Quando se encontravam sós, Margaret perguntava:
- O serão correu-te bem?
E ele respondia invariavelmente:
132
- O melhor possível. Boa noite!
E afastava-se em direcção ao quarto do filho, para se certificar de que estava bem. Momentos depois, ouvia-se a porta da rua bater, indicando que acabava de sair.
Noite após noite, Margaret McGregor permanecia deitada na cama entregue a reflexões sobre a sua vida. Não ignorava que as outras mulheres a invejavam, o que lhe contraía o coração, consciente do pouco que havia para invejar. Vivia uma farsa com um marido que a tratava pior do que a um estranho. Se ao menos reparasse nela! Perguntava a si mesma como reagiria se, uma manhã, ao pequeno-almoço, pegasse no prato que continha flocos de aveia importados especialmente da Escócia e lho vertesse na estúpida cabeça. Não lhe era difícil imaginar a expressão de assombro, o que a obrigou a soltar uma risada em surdina que se converteu num soluço. “Não quero continuar a amá-lo. Não quero.
Hei-de pôr termo a isto, de uma maneira ou de outra, antes que me destrua…”
Em 1890, Klipdrift correspondia às previsões de Jamie. Ao longo dos sete anos da sua permanência, convertera -se numa trepidante boom -town à qual afluíam pesquisadores de todos os recantos do mundo. Era a velha história. Chegavam na diligência, em transportes de carga e mesmo a pé, acompanhados apenas pelos andrajos que vestiam. Necessitavam de comida, equipamento, alojamento e dinheiro para o sustento, e Jamie McGregor estava sempre pronto a auxiliá-los.
Tinha acções de dezenas de minas de diamantes e ouro em laboração, e o seu nome e reputação aumentavam de importância. Certa manhã, recebeu a visita de um advogado da De Beers, gigantesco grupo que controlava as vastas minas de diamantes de Kimberley.
- Em que o posso servir? - perguntou Jamie.
- Incumbiram-me de lhe apresentar uma proposta, Mister McGregor. A De Beers gostava de adquirir a sua companhia. Indique o seu preço.
Era um momento culminante, e ele sorriu antes de replicar:
- Indique você o seu!
David Blackwell tornava -se cada vez mais importante para Jamie, que via no jovem americano a imagem daquilo que ele
133
próprio fora. O rapaz era honesto, inteligente e leal, pelo que o tornou sucessivamente seu secretário, consultor pessoal e, por último, quando David completou vinte e sete anos, director-geral.
Quanto a este, considerava Jamie McGregor um segundo pai. Nos cinco anos de permanência na Kruger-Brent International, habituara-se a admirá-lo mais do que a qualquer outro homem que até então conhecera. Achava-se ao corrente do problema entre Jamie e Margaret e deplorava -o profundamente, porque estimava ambos. “Mas não é de minha conta”, reconhