- O meu nome não é esse. Chamo-me Jamie McGregor. Há cerca de um ano, preparou o cenário para que me matassem, no celeiro. Recorda-se? Por conta de Van der Merwe.
- Confesso que…
- Cale-se e oiça - e a voz de Jamie vibrava como um chicote cortando o ar. - Continuo vivo e enriqueci o suficiente para mandar incendiar esta espelunca, consigo dentro. Está a acompanhar o meu raciocínio?
O bartender fez menção de manifestar ignorância, mas o perigo dimanado dos olhos do interlocutor obrigou-o a reconsiderar.
- Sim, senhor - articulou com prudência.
- Van der Merwe paga-lhe pelos pesquisadores que ludibria, enviados por si. É uma sociedade curiosa. Quanto recebe por isso?
- Bem, dois por cento.
- Dou-lhe cinco. A partir de agora, quando um pesquisador potencial o procurar, mandá-lo-á ter comigo. Financiá-lo-ei, mas ele obterá uma percentagem razoável e você também. Pensa que Van der Merwe lhe pagava realmente dois por cento do que arrecadava?
- Perfeitamente, Mister Tra… Mister McGregor. Compreendo.
- Talvez não por completo - Jamie levantou-se e, com uma expressão grave, acrescentou: - Está a pensar em procurá-lo e repetir-lhe esta nossa amena conversa, para poder receber dos dois lados. Vejo apenas um pequeno óbice nisso, Smit - baixou a voz até se converter num murmúrio. - Se o fizer, não viverá o suficiente para saborear o resultado.
Capítulo sétimo Jamie acabava de se vestir, quando bateram à porta levemente. Apurou os ouvidos e o som repetiu-se, pelo que foi abrir, deparando-se-lhe Margaret.
- Entra, Maggie. Há alguma novidade?
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Era a primeira vez que o procurava no quarto do hotel, e agora que o enfrentava sentia dificuldade em falar. Permanecera acordada toda a noite em busca de uma maneira de lhe transmitir a notícia, pois receava que não quisesse voltar a vê -la.
De súbito, fitou-o nos olhos e anunciou:
- Vou ter um filho teu, lan.
A expressão dele mostrava-se tão tensa que a rapariga receou tê -lo perdido para sempre. De repente, porém, exibiu uma alegria tão grande que todas as suas dúvidas se dissiparam instantaneamente.
- É maravilhoso, Maggie! - exclamou Jamie, segurando-Lhe os braços. - Disseste a teu pai?
- Isso, não!… - ela desprendeu-se, alarmada, e retrocedeu até ao sofá vitoriano, no qual se sentou. - Não o conheces. Nunca… nunca compreenderia.
- Vamos anunciar-lhe a boa nova - decidiu ele, vestindo a camisa apressadamente.
- Tens a certeza de que correrá tudo bem?
- Nunca estive tão certo de uma coisa em toda a minha vida.
Salomon van der Merwe pesava carne salgada para um pesquisador, quando Jamie e Margaret entraram na loja.
- Olá, lan! Dou-lhe já atenção - terminou de atender o cliente rapidamente e aproximou-se dos recém-chegados. - Como lhe correm as coisas neste belo dia?
- Não podiam correr melhor - replicou Jamie, em tom jovial. - Sua filha está grávida.
Estabeleceu-se um silêncio ominoso, enquanto Van der Merwe os olhava alternadamente com perplexidade.
- Não… não compreendo.
- É muito simples. Engravidei-a.
- Não é possível! - a cor desapareceu por completo das faces do homem, assolado por um turbilhão d e emoções em conflito: o choque imprevisto da perda de virgindade da filha… da sua gravidez… Toda a cidade se riria dele. Por outro lado, lan Travis era um homem abastado e, se casassem sem demora… Por fim, voltou-se de novo para Jamie. - Vão casar imediatamente, claro.
- Casar? - o interpelado olhou-o com admiração. -
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Consentia que Maggie se unisse a um maloio estúpido que o deixou privá-lo de tudo o que lhe pertencia?
- Que está para aí a dizer, lan? - o holandês sentia a cabeça rodopiar. - Eu nunca…
- Não me chamo lan. Sou Jamie McGregor. Não me reconheceu? É óbvio que não. Esse rapaz morreu. Você matou-o. Mas não sou um homem rancoroso, Mister Van der Merwe. Portanto, faço-lhe uma oferta. A minha semente no ventre de sua filha.
