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No entanto, a sua obsessão consistia em possuir os campos de

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diamantes do holandês na Namíbia. Considerava que os pagara centenas de vezes com o seu sangue e coragem, quase perdendo a vida ante as vicissitudes que sofrera. Utilizara os diamantes que ele e Banda tinham retirado de lá para construir um império destinado a esmagar Salomon van der Mer-we, tarefa que ainda não fora completada. Agora, achavam-se reunidas as condições para o fazer.

Van der Merwe afundava-se cada vez mais em dívidas. Agora, ninguém da cidade estava disposto a emprestar-lhe dinheiro, à excepção do banco que Jamie dirigia em segredo. Com efeito, o gerente deste último recebera instruções bem definidas:

- Dê a Salomon van der Merwe todo o dinheiro que ele pedir.

Entretanto, a loja do holandês raramente estava aberta. Ele habituara-se a beber desde manhã cedo e, à tarde, dirigia-se ao bordel de Madame Agnes, onde pernoitava com frequência.

Certa manhã, Margaret encontrava-se no talho à espera que a atendessem, quando lançou uma olhadela através da montra e viu o pai abandonar a casa de toleradas. Quase incapaz de reconhecer o homem acabrunhado que se arrastava pela rua, reflectiu com amargura: “Fui eu quem o reduziu a este estado. Perdoame, meu Deus!”

Salomon Van der Merwe não fazia a mínima ideia do que lhe sucedia. Apenas sabia que a sua vida se desmoronava irremediavelmente, sem que contribuísse para tal. O Criador escolhera-o, como outrora a Job, para p ôr à prova o fervor da sua fé. Não obstante, estava persuadido de que triunfaria dos inimigos.

Necessitava apenas de um pouco de tempo… tempo e mais dinheiro. Arriscara como penhor o estabelecimento, as acções de seis pequenos campos de diamantes que possuía e até o seu cavalo e carruagem. Por último, restara apenas o campo de diamantes na Namíbia, e no dia em que o apresentou como garantia adicional Jamie não descurou a oportunidade.

- Reúna todas as suas promissórias - indicou ao gerente do banco. - Conceda-lhe vinte e quatro horas para as satisfazer, sob pena de executar a hipoteca.

- Mas ele não pode arranjar uma quantia tão elevada nesse lapso de tempo…

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- Vinte e quatro horas.

Às quatro da tarde exactas do dia seguinte, o gerente do banco apresentou-se na loja, acompanhado de um representante da autoridade e de uma ordem judicial, para confiscar todos os bens de Salomon van der Merwe. Da janela do escritório, do outro lado da rua, Jamie assistiu à expulsão do holandês do seu estabelecimento. O velho imobilizou-se no passeio, pestanejando ante os raios solares intensos, sem saber o que fazer ou a quem recorrer. Fora despojado de tudo. A vingança de Jamie completara -se. “Porque será que não tenho a mínima sensação de triunfo?”, perguntava-se este último. Na realidade, sentia um vazio no seu íntimo. O homem que acabava de aniquilar destruíra-o primeiro.

Naquela noite, quando entrou no bordel de Madame Agnes, esta perguntou-lhe:

- Sabe a última? Salomon van der Merwe fez saltar os miolos, há uma hora.

O funeral realizou-se no cemitério desolador e varrido pelo vento na periferia da cidade. Além do pessoal da agência e os coveiros, a cerimónia contava apenas com dois assistentes: Margaret e Jamie McGregor. A rapariga usava um vestido preto folgado para dissimular o ventre e apresentava-se pálida e pouco saudável, enquanto ele, elegante e empertigado, exibia uma atitude distante e indiferente.

Encontravam-se em lados opostos da sepultura, observando a descida da urna de pinho para as entranhas da terra. Os torrões embatiam nas paredes de madeira, e Margaret tinha a impressão de que o faziam ao ritmo de: “Rameira!.. Rameira!…”

Dirigiu a vista para o outro lado da cova e o olhar cruzou-se com o de Jamie, frio e impessoal, como perante uma desconhecida. “Estás aí, impávido, e és tão culpado como eu. Matámo-lo ambos. Sou tua mulher, aos olhos de Deus, mas isso não impede que sejamos comparsas no mal.” Tornou a baixar os olhos para a sepultura descoberta e não os desviou até que a derradeira pazada de terra cobriu a urna de pinho.

