- Precisava que fosse à pensão de Mistress Owens, onde vive uma mulher chamada Margaret van der Merwe.
- Muito bem.
Se o rapaz estava familiarizado com o seu nome ou suas circunstâncias, não o deixou transparecer.
- O recado destina -se-lhe pessoalmente. Portanto, não o transmita a intermediários. Diga-lhe que venha buscar o filho hoje mesmo.
David Blackwell reapareceu meia hora mais tarde, para comunicar.
- Não me foi possível cumprir as suas instruções.
- Porquê? - inquiriu Jamie, pondo-se de pé abruptamente. - Eram de uma simplicidade quase infantil.
- Miss van der Merwe não se encontrava lá.
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- Então, localize-a.
- Partiu de Klipdrift há dois dias e só deve regressar passada uma semana. Se deseja que efectue diligências mais profundas…
- Não é necessário - era o que menos convinha a Jamie. - Está bem. Pode retirarse.
“Diabos levem a mulher! Quando voltar, terá uma surpresa à sua espera. Há-de ser-lhe devolvido o filho!”
Naquela noite, Jamie jantou só, em casa, e tomava o brande na biblioteca quando a governanta o procurou para discutir um problema doméstico. Todavia, a meio de uma frase, fez uma pausa para escutar e disse.
- Queira desculpar, Mister McGregor, mas Jamie está a chorar - e afastou-se apressadamente.
Ele pousou a garrafa de brande com um gesto brusco. “Raio de bebé! E ela teve o arrojo de lhe chamar Jamie! Não parece um Jamie. Na realidade, não parece coisa nenhuma.”
Mrs. Talley reapareceu transcorridos dez minutos, e tratou de a advertir:
- Julgo conveniente recordar-lhe que trabalha para mim e não para aquele bastardo. Ficamos entendidos?
- Decerto, Mister McGregor.
- Quanto mais depressa o levarem desta casa, melhor para todos.
- Muito bem - articulou ela, comprimindo os lábios. - Deseja mais alguma coisa?
- De momento, não - mas vendo que a mulher se preparava para sair, Jamie acrescentou: - A propósito…
- Sim?
- Disse que ele estava a chorar. Adoeceu?
- Não. Precisava que lhe mudassem as fraldas.
- Ah! - tossiu, com uma ponta de embaraço. - Nada mais, Mistress Talley.
Todavia, o embaraço transformar-se-ia em fúria se soubesse que o pessoal trocava impressões com insistência a respeito dele e do seu filho. Concordavam unanimemente que o patrão não procedia bem, mas reconheciam que a simples alusão ao facto na sua presença representaria o despedimento imediato, pois Jamie McGregor não aceitava com simpatia os conselhos dos outros.
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Na tarde seguinte, teve uma reunião de negócios que se prolongou pela noite, Efectuara um investimento numa nova via-férrea. Embora de pequena envergadura - das minas do deserto da Namíbia a De Aar, estabelecendo ligação com a linha Cidade do Cabo-Kimbcrley -, passaria a ser muito menos dispendioso transportar os seus diamantes e o ouro para o porto. O primeiro caminho -de-ferro da Cidade do Cabo fora inaugurado em 1860, de Dunbar ao Promontório, e desde então haviam surgido novas linhas da Cidade do Cabo para Wellington. A viaférrea constituiria o sistema circulatório de aço que permitiria o movimento de mercadorias e pessoas através do coração da África do Sul, e Jamie tencionava tomar parte activa no progresso. Isso representava apenas o começo do seu plano. “Depois, navios. A minha frota mercante levará os minerais através do oceano!”
Chegou a casa depois da meia-noite e foi-se deitar imediatamente. Começava a mergulhar no sono, quando julgou ouvir um grito. Soergueu-se de modo abrupto e escutou atentamente, mas o som não se repetiu. Teria sido o bebé? A queda do berço provocaria algo do género. Jamie sabia que a governanta não acordava com facilidade, e seria lamentável que acontecesse alguma coisa à criança durante a permanência em sua casa. Poderiam mesmo responsabilizá-lo. “Diabos levem a mulher!”
Com uma imprecação entre dentes, enfiou o roupão e os chinelos e atravessou a casa em direcção ao quarto de Mrs. Talley. Uma vez junto da porta fechada, apurou os ouvidos, sem resultado. Por último, estendeu a mão para o puxador e fê-lo girar. A governanta dormia profundamente, quase invisível sob os cobertores, roncando, pelo que ele se acercou do berço. O bébé encontrava -se deitado de costas, com os olhos bem abertos. Na verdade, havia certa semelhança! A boca e o queixo eram como os dele. Ao mesmo tempo, agitava as mãos no ar e parecia sorrir a Jamie. “Poucos bebés estariam tão sossegados. Sim, é mesmo um McGregor!”
Com uma ponta de hesitação, Jamie estendeu um dedo e o bebé apressou-se a segurá-lo com ambas as mãos. Era forte como um touro! Naquele instante, o rosto da criança assumiu uma expressão tensa e ele notou um odor acre.
- Mistress Talley!
- Que… que foi? - balbuciou ela, alarmada, apoiando-se no cotovelo.
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- O bébé necessita de atenção. Tenho de ser eu a fazer tudo, nesta casa?
E Jamie McGregor afastou-se com passos firmes.
- Percebe alguma coisa de bebés, David?
- Em que sentido? - perguntou David Blackwell.
- Com o que gostam de brincar e coisas do género.
- Julgo que gostam de guizos.
- Compre meia dúzia.
- Muito bem.
Nada de perguntas desnecessárias. Jamie gostava de semelhantes atitudes e estava convencido de que o jovem americano tinha um futuro prometedor à sua frente.
Naquela noite, quando Jamie chegou a casa, Mrs. Talley apressou-se a procurálo.
- Queria pedir desculpa por aquilo de ontem, Mister McGregor. Não compreendo como não acordei. O bebé deve ter gritado horrivelmente para que o ouvisse do seu quarto.
- Não se preocupe com isso - replicou Jamie, generosamente. - O essencial é que um de nós se apercebeu - estendeu o embrulho à governanta. - São guizos para ele se entreter. Não se deve divertir muito, prisioneiro no berço todo o dia.
- Não está prisioneiro. Levo -o a sair.
- Onde?
- Ao jardim. - Enrugou a fronte por um momento e observou:
- Ontem à noite, não me pareceu com bom aspecto. Não covinha nada que adoecesse antes de a mãe o vir buscar.
- Decerto que não.
- Talvez não fosse má ideia eu dar-lhe outra olhadela.
- Quer que o traga?
- Se não se importa, Mistress Talley!
A mulher afastou-se, para reaparecer decorridos uns minutos, com o bébé nos braços.
- Não lhe noto nada de anormal.
- Bem, é possível que me enganasse. Dê-mo cá. Jamie pegou no filho pela primeira vez e a sensação que o invadiu colheu-o totalmente despreve nido. Dir-seia que aguardava aquele momento desde longa data, sem se aperceber
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conscientemente do facto. Era carne da sua carne que tinha nos braços, o seu filho, Jamie McGregor, Jr. Para que servia construir um império, uma dinastia, possuir diamantes, ouro e caminhos-de-ferro, se não existia alguém a quem transmiti-los? “Tenho sido um insensato!” Só agora se inteirava daquilo que lhe faltava. O ódio cegara-o ao ponto de ignorar os verdadeiros valores da vida. Ao contemplar o minúsculo rosto e as mãos delicadas que seguravam um guizo azul, sentiu dissipar-se uma dureza que até então se lhe alojara no âmago da alma.
- Leve o berço de Jamie para o meu quarto, Mistress Talley.
Três dias mais tarde, quando Margaret se apresentou à entrada da moradia de Jamie, a governanta anunciou:
- Mister McGregor encontra -se no escritório da firma, mas pediu-me que o mandasse chamar quando viesse reclamar o bebé. Deseja falar-lhe.
A rapariga aguardou na sala, com o pequeno Jamie nos braços, do qual sentira saudades quase excruciantes. Durante aqueles oito dias, por várias vezes estivera prestes a perder a coragem e a regressar a Klipdrift, receando que tivesse acontecido alguma coisa ao filho, vítima de uma doença grave ou acidente. Não obstante, conseguira resistir e o seu plano resultara. Jamie desejava falar-lhe!