O holandês deu meia volta e tornou a entrar na loja, cuja porta fechou com violência atrás dele.
No sallon Sundowner, Jamie saboreava um uísque, ao mesmo tempo que prestava atenção às conversas e aos comentários à sua volta. Tratava-se do maior escândalo da história de Klipdrift, e os habitantes mostravam-se dispostos a saboreá-lo até à última gota. “É pena Banda não estar presente, para apreciar o espectáculo comigo”, ponderava ele. Aquilo constituía a recompensa pelo que Salomon van der Merwe fizera à irmã de Banda e só Deus sabia a quantas outras.
No entanto, não passava de parte do que o holandês tinha de expiar, o começo. A vingança de Jamie não ficaria completa até que Van der Merwe se achasse totalmente destruído. Quanto a Margaret, não lhe inspirava a mínima compaixão, pois participara no conluio. Que dissera no primeiro dia em que a vira? Que o pai o ajudaria, pois conhecia tudo sobre o assunto. Era igualmente uma Van der Merwe, e ele destruiria ambos.
Smit aproximou-se da mesa que ocupava e proferiu:
- Pode conceder-me um minuto, Mister McGregor?
- De que se trata?
O bartender aclarou a voz com uma ponta de embaraço e confidenciou:
- Conheço dois pesquisadores que possuem dez lotes perto de Pniel. Contêm diamantes, mas eles não dispõem de fundos para adquirir o equipamento apropriado. Procuram um sócio e pensei que lhe poderia interessar.
Jamie olhou-o em silêncio por um momento, antes de redarguir:
- São os homens que mencionou a Van der Merwe, hem?
- Exacto - confirmou o outro, surpreendido. - Mas estive a pensar na sua proposta e prefiro negociar consigo.
Jamie puxou de uma longa cigarrilha e Smit apressou-se a acendê-la.
- Sou todo ouvidos.
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Ao princípio, a prostituição em Klipdrift funcionava de uma forma fortuita. As prostitutas eram, na sua maioria, negras, que actuavam em sórdidos bordéis em ruas estreitas. As primeiras profissionais brancas que chegaram à cidade acumulavam essa actividade com a de barmaid. No entanto, à medida que as descobertas de campos de diamantes aumentavam e Klipdrift prosperava, o seu número alargou-se em conformidade.
Assim, havia agora meia dúzia de casas do género nos subúrbios, as quais não passavam de barracas de madeira com telhados de zinco.
A única excepção era a de Madame Agnes, uma estrutura de dois pisos de aspecto respeitável em Bree Street, perto de Loop Street, artéria principal, onde as esposas dos habitantes da cidade não se ofenderiam por terem de passar em frente dela. Frequentavam-na os maridos dessas esposas e os forasteiros com recursos materiais para o fazer. As tarifas eram elevadas, mas as animadoras, jovens e desinibidas, compensavam bem o preço. Eram servidas bebidas numa sala razoavelmente decorada e uma das principais regras da casa impunha que os clientes não fossem forçados a tomar decisões, no tocante ao consumo.
Madame Agnes, uma ruiva de trinta e cinco anos, trabalhara num bordel londrino e sentira-se atraída pela África do Sul ao inteirar-se da aparente facilidade com que se construíam (e, portanto, despendiam) fortunas na cidade mineira de Klipdrift. E como economizara dinheiro suficiente para se estabelecer por conta própria, não hesitara em tentar a sorte, com o resultado de que o negócio prosperara desde o primeiro dia.
Ela sempre se orgulhara de compreender os homens, todavia Jamie McGregor constituía um autêntico enigma. Visitava a casa com frequência, gastava dinheiro liberalmente e mostrava-se sempre atencioso para com as mulheres, mas parecia alheio ao que o rodeava. Eram os seus olhos o que mais fascinava Madame Agnes: pálidos e frios, como lagos sem fundo. Ao contrário dos outros frequentadores, nunca falava de si ou do seu passado. Ela soubera, poucas horas antes, que Jamie McGregor engravidara propositadamente a filha de Salomon van der Merwe e recusava desposá-la. “O bastardo!” Não obstante, via-se forçada
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a reconhecer que se tratava de um bastardo atraente. Naquele momento, descia a escada com passadeira vermelha, e, depois de se despedir polidamente, transpôs a saída.