- Repousa - murmurou. - Repousa…

Quando voltou a erguer a cabeça, Jamie desaparecera.

Havia duas construções de madeira em Klipdrift que funcionavam como hospital, mas as condições sanitárias eram de

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tal ordem que o número de enfermos que morriam excedia de longe o dos que recuperavam a saúde. Quando se aproximou a data prevista para o parto, Mrs.

Owens mandou chamar uma parteira de cor, que recomendou:

- Procure não se descontrolar, que a Natureza exercerá a sua acção.

A primeira contracção de dor fez acudir um sorriso aos lábios de Margaret.

Preparava-se para trazer um filho ao mundo e teria um nome. Envidaria todos os esforços para que Jamie McGregor o reconhecesse. Não sofreria pelos erros dos pais.

O parto prolongou-se por várias horas e, quando alguma hóspede da pensão se aproximava do quarto, Hannah, a parteira, apressava-se a afastá-la.

- É um acontecimento pessoal - explicou a Margaret. - Entre você, Deus e o demónio que a envolveu nestes apuros.

- Vai ser um rapaz? - sussurrou a rapariga, entre exclamações abafadas.

- Digo-lhe depois de examinar a “canalização” do rebento - redarguiu a negra, limpando-lhe a transpiração da fronte. - Agora, faça força para o expelir… Mais!

As contracções começaram a tornar-se mais frequentes e a dor parecia empenhada em dilacerar o corpo da parturiente, que pensava, alarmada: “Alguma coisa está a correr mal!” - Não pare! - gritou Hannah. De repente, deixou transparecer uma ponta de alarme. - Está torcido! Não consigo fazê-lo sair!

Por entre uma espécie de neblina avermelhada, Margaret viu-a inclinar-se para a frente e aproximar as mãos do útero, até que a dor se extinguiu e surgiu a sensação de que flutuava no espaço, onde se via, à distância, Jamie, que lhe acenava. “Estou aqui, querida. Vais dar-me um filho estupendo”. Voltava para ela, pelo que já não o odiava. No fundo, o ódio nunca fora real. Bruscamente, alguém disse “Está quase”, registou-se uma espécie de rasgão no seu íntimo e a dor obrigou-a a soltar um grito.

- Pronto! - exclamou Hannah. - Já está a sair bem. No segundo imediato, Margaret notou o deslizar de um objecto húmido entre as pernas e um grito de triunfo da parteira.

- Bem-vindo a Klipdrift - proferiu esta última, erguendo o pequeno corpo nas mãos.

- É um rapaz.

Recebeu o nome de Jamie.

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Ela sabia que a notícia do nascimento da criança não tardaria a chegar aos ouvidos de Jamie, e aguardava com ansiedade que este a procurasse ou mandasse chamar. No entanto, após várias semanas sem que tal acontecesse, decidiu mandá-lo prevenir.

Quando o mensageiro regressou, interrogou-o impacientemente:

- Viste Mister McGregor?

- Sim.

- E transmitiste-lhe o recado?

- Sim.

- Que respondeu?

O rapaz hesitou, embaraçado, antes de informar:

- Disse que não tinha nenhum filho.

Ela fechou-se no quarto todo aquele dia e aquela noite, recusando-se a sair.

- Teu pai está confuso neste momento, Jamie. Pensa que a tua mãe lhe armou uma cilada. Mas és filho dele, e quando te vir, há-de levar-nos para vivermos em sua casa e amar-nos muito. Verás, meu querido. Tudo se comporá.

De manhã, quando Mrs. Owens bateu à porta, Margaret abriu-a, parecendo singularmente calma.

- Como estás, Maggie?

- Bem, obrigada - murmurou, enquanto vestia o bebé. - Vou levar Jamie a passear no seu carrinho.

Este, oferecido por Madame Agnes e as suas pequenas, era, sem dúvida, confortável, e nem faltava o pára-sol de protecção contra os implacáveis raios solares.

Quando o impelia ao longo dos estreitos passeios de Loop Street, um ou outro homem detinha-se para sorrir à criança, mas as mulheres evitavam-na, chegando a cruzar a rua para não encararem com Margaret.