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Por fim, a cobiça sobrepôs-se a todas as outras considerações e declarou:

- Com certeza que pode.

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Na manhã seguinte, Margaret enfiou o vestido dos domingos, a fim de se encontrar com Jamie. No entanto, quando a viu, o pai corou de fúria e rugiu:

- Queres que ele te julgue uma depravada empenhada em lhe suscitar pensamentos inconfessáveis? Trata-se de negócios, rapariga. Despe isso e veste a roupa de todos os dias.

- Mas, pai…

- Já!

Ela meneou a cabeça, com uma expressão amargurada.

- Está bem, pai.

Van der Merwe viu-os partir, vinte minutos mais tarde, e perguntou a si próprio se não estaria a cometer um erro.

Desta vez, Jamie conduziu a carruagem no sentido oposto, onde havia sinais de desenvolvimento por toda a parte. “Se as descobertas de minerais continuam, uma pessoa pode ganhar mais dinheiro com a construção de imóveis do que com diamantes ou ouro. Klipdrift vai precisar de mais bancos, hotéis, saloons, lojas, bordéis…”

De súbito, apercebendo-se de que Margaret o olhava com uma expressão de curiosidade, perguntou:

- Aconteceu alguma coisa?

- Não, não… - murmurou ela, e apressou-se a desviar os olhos.

Ele observou-a atentamente e notou-lhe o esplendor, aliado a uma sensação de isolamento, de solidão. Era uma mulher sem homem.

Ao meio-dia, desviaram-se da estrada para uma área arborizada nas proximidades de um pequeno curso de água e detiveram-se debaixo de um baobabe. Faziam-se acompanhar de uma cesta de piquenique, cujo conteúdo Margaret colocou sobre uma toalha, que estendeu no relvado.

- É um banquete! - exclamou, ao ver a abundância de iguarias. - Não mereço isto, Mister Travis…

- Merece muito mais - asseverou Jamie. Segurou-lhe o rosto entre as mãos com ternura. - Olhe para mim, Margaret.

Ela obedeceu com relutância e, de repente, antes que o pudesse evitar, sentiu uns lábios vorazes colados aos seus. Transcorridos uns momentos, desprendeu-se e balbuciou:

- Não… não podemos… iríamos para o Inferno…

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- Para o Céu!

- Tenho medo…

- Não há nada a recear. Vê os meus olhos? Podem espreitar para o interior dos seus. Há lá o desejo de fazer amor comigo. E não o podemos nem devemos evitar. Pertences-me, Margaret. Repete: pertenço a lan. Vá…

- Pertenço… a lan.

Os lábios voltaram a unir-se e Jamie principiou a desprender os botões das costas do vestido. Em poucos segundos, ela encontrava-se desnuda. A passagem trémula de adolescente para mulher constituiu uma experiência excitante, inebriante, que a levou a sentir-se mais viva que nunca. “Recordarei este momento para sempre”, pensou. “Nenhuma mulher pode amar tanto como eu este homem!”

Naquela noite, Jamie e Van der Merwe encontravam-se sentados a uma mesa do canto do Sundowner, e o primeiro anunciou:

- Você tinha razão. As possibilidades nesta terra talvez sejam maiores do que eu supunha.

- Sempre calculei que acabaria por se aperceber disso, Mister Travis - replicou o holandês, com um sorriso de satisfação.

- Que me aconselha?

Olhou em redor e baixou a voz:

- Chegou-me hoje ao conhecimento que descobriram uma nova jazida de diamantes ao norte de Pniel. Ainda há dez lotes disponíveis, que podemos dividir pelos dois. Eu entro com cinquenta mil libras por cinco e você com idêntica quantia pelos restantes. Garantiram-me que os diamantes são aos montes.

Podemos arrecadar milhões de um dia para o outro. Que acha?

Jamie abarcava a situação com a maior clareza. Van der Merwe ficaria com os lotes aproveitáveis e ele com os outros. Além disso, estava convencido de que o interlocutor não arriscaria um único xelim.

- Parece interessante. Quantos pesquisadores estão envolvidos?

- Apenas dois.

- Porque é necessário tanto dinheiro? - perguntou inocentemente.

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- Eles conhecem o valor dos lotes, mas não dispõem de fundos para os explorar.

