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Vira muitas pessoas em apuros naquela cidade, mas nenhuma tão acabrunhada como a rapariga de dezassete anos de momento na sua frente.
- Querias falar comigo?
- Sim. Desejava… pensei que podia ter trabalho para mim.
- Trabalho? De que género?
- O que houver. Sou boa cozinheira. Posso servir às mesas. Também sei arrumar quartos… - Margaret interrompeu-se, dominada pelo desespero. - Faço seja o que for… Por favor!
Mrs. Owens contemplou-a com curiosidade e não pôde evitar uma sensação de amargura.
- Bem, mais uma funcionária não calhava mal, para o trabalho que há… - admitiu, apercebendo-se da expressão de alívio da interlocutora. - Quando podes começar?
- Imediatamente.
- Só te posso pagar… - pensou numa quantia e aumentou-a ligeiramente. - Uma libra, dois xelins e onze pences, por mês, com alimentação e alojamento.
- É óptimo - articulou Margaret, reconhecida.
Salomon van der Merwe passara a evitar as ruas de Klip-drift e os clientes encontravam a loja fechada cada vez com maior frequência, pelo que começaram gradualmente a recorrer a outros comerciantes.
Não obstante, o holandês continuava a visitar a igreja todos os domingos. Não para rezar, mas para rogar a Deus que rectificasse a iniquidade que caíra sobre os ombros do seu obediente servidor. Os outros paroquianos sempre o haviam encarado com o respeito devido a um homem abastado e poderoso, mas agora Van der Merwe apercebia-se dos olhares de reprovação e dos murmúrios nas suas costas. A família que costumava ocupar o lugar ao lado do seu mudou-se para outro. Consideravam-no um pária. Todavia, o que o abalou por completo foi o sermão tonitruante do sacerdote, que combinava habilmente palavras do Êxodo, de Ezequiel e do Leví-tico:
- Eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus zeloso, que visita a iniquidade dos pais nos filhos. Portanto, ó meretriz, escuta a voz do Senhor, pois a imoralidade extravasou e a tua nudez
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ficou descoberta na devassidão com os teus amantes… E o Senhor dirigiu-se a Moisés e disse: “Não prostituas a tua filha, obrigando-a a ser uma rameira, sob pena de a Terra se afundar na prostituição e se encher de maldade”…
Depois daquele domingo, Salomon van der Merwe não voltou a entrar na igreja.
Enquanto os negócios do holandês se deterioravam, os de Jamie McGregor prosperavam. As despesas envolvidas nas pesquisas aumentavam à medida que os diamantes se encontravam a maior profundidade e os mineiros possuidores de lotes para explorar reconheciam que não dispunham de recursos para adquirir o equipamento necessário. Não tardou a propagar-se a nova de que Jamie McGregor os financiaria em troca de uma percentagem nos lucros, e, mais tarde, comprava -lhes as quotas. Por seu turno, investia em propriedade horizontal e ouro, revelando-se meticulosamente honesto nas operações, pelo que a sua reputação se difundiu e as propostas de negócios afluíam em número crescente.
Havia dois bancos na cidade, e quando um deles faliu, por má administração, Jamie comprou-o, colocando à testa pessoas da sua confiança e evitando que o seu nome figurasse na transacção.
Tudo em que ele tocava parecia prosperar. Era bem sucedido e rico para além dos seus sonhos mais arrojados, mas isso carecia de significado especial na sua vida.
Media os seus êxitos apenas pelos falhanços de Salomon van der Merwe, pois a vingança achava-se ainda no princípio.
De vez em quando, Jamie cruzava-se com Margaret na rua, mas não lhe prestava a mínima atenção.
Não podia, portanto, aperceber-se do que esses encontros ocasionais representavam para a rapariga. O simples facto de o ver cortava -lhe o alento, pois ainda o amava completa e profundamente. Nada poderia alterar essa maneira de sentir. Embora Jamie tivesse utilizado o seu corpo para se vingar do pai, Margaret sabia que isso poderia constituir uma faca de dois gumes. Em breve teria um filho dele e, quando visse a criança em cujas veias corria o seu sangue, casaria com ela, que era a única coisa que ambicionava no mundo. À noite, antes de adormecer, acariciava o ventre volumoso e murmurava: “O nosso filho!” Talvez não passasse de uma insensatez
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supor que poderia influenciar o seu sexo, mas não queria descurar qualquer possibilidade. Todos os homens desejavam um rapaz.
