Todavia, quando ele saía, recolhia ao quarto alagada em transpiração, furiosa consigo mesma. Que acontecera ao seu amor-próprio? No fundo, sabia que continuava a amar Jamie. “Amá-lo-ei sempre, e que Deus me ajude.”
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Jamie encontrava-se na Cidade do Cabo em visita de negócios, quando, ao sair do Royal Hotel, um cocheiro negro ofereceu:
- Carruagem, senhor?
- Não, obrigado. Irei a pé.
- Banda pensava que aceitaria o convite.
- Banda? - ecoou Jamie, detendo-se e fitando o homem com intensidade.
- Exactamente, Mister McGregor.
Decidiu subir para a carruagem, que o cocheiro pôs em movimento com prontidão, e reclinou-se no assento, evocando Banda, a sua coragem e amizade. Tentara localizá -lo por várias vezes nos últimos dois anos, sem resultado, e agora acudia ao seu encontro.
O negro conduziu a viatura na direcção das docas, e Jamie compreendeu imediatamente aonde se dirigiam. Quinze minutos depois, detiveram-se diante de um armazém deserto, onde ele e Banda outrora haviam planeado a sua a ventura na Namíbia. “Éramos uns jovens intrépidos”, reconheceu, com uma ponta de saudade, enquanto se apeava e aproximava da entrada. Banda encontrava-se à sua espera. Parecia exactamente o mesmo, com a diferença de que se achava vestido de forma irrepreensível.
Conservaram-se imóveis por um momento, sorrindo, até que se abraçaram.
- Tens um ar próspero - observou Jamie.
- A vida não me tem corrido mal - admitiu o outro. - Comprei aquela herdade que tinha mencionado, casei, nasceram-nos dois filhos e cultivo trigo e avestruzes.
- Avestruzes?
- As penas dão muito dinheiro.
- Efectuei numerosas diligências para te encontrar.
- Tenho estado muito ocupado - o negro assumiu um tom confidencial. - Queria preveni-lo de uma coisa. Vai enfrentar problemas.
- De que género?
- O capataz do campo da Namíbia, Hans Zimmerman, não é boa rês. Os operários odeiam-no e falam em abandonar o trabalho. Se o fizerem, os guardas tentarão impedi-los e haverá tumultos - Banda fez uma pausa, sem desviar os olhos do interlocutor. - Lembra-se de me referir a John Tengo Javabu?
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- Sim, um dirigente político. Li algumas coisas a seu respeito. Parece que anda a levantar uma donderstorm.
- Sou um dos seus seguidores.
- Compreendo - Jamie inclinou a cabeça e prometeu: - Verei o que é possível fazer.
- Óptimo. Tornou-se um homem poderoso. Congratulo-me com isso.
- Obrigado, Banda.
- E tem um belo rapaz.
- Como sabe? - inquiriu, surpreendido.
- Gosto de estar ao corrente da vida dos meus amigos - o negro estendeu a mão. - Tenho de comparecer a uma reunião. Direi aos meus correligionários que a situação será rectificada na Namíbia.
- Sim, providenciarei nesse sentido sem demora - os dois homens despediram-se com cordialidade. - Quando voltarei a ver-te?
- Irei aparecendo. Não se livra de mim com facilidade - declarou Banda, sorrindo.
Quando regressou a Klipdrift, Jamie mandou chamar David Blackwell e perguntou:
- Tem havido problemas no campo da Namíbia?
- Não, Mister McGregor. No entanto, constou-me que talvez haja em breve.
- O capataz de lá é Hans Zimmerman. Averigue se maltrata os operários e, em caso afirmativo, ponha cobro a isso. Trate do assunto pessoalmente.
- Partirei de manhã.
Quando chegou ao campo de diamantes da Namíbia, David dedicou duas horas a troca de impressões com os guardas e operários e o que apurou enfureceu-o. Por fim, inteirado do que lhe interessava, procurou Hans Zimmerman.
O capataz era um indivíduo gigantesco que decerto não pesava menos de cento e vinte quilos, com expressão porcina e olhar congestionado. Por o utro lado, tratava - se de um dos funcionários mais eficientes da Kruger-Brent, Ltd.