Assim, entregamos-lhes cem mil libras e deixamo-los conservar vinte por cento dos seus campos.

Van der Merwe introduziu os vinte por cento com tanta subtileza que quase passaram despercebidos. Jamie não duvidava de que os pesquisadores ficariam com os seus diamantes e o dinheiro, os quais iriam parar às mãos do holandês.

- Temos de agir rapidamente - advertiu este último. - Assim que a coisa transpirar…

- Não podemos deixar escapar a oportunidade - aquiesceu Jamie.

- Vou mandar redigir os contratos imediatamente. “Em afericânder, sem dúvida!”

Como lhe convinha manter o novo sócio satisfeito, Van der Merwe deixou de objectar a que Jamie saísse com Margaret. Entretanto, esta sentia-se cada vez mais apaixonada por ele. Era a última pessoa em que pensava antes de adormecer e a primeira que lhe acudia ao espírito quando, de manhã, abria os olhos. Jamie d espertara-lhe uma sensualidade de cuja existência ela nem suspeitava. Dir-se-ia que descobrira subitamente a verdadeira finalidade do seu corpo, e tudo aquilo que lhe haviam ensinado a considerar pecado tornava -se glorioso, destinado a proporcionar-lhe pra zer.

Nos arrabaldes arborizados da cidade, resultava fácil encontrar lugares isolados para se entregarem a actividades sexuais, e sempre que tal acontecia Margaret sentia-se tão excitada como na primeira vez.

Não obstante, a sombra ominosa do pai continuava a flagelar-lhe o pensamento.

Salomon van der Merwe era um membro importante da Igreja Presbiteriana holandesa, e a rapariga sabia que, se as suas relações com lan Travis fossem descobertas, não haveria perdão possível. Na comunidade em que viviam, só existiam dois tipos de mulheres, as sérias e as prostitutas, e as primeiras não permitiam que os homens lhes tocassem antes da noite de núpcias. Por conseguinte, considerá -la-iam prostituta. Assim, a preocupação crescente obrigoua a abordar a questão do casamento.

Seguiam na carruagem ao longo do rio Vaal, quando aventurou:

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- Sabes como te amo, lan… - interrompeu-se, embaraçada. - Que pensas acerca do casamento?

- Sou a favor, sem dúvida - replicou ele, sorrindo. - Inteiramente.

Margaret sorriu e reflectiu que aquele momento era o mais feliz da sua vida.

Domingo de manhã, Van der Merwe convidou Jamie a acompanhá-lo e à filha à Igreja. A Nederduits Hervormde Kerk era um edifício impressionante de estilo vagamente gótico, com o púlpito numa das extremidades da sala e um órgão enorme na outra. Quando transpuseram a entrada, o holandês foi saudado com profundo respeito.

- Ajudei a construir este templo - confidenciou a Jamie, sem dissimular o orgulho. - Sou um diácono.

O sermão achava-se impregnado de enxofre e fogo do Inferno, e Van der Merwe escutou-o atentamente, inclinando a cabeça por diversas vezes, em silenciosa concordância com as palavras do orador.

“É um homem de Deus ao domingo e pertence ao Diabo durante o resto da semana…”, reflectiu Jamie.

Embora o pai se tivesse sentado entre ambos, Margaret tinha plena consciência da proximidade de Jamie e, com um leve sorriso trémulo, cogitava: “Ainda bem que o pastor desconhece o que tenho no ventre!”

Naquela noite, Jamie visitou o saloon Sundowner, e Smit acolheu-o com um sorriso.

- Boa noite, Mister Travis. Que toma: o costume?

- Hoje, não. Preciso falar-lhe. Lá atrás.

- Com certeza - acedeu o bartender com prontidão, pressentindo uma possibilidade de ganhar dinheiro.

Entraram num compartimento pouco maior que um cubículo, que continha uma mesa redonda com quatro cadeiras e um candeeiro de petróleo.

- Sentemo-nos - indicou Jamie.

- Sem dúvida. Em que lhe posso ser útil?

- Eu é que tenciono ser-lhe útil.

- Sim?

- Exacto - puxou de uma longa cigarrilha e acendeu-a. - Resolvi deixá-lo viver.

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- Desculpe, mas não… - começou Smit, empalidecendo. - Que quer dizer, Mister Travis?