E, com estas palavras, Jamie rodou nos calcanhares e afastou-se, deixando pai e filha boquiabertos, impossibilitados de articular uma sílaba.
Margaret escutara-o estarrecida e chocada, incapaz de acreditar. Ele não podia falar a sério. Amava -a!
Por fim, Salomon van der Merwe concentrou-se nela, preparado para dar livre curso à cólera e à indignação.
- Rameira! Rua, sua prostituta! Fora desta casa!
A rapariga ficou petrificada, sem conseguir abarcar a enormidade do que acontecia. lan utilizara-a para se vingar de algo que o pai lhe fizera. Julgava-a envolvida numa manobra destinada a prejudicá-lo. Quem era Jamie McGregor?
Quem…
- Rua! - vociferou o holandês, esbofeteando-a com violência. - Não quero voltar a pôr-te a vista em cima!
Ela conservou-se imóvel por um momento, pregada ao chão, sentindo o coração palpitar fortemente e dificuldade em respirar. A expressão do pai era a de um louco. Por último, voltou-se e abandonou a loja correndo, sem olhar para trás.
Salomon van der Merwe viu-a afastar-se, dominado pelo desespero. Tinha bem presente no espírito o que sucedera às filhas de outros homens que se haviam desgraçado. Depois de verberadas publicamente na igreja, só lhes restara abandonar a comunidade. Era o castigo apropriado, exactamente a sorte que mereciam. Mas a sua Margaret recebera uma educação decente, temente a Deus.
“Como o pudera trair de semelhante maneira?” Imaginou a filha desnuda, em união sexual com aquele homem, contorcendo-se no cio como animais, e começou a sentir uma erecção.
Por fim, encerrou a loja e estendeu-se na cama, sem forças nem vontade de se mover. Quando o facto constasse na cidade, seria alvo de chacota. Compadecerse- iam dele ou
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censurá-lo-iam pela depravação da filha. Em qualquer dos casos, tornar-se-ia insustentável. Tinha de enviar a prostituta para longe. Transcorridos uns minutos, ajoelhou e orou: “Como pudeste fazer isto a um teu servidor leal, meu Deus? Porque me abandonaste? Deixa-a morrer, Senhor. Que morram os dois…”
O sallon Sundowner estava repleto de clientes, quando Jamíe entrou e se aproximou do balcão. Em seguida, virou-se para a sala e proferiu em tom enérgico:
- Atenção, por favor! - o murmúrio das conversas extinguiu-se. - Pago bebidas a todos.
- Que foi? - quis saber Smit. - Uma nova descoberta de diamantes?
- Até certo ponto - admitiu Jamie, com uma gargalhada. - A filha de Salomon van der Merwe está grávida e ele quer que todos festejem o acontecimento.
- Santo Deus! - balbuciou o bartender.
- Deus não teve nada a ver com o assunto. Apenas Jamie Em menos de uma hora, todos os habitantes de Klipdrift estavam ao corrente do facto. lan Travis era na realidade Jamie McGregor e engravidara a filha de Van der Merwe. A sonsa da Margaret conseguira iludir toda a cidade.
- Ninguém diria, hem?
- As águas paradas são profundas, como diz o outro.
- Gostava de saber quantos outros homens da cidade terão embebido a torcida naquele poço.
- É uma moça bem feita. Não me importava nada de provar uma talhada.
- Porque não lhe pedes? Segundo parece, não se faz rogada.
E os homens soltavam gargalhadas divertidas.
Quando saiu da loja, naquela tarde, Salomon van der Mer-we adaptara-se à catástrofe que o assolara. Enviaria Margaret para a Cidade do Cabo no primeiro transporte. Teria lá o seu bastardo e ninguém de Klipdrift se inteiraria da vergonha que o invadia. Satisfeito com a decisão que tomara, deteve -se diante da porta, com um sorriso de alívio.
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- Boa tarde, Mister Van der Merwe. Ouvi dizer que ia passar a vender artigos para bebé.
- Olá, Salomon! Constou-me que vai ter um pequeno ajudante.
- Como está, Salomon? Diz-se para aí que foi avistada uma ave de nova espécie, lá para os lados do rio Vaal. É uma cegonha!