Quando David entrou no seu gabinete, Zimmerman sentava -se atrás da secretária, que parecia minúscula em comparação com o seu arcaboiço.
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- Tenho muito gosto em vê-lo, Mister Blackwell. Devia ter-me prevenido da sua vinda - observou, embora o recém-chegado estivesse convencido de que o haviam prevenido. - Uísque?
- Não, obrigado.
- Em que lhe posso ser útil? - o capataz reclinou-se na cadeira rotativa. - Não extraímos diamantes em quantidade suficiente para satisfazer o patrão? - ninguém ignorava que a produção do campo da Namíbia era excelente. - Nenhum dos meus colegas obtém resultados tão avultados dos seus cafres.
- Recebemos queixas acerca das condições que vigoram aqui.
- Queixas de que espécie? - a expressão de Zimmerman toldou-se.
- O pessoal é maltratado e…
- São cafres! - pôs-se de pé de um salto, com agilidade surpreendente. - Vocês passam a vida a polir os fundos das cadeiras com o rabo e…
- Escute - atalhou David. - Não há…
- Escute você! Produzo mais diamantes que ninguém, e por uma razão de peso.
Insuflo o temor a Deus nesses bastardos.
- Nas outras minas, pagamos cinquenta e nove xelins e alimentação, enquanto você lhes dá apenas cinquenta.
- Critica-me porque reduzo as despesas? A única coisa que conta é o lucro.
- Jamie McGregor não concorda. Aumente os salários.
- Como queira - Zimmerman assumiu uma expressão compungida. - O dinheiro é dele.
- Ouvi dizer que o chicote desenvolve grande actividade.
- As chicotadas não lhes doem. Têm a pele muito dura. Só servem para os assustar.
- Nesse caso, já matou vários de susto.
- Há muitos mais donde estes vieram - alegou, com um encolher de ombros.
“É um animal sanguinário e perigoso”, reflectiu David, que cravou o olhar no gigante e advertiu:
- Se houver mais problemas do género, será substituído. Habitue-se a tratar os seus homens como seres humanos. Os castigos corporais devem ser suspensos imediatamente.
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Inspeccionei os alojamentos e c onsidero-os autênticas pocilgas. Mande limpá-los.
- Mais alguma coisa? - articulou o capataz, esforçando-se por dominar a cólera.
- Sim. Voltarei dentro de três meses. Se o que então vir não me agradar, terá de procurar trabalho noutra companhia. Bom dia - e, rodando nos calcanhares, David encaminhou-se para a porta.
Hans Zimmerman conservou-se imóvel por vários minutos, assolado por fúria quase indomável. Os imbecis não passam de uitlanders. Ele era bóer, à semelhança do pai. A terra pertencia-lhes, e Deus colocara os negros nela para os servir. Se tivesse em mente que fossem tratados como seres humanos, não tornaria a sua pele escura. Jamie McGregor não compreendia isso. Todavia, que se podia esperar de um uitlander, um amigo dos nativos? O capataz reconheceu que necessitava de usar de maior prudência, no futuro. Não obstante, mostrar- Lhes-ia quem mandava na Namíbia.
A Kruger-Brent, Ltd., expandia-se e Jamie McGregor era forçado a ausentar-se com frequência. Entretanto, adquirira uma fábrica de papel no Canadá e um estaleiro na Austrália. Quando se encontrava em casa, passava todo o tempo com o filho, que cada vez se parecia mais com ele. Jamie sentia um orgulho desmedido e desejava levar a criança nas suas longas viagens, mas Margaret opunha-se.
- É muito pequeno para viajar. Quando for mais crescido, poderá acompanhar-te.
Quase sem que ele se desse conta, o filho completou o primeiro ano de vida e depois o segundo, o que o assombrava pela rapidez com que o tempo se escoava. Decorria então o ano de 1887.
Contudo, para Margaret, os dias sucediam-se com lentidão. Uma vez por semana, o marido convidava amigos para jantar e ela fazia as honras da casa. Os homens consideravam-na simpática e inteligente e sentiam prazer com as conversas que travavam. Sabia que alguns a achavam particularmente atraente, mas abstinhamse de o deixar transparecer de forma óbvia, porque se tratava da esposa de Jamie McGregor.