Quando Jamie regressou ao hotel, Margaret encontrava-se no seu quarto, olhando pensativamente pela janela, e voltou-se com prontidão ao ouvi-lo entrar.
- Olá, Jamie - articulou em voz trémula.
- Que fazes aqui?
- Preciso falar contigo.
- Não temos nada a dizer um ao outro.
- Sei porque procedes assim. Odeias meu pai - a rapariga acercou-se um passo. - Quero que saibas que não tive a mínima participação no que ele te fez. Por favor… suplico-te… acredita. Não me detestes. Amo-te muito.
- O problema é teu! - retrucou ele, friamente.
- Não me olhes assim. Também me amas…
Todavia, Jamie não a escutava. Voltava a efectuar o percurso até Paardspan, onde quase perdera a vida… Desviava as rochas nas margens do rio, ao ponto de quase cair, extenuado… Até que, finalmente, descobria os diamantes… Entregava - os a Van der Merwe e ouvia a voz deste: “Compreendeu mal. Não preciso de sócios para nada. Limitou-se a trabalhar para mim, segundo o nosso acordo…
Pegue no seu dinheiro e desapareça…” Depois, o espancamento selvagem..
Voltou a acudir-lhe às narinas o cheiro dos abutres e a sentir os bicos cravaremse- lhe na carne…
De súbito, ouviu a voz de Margaret, como se proviesse de uma distância enorme:
- Não te lembras? Pertenço-te… Amo-te.
Sacudiu a cabeça para desanuviar o espírito e olhou-a com estranheza. Já nem sequer fazia uma ideia do s ignificado da palavra amor. Van der Merwe sugara -lhe todas as emoções, à excepção do ódio. Agora, continuava a viver alimentado por essa força. Era o seu elixir, a sua seiva. Fora isso que o mantivera vivo, quando lutara com os tubarões, transpusera os recifes e rastejara sobre as minas, no campo de diamantes do deserto da Namíbia. Os poetas enalteciam o amor e os cantores interpretavam melodias baseadas nesse tema, e talvez fosse real, talvez existisse. Mas só para os outros. Nunca mais para Jamie McGregor.
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- És a filha de Salomon van der Merwe. Tens o neto dele no ventre. Sai.
Margaret não tinha para onde ir. Estimava o pai e necessitava do seu perdão, mas sabia que jamais o obteria. Ele transformar-lhe-ia a vida num autêntico inferno. No entanto, não lhe restava qualquer alternativa. Necessitava de recorrer a alguém.
Assim, quando abandonou o hotel dirigiu-se à loja. Entretanto, tinha a impressão de que todos a olhavam com curiosidade e julgou mesmo detectar sorrisos maliciosos nos lábios de alguns homens.
Quando entrou, encontrou a sala deserta, mas Salomon van der Merwe não tardou a surgir das traseiras.
- Pai…
- Tu, aqui! - o desdém na voz dele atingiu-a como um impacte físico. Quando se aproximou, notou o hálito de uísque e compreendeu que tentara afogar as mágoas na bebida. - Quero que saias da cidade, imediatamente, e não voltes a pôr cá os pés. Ouviste? Nunca mais! - puxou de algumas notas de banco da algibeira e lançou-as aos pés da filha. - Recolhe esse dinheiro e desaparece!
- Trago no ventre o teu neto.
- É o filho do demónio! - adiantou-se mais um passo, os punhos cerrados ameaçadoramente. - Cada vez que te vissem arrastando-te por aí como uma prostituta, pensavam na minha vergonha. Se desapareceres, acabarão por esquecer tudo.
Margaret olhou-o demoradamente em silêncio, voltou-se e afastou-se com lentidão.
- O dinheiro, prostituta! - rugiu Van der Merwe. - Esqueceste-te dele!
Havia uma pensão pouco dispendiosa na periferia da cidade, e ela encaminhou-se para lá, o espírito assolado por confusão absoluta. Quando a alcançou, procurou a proprietária, Mrs. Owens, uma mulher nutrida que aparentava cinquenta anos, de expressão benevolente, cujo marido a levara para Klipdrift e abandonara mais tarde. Outra teria sucumbido ao revés do destino, mas ela não viera ao mundo para se curvar ao infortúnio e acabara por se recompor.