À medida que as dimensões do ventre aumentavam, Margaret sentia a apreensão acentuar-se. Deplorava não poder confiar em alguém, mas as mulheres da cidade não lhe falavam. A sua religião ensinava-as a castigar e não a perdoar. Por conseguinte, encontrava-se só, rodeada de estranhos, e passava grande parte das noites chorando por ela e pelo filho prestes a nascer.
Entretanto, Jamie McGregor adquirira uma casa de dois pisos no centro de Klipdrift, onde instalara o quartel-general dos seus negócios, em expansão permanente. Um dia, Harry McMillan, chefe dos contabilistas, procurou-o e anunciou:
- Como vamos combinar as suas firmas, precisamos de um nome que as englobe.
Tem alguma sugestão a esse respeito?
- Vou pensar nisso.
E, na verdade, ponderou o assunto. No espírito, persistia o som de ecos de um passado remoto que perfuravam o mis do mar no campo de diamantes do deserto da Namíbia, e acabou por chegar à conclusão de que só havia um nome possível.
Nessa conformidade, chamou McMillan e comunicou-lhe:.
- A nova companhia chamar-se-á “Kruger-Brent, Limited”.
O gerente do banco de Jamie, Alvin Cory, revelou-lhe:
- Queria falar-lhe dos empréstimos de Mister Van der Merwe. O prazo do pagamento já expirou e ainda não o satisfez. Outrora, ele constituía um risco corrente, mas a sua situação alterou-se drasticamente. Penso que devíamos pressioná-lo.
- Não.
- Mas, esta manhã, tentou obter mais dinheiro… - começou Cory arqueando as sobrancelhas.
- Não importa. Satisfaça-lhe todos os pedidos.
- Como queira, Mister McGregor. Dir-lhe-ei que o senhor…
- Não diga nada. Limite -se a dar-lhe o dinheiro.
Margaret levantava -se todas as manhãs às cinco horas, a fim de amassar pão, e quando os hóspedes se apresentavam
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na sala de jantar, para o pequeno-almoço, servia-lhes caldo, presunto e ovos, biscoitos de aveia, croissants, café fume-gante e naartje. Na sua maioria, tratavase de pesquisadores de passagem em direcção ou no regresso dos seus lotes.
Efectuavam uma paragem na cidade apenas o tempo suficiente para mandarem avaliar os seus diamantes, tomar banho, apanhar uma bebedeira e visitar um dos bordéis da cidade, em geral por esta ordem. Eram quase todos aventureiros analfabetos e rudes.
Segundo uma lei não escrita que vigorava em Klipdrift, as mulheres de porte irrepreensível não deviam ser molestadas. Qua ndo um homem desejava ter relações sexuais, procurava uma prostituta. No entanto, Margaret van der Merwe representava um desafio, pois não se adaptava a qualquer das categorias. As raparigas bem-comportadas solteiras não engravidavam, e circulava a teoria de que, como cometera um deslize uma vez, subsistem fortes probabilidades de ansiar por ir para a cama com qualquer homem. Bastava sugerir-lho. E faziam -no.
Alguns pesquisadores abordavam-na abertamente, enquanto outros preferiam as tentativas dissimuladas. Margaret repelia-os sempre com serena dignidade, até que, uma noite, Mrs. Owens, quando se preparava para dormir, ouviu gritos agudos provenientes do quarto da rapariga. Acto contínuo, correu para lá e abriu a porta. Um dos hóspedes, um pesquisador embriagado, arrancara-lhe o roupão e imobilizava -a na cama.
Mrs. Owens agiu como uma pantera enfurecida. Pegou numa barra de ferro e principiou a flagelar o homem até que lhe fez perder os sentidos, arrastando-o depois para a rua. Em seguida, regressou ao quarto de Margaret, que limpava o sangue dos lábios mordidos pelo assaltante.
- Estás bem, Maggie?
- Sim, Mistress Owens - articulou a rapariga, em voz trémula. - Muito obrigada…