Todavia, ela não se preocupava com isso, pois só lhe interessava uma pessoa.
Sempre que fazia bom tempo, saía com o filho. Transcorrida uma semana sem que avistasse Jamie, concluiu que ele se lhe esquivava deliberadamente. “Pois bem. Já que não vem ver o filho, procurá-lo-emos”, acabou por decidir.
Na manhã seguinte, anunciou a Mrs. Owens:
- Vou efectuar uma pequena viagem. Espero regressar dentro de uma semana.
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- O bebé ainda é muito pequeno para viajar, Maggie.
- Ele fica na cidade.
- Aqui connosco?
- Não.
Jamie McGregor mandara construir a sua moradia numa pequena elevação sobranceira a Klipdrift. Tratava-se de um bangaló com duas alas espaçosas anexas ao corpo principal, com o qual comunicavam por meio de amplas varandas. O conjunto era rodeado por relvados verdejantes sulcados de árvores e um jardim em que predominavam as rosas. Nas traseiras, havia o alpendre da carruagem e alojamentos separados para o pessoal. As actividades domésticas achavam-se a cargo de Eugenia Talley, uma impressionante viúva de meia-idade, cujos seis filhos estudavam em Inglaterra.
Margaret apresentou-se na moradia, com o filho nos braços, às dez horas da manhã, altura do dia em que sabia que Jamie se encontrava no escritório. A governanta abriu a porta e arregalou os olhos de surpresa, incrementada pelo facto de estar ao corrente de quem se tratava, como acontecia com toda a gente num raio de uma centena de quilómetros.
- Lamento, mas Mister McGregor não está - declarou, fazendo menção de fechar.
- Não vim para o ver - replicou Margaret, opondo-se. - Trago-lhe o filho.
- Desconheço tudo o que se refere ao assunto. Aconselho-a…
- Vou ausentar-me por uma semana. Nessa altura, levá-lo-ei - estendeu o bebé à mulher. - Chama-se Jamie.
- Não o pode deixar aqui! - o rosto da governanta assumiu uma expressão horrorizada. - Mister McGregor despedia-me…
- Pode optar - interrompeu Margaret. - Ou o aceita o u deixo-o junto da porta.
Duvido que ele gostasse da segunda alternativa.
E, sem mais uma palavra, depositou o pequeno fardo nos braços da outra e afastou-se.
- Espere! Não pode!… Venha cá!…
Todavia, nem sequer se voltou, enquanto a governanta começava a traçar conjecturas crescentemente alarmantes acerca da reacção de Jamie McGregor quando chegasse.
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Na realidade, nunca o vira em semelhante estado.
- Como pôde ser tão estúpida? - vociferou ele, ao inteirar-se da situação. - Bastava bater-lhe com a porta na cara!
- Ela não me deu oportunidade de o fazer, Mister McGregor.
- Não quero o seu filho em minha casa! - Jamie começou a percorrer a sala em agitado vaivém. Por fim, estacou diante da apavorada mulher e advertiu: - Merecia que a despedisse.
- Prometeu vir buscá-lo dentro de uma semana.
- Nem que fosse dentro de cinco minutos! Livre-se dessa criança imediatamente!
- Como sugere que o faça? - inquiriu ela, com um assomo de dignidade.
- Há-de haver algum lugar em que o possa deixar, na cidade.
- Onde?
- Sei lá!
Baixou os olhos para o bebé que segurava nos braços e principiara a chorar em resultado dos gritos de Jamie.
- Não há orfanatos em Klipdrift - anunciou, embalando-o, sem contudo lograr pôr termo ao choro. - Alguém tem de tomar conta dele.
- Maldição! Está bem. Já que o aceitou tão generosamente, confio-lho.
- Perfeitamente.
- E faça-o calar. Entendamo -nos bem numa coisa, Mis-tress Talley. Não o quero ver nem ouvir. E quando a mãe o vier buscar, não a receberei.
A governanta aquiesceu com uma inclinação de cabeça e retirou-se, enquanto ele se refugiava na biblioteca, para saborear um charuto e um cálice de brande. “Que estúpida! Pensa que o facto de ver o bebé me enternece o coração e obriga a procurá-la para lhe confessar o meu amor e propor casamento”. Na realidade, nem se preocupara em o contemplar. Não queria nada de comum com a criança.
Não a concebera por amor ou mesmo desejo. Tratava-se do produto de uma das armas que empregara na sua vingança. Jamais esqueceria a expressão de Salomon van der Merwe, quando lhe anunciara que Margaret esta grávida. Fora o início de uma série de acontecimentos que terminara com a descida da urna de pinho
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na sepultura. Tinha de procurar Banda para lhe comunicar que a sua missão chegara ao fim.
Assolava-o, porém, uma sensação de vazio. “Tenho de fixar novos objectivos.” Já se podia considerar abastado para além das aspirações mais ambiciosas.
Adquirira milhares de hectares de terreno mineral, esperançado em encontrar novas jazidas de diamantes, e acabara por possuir ouro, platina e meia dúzia de outros metais raros. O seu banco detinha hipotecas de grande parte das propriedades de Klipdrift e as terras que lhe pertenciam estendiam-se da Namíbia à Cidade do Cabo. Isso infundia-lhe satisfação, mas não bastava. Convidara os pais a reunirem -se-lhe, mas eles não desejavam abandonar a Escócia. Os irmãos e a irmã tinham casado. Enviava quantidades substanciais à família, o que lhe proporcionava prazer; contudo, a sua vida constituía uma sucessão de dias monótonos e insípidos. Alguns anos antes, consistira em altos e baixos excitantes.
Sentira-se vivo. Vivia plenamente, quando ele e Banda se aventuravam na jangada através dos recifes do Sperrgebiet ou rastejavam sobre as minas disseminadas no areal do deserto. Agora, afigurava-se-lhe que não experimentava as emoções da vida desde longa data, embora se recusasse a admitir a si próprio que se sentia só.
Voltou a estender a mão para a garrafa e descobriu que estava vazia. Ou bebia mais do que pensava ou a governanta negligenciava as suas obrigações. Por fim, levantou-se e diri-giu-se à copa, onde se guardavam as bebidas. No momento em que se preparava para pegar numa garrafa, detectou o choro do recém-nascido.
“Mrs. Talley devia conservá -lo no seu quarto, perto da cozi nha.” Tudo indicava que cumprira as suas instruções à letra, pois ele não vira nem ouvira a criança nos dois dias transcorridos desde que se lhe introduzira em casa. Naquele instante, detectou a voz da governanta no tom característico das mulheres para se dirigirem aos bebés.
- És muito bonitinho, sabias - articulava ela. - Podes mesmo considerar-te um anjo.
Jamie aproximou-se da porta aberta do quarto e espreitou. A mulher conseguira obter um berço algures, no qual a criança se achava deitada, rodeando um dos dedos dela com a pequena mão.
- Tens muita força, Jamie. Hás-de ser um… - Mrs. Talley
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interrompeu-se, surpreendida, ao aperceber-se da presença do patrão à entrada. - Estava… Desejava alguma coisa, Mister McGrcgor?
- Não - ele aproximou-se do berço. - Senti curiosidade em ver o que se passava aqui.
E contemplou o filho pela primeira vez. Era maior do que supusera e bem constituído, além do que, pormenor embaraçoso, dir-se-ia sorrir-lhe.
- Queira desculpar, Mister McGregor, mas é um bebé encantador. E saudável.
Estenda-lhe o dedo e verá que o segura com força.
No entanto, ele rodou nos calcanhares e afastou-se.
Jamie McGregor dispunha de mais de meia centena de empregados dispersos pelas suas várias empresas e não havia um único, independentemente do cargo que desempenhava, que ignorasse como a Kruger-Brent Ltd. adquirira o nome.
Ele admitira recentemente David Blackwell, filho de dezasseis anos de um dos capatazes, um americano do Orégão que partira para a África do Sul à procura de diamantes. Quando o dinheiro se lhe esgotara, Jamie contratara-o para se ocupar de uma das minas. O filho trabalhou na companhia em regime eventual, durante um Verão, e ele considerou-o tão competente que lhe ofereceu um lugar permanente. O jovem David Blackwell era i nteligente e atraente e tinha iniciativa.
Além disso, Jamie sabia que podia guardar um segredo, motivo pelo qual o escolheu para aquela missão especial.