olhando em volta, Van der Merwe comentou:

- Não percebo como toda esta gente se pode permitir o luxo de comer aqui.

Jamie pegou na ementa e lançou-lhe uma olhadela superficial. Um bife custava uma libra e quatro xelins, uma única batata quatro xelins e uma fatia de tarte de maçã dez.

- São uns ladrões! - prosseguiu o holandês. - Meia dúzia de refeições aqui bastam para levar um homem à miséria.

Jamie perguntou-se a si mesmo o que seria necessário para conduzir Van der Merwe à miséria, e achava-se disposto a averiguá -lo. Quando encomendaram o jantar, notou que escolhia as iguarias mais dispendiosas da ementa. Por sua vez, Margaret contentou-se com uma sopa pouco espessa, pois sentia-se demasiado excitada para comer. Em dado momento, baixou os olhos para as mãos, recordouse do que fizera com elas na véspera e experimentou uma sensação de culpa.

- Não receie levar-me à bancarrota - ironizou Jamie. - Peça o que lhe apetecer.

- Obrigada, mas não tenho apetite - murmurou ela, corando.

O pai apercebeu-se da vermelhidão nas faces da rapariga e fixou nela o olhar, com uma expressão grave.

- Minha filha é uma rapariga invulgar, Mister Travis.

- Estou inteiramente de acordo.

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Estas palavras tornaram Margaret tã o contente que nem a sopa conseguiu tragar.

O efeito que lan Travis exercia nela era incrível. Detectava insinuações encobertas em todas as suas palavras e gestos. Se lhe sorria, significava que a apreciava profundamente; se enrugava a fronte, nutria-lhe aversão. As sensações da rapariga eram um termómetro emocional cujo mercúrio não se fixava numa temperatura por muito tempo.

- Viu alguma coisa de interessante, hoje? - perguntou Van der Merwe.

- Não, nada de especial - replicou Jamie.

- Esta vai ser a região do mundo que se desenvolverá mais depressa - volveu o holandês, inclinando-se para a frente. - Uma pessoa de ideias lúcidas deve investir aqui imediatamente. O caminho-de-ferro há-de transformar Klip-drift numa segunda Cidade do Cabo.

- Não sei - disse Jamie, com uma expressão de dúvida. - Conheço muitos lugares como este que prosperaram de um dia para o outro e se afundaram com a mesma rapidez. Não estou interessado em investir dinheiro numa cidade-fantasma.

- Isso nunca acontecerá aqui. Aparecem diamantes em número cada vez mais elevado. E ouro.

- Mas por quanto tempo? - argumentou, com um encolher de ombros.

- É claro que ninguém pode fazer uma profecia dessa natureza, mas…

- Exactamente.

- Não tome uma decisão precipitada - advertiu Van der Merwe. - Custava-me vê-lo desperdiçar uma oportunidade como esta.

- Talvez precise de reflectir um pouco - admitiu Jamie, após um momento de ponderação. - Posso voltar a contar consigo amanhã, Margaret?

Van der Merwe abriu a boca para objectar, mas mudou de ideias ao recordar as palavras de Mr. Dhorensen, o banqueiro: “Ele apareceu no meu gabinete para depositar cem mil libras e disse que em breve se seguiriam outras!”