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E as lágrimas irromperam com abundância. Numa cidade onde ninguém lhe falava, uma pessoa manifestara bondade.

Por seu turno, Mrs. Owens contemplava-lhe o ventre inchado e reflectia: “Pobre sonhadora. Jamie McGregor nunca casará com ela.”

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A data do parto aproximava -se. Margaret cansava -se com facilidade, e o facto de se inclinar e voltar a endireitar representava um esforço quase excruciante. O único prazer consistia em sentir a criança mover-se nas suas entranhas. Ela e o filho achavam-se completamente sós no mundo, e falava-lhe constantemente, referindo todas as coisas maravilhosas que a vida lhe reservava.

Uma noite, pouco depois do jantar, um rapaz negro apresentou-se na pensão, a fim de entregar uma carta a Margaret e esclarecer:

- Mandaram-me aguardar a resposta.

A rapariga leu-a duas vezes, a segunda com lentidão, e anunciou:

- Sim. A resposta é afirmativa.

Na sexta-feira seguinte, ao meio-dia em ponto, bateu à porta do bordel de Madame Agnes, na qual fora afixada a indicação: “Encerrado”. Fê-lo em breves pancadas discretas, indiferente aos olhares surpreendidos de quem passava. Ao mesmo tempo, perguntava a si própria se teria cometido um erro ao comparecer.

Na realidade, tratara-se de uma decisão difícil e tomara-a impelida apenas pela terrível solidão que a envolvia. O conteúdo da missiva era o seguinte:

Cara Miss Van der Merwe Embora o assunto não nos diga respeito, eu e as minhas pequenas discutimos a sua situação, infeliz e injusta, que muito nos revolta. Gostávamos de a ajudar e ao seu bebé. Portanto, se o facto não a embaraçar, teremos o maior prazer em que almoce connosco. Convém-lhe na sexta-feira?

Atenciosamente Madame Agnes P.S. Seremos muito discretas.

Margaret começava a admitir a possibilidade de se retirar, quando a porta foi finalmente aberta pela própria Madame Agnes, que lhe pegou no braço e sugeriu:

- Entre. Saia desse maldito calor.

Conduziu-a à sala, mobilada com sofás, cadeiras e mesas vitorianas e decorada de forma algo espectacular, com fitas

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coloridas e balões. Em tiras de cartão suspensas do tecto, lia-se: “Felicidades para o bebé… será um rapaz… feliz aniversário.”

Achavam-se presentes oito das “pequenas” de Madame Agnes, numa variedade de tipos, idades e cores, todas devidamente trajadas para o momento, em obediência às instruções da patroa. Por outras palavras, usavam vestidos conservadores e nem vestígios de pintura. “Têm um aspecto mais respeitável do que a maioria das mulheres casadas da cidade”, pensou Margaret.

Ao mesmo tempo, contemplava as prostitutas à sua volta, sem saber o que fazer ou dizer. Algumas eram conhecidas, pois a tendera -as na loja do pai. De qualquer modo, possuíam um factor comum: preocupavam-se com ela. Mostravam-se atenciosas e cordiais e empenhavam -se em animá-la.

Moviam-se em torno da rapariga, com certo embaraço, como se receassem dizer ou fazer algo de errado. Independentemente do que as más -línguas propalavam, sabiam que se tratava de uma senhora e estavam conscientes da diferença entre elas e Margaret. Consideravam-se honradas por ela ter aceitado o convite e desejavam desenvolver todos os esforços para evitar que algum acto ou gesto irreflectido perturbasse a reunião.

- Preparámos um almoço excelente - anunciou Madame Agnes. - Espero que tenha apetite.

Seguiram para a sala de jantar, onde fora posta uma mesa de aspecto festivo, com uma garrafa de champanhe no lugar que lhe era destinado. Quando atravessavam o átrio, ela lançou uma olhadela à escada de acesso aos quartos no primeiro andar. Sabia que Jamie frequentava a casa e perguntava a si própria qual das raparigas costumava escolher. Talvez todas. O facto levou-a a observá-las discretamente, numa tentativa para determinar o que possuiriam que lhe faltasse.

O almoço revelou-se um autêntico banquete. Principiou com uma sopa e salada deliciosas, seguidas de carpa grelhada, que antecedeu por seu turno cabrito assado com batatas e legumes. Culminavam o repasto queijo, fruta, um bolo decorativo e café. Margaret sentava-se à cabeceira da mesa, com Madame Agnes à sua direita, e Maggie, uma loura atraente que não aparentava mais de dezasseis anos, à sua esquerda. Ao princípio, a conversação foi um pouco afectada. As

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raparigas conheciam numerosas historietas divertidas, mas afiguravam-se-lhes pouco apropriadas para os ouvidos da convidada. Por conseguinte, referiam-se ao tempo, ao desenvolvimento de Klipdrift e ao futuro da África do Sul. Achavam-se familiarizadas com a política, a economia e os diamantes, porque obtinham informações em primeira mão de peritos na matéria seus clientes.

A dada altura, a loura atraente, Maggie, anunciou:

- Jamie descobriu um novo campo de diamantes em… - apercebendo-se do silêncio estabelecido repentinamente, compreendeu o lapso que cometera e acrescentou com um sorriso nervoso: - Refiro-me a meu tio Jamie.

Margaret sentiu-se surpreendida com a súbita vaga de ciúme que a invadiu e Madame Agnes apressou-se a mudar de assunto.

No final da refeição, esta última levantou-se e indicou:

- Por aqui, minha amiga.

Seguiram-na todas a uma segunda sala, cheia de presentes envoltos em papel de fantasia e fitas.

- Não encontro palavras… - balbuciou Margaret, comovida.

- Nem são necessárias - atalhou Madame Agnes. - Desembrulhe-os.

Havia um berço de balouço, pequenas botas de lã, gorros, uma capa de caxemira.

Numa palavra, todos os artigos indispensáveis a um bebé.

Era como no Natal e excedia tudo o que ela poderia jamais conceber. De súbito, toda a solidão e infelicidade reprimidas nos últimos meses explodiram nela e rompeu em soluços.

Madame Agnes rodeou-lhe a cintura com o braço e indicou às outras que se retirassem, enquanto Margaret se esforçava por dominar a emoção.

- Peço… peço desculpa - gaguejou. - Não sei o que me aconteceu.

- Não se preocupe, querida. Esta sala assistiu à passagem de muitos problemas.

E sabe o que a experiência me ensinou? No fim, tudo se soluciona. Você e o seu filho hão-de conhecer a felicidade.

- Obrigada - murmurou. Apontando na direcção dos presentes, acrescentou: - Nunca poderei agradecer-lhes tudo isto.

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- Nem é preciso. Não faz uma ideia de como nos divertimos quando procurávamos aquilo que nos parecia conveniente. Garanto-lhe que não se nos deparam oportunidades destas com frequência. Se uma de nós fica grávida, é uma autêntica tragédia - Madame Agnes cobriu a boca com a mão. - Oh, desculpe!

- Quero que saiba que este é um dos dias mais felizes da minha vida - afirmou Margaret, sorrindo.

- Sentimo-nos lisonjeadas com a sua visita. Quanto a mim, vale mais que todas as mulheres desta cidade juntas. Malditas cadelas! Era capaz de as matar pela maneira como a tratam. E, se me permite que lhe diga, Jamie McGregor não passa de um imbecil - Madame Agnes sacudiu a cabeça. - Homens! O mundo era maravilhoso se pudéssemos viver sem eles. Ou talvez não fosse. Quem sabe?

Entretanto, Margaret recompusera-se da emoção e segurou a mão da interlocutora entre as suas.

- Nunca esquecerei isto. Um dia, quando meu filho tiver idade suficiente, hei-de dizer-lhe.

- Parece-lhe conveniente? - articulou Madame Agnes, enrrugando a fronte.

- Sem a mínima dúvida.

- Mandarei levar os p resentes à pensão - prometeu, acompanhando a rapariga à porta. - Felicidades.

- Obrigada. Muitíssimo obrigada.

Conservou-se imóvel por uns minutos, enquanto Margaret se afastava. Por fim, exalou um suspiro de resignação e chamou:

- Ao trabalho, meninas! Vamos reabrir ao público. Uma hora mais tarde, a casa registava a afluência habitual.

Capítulo oitavo Chegara o momento de preparar a ratoeira. Durante os últimos seis meses, Jamie McGregor dedicara-se à compra discreta das quotas dos associados de Van der Merwe nas suas várias empresas, pelo que podia agora dominar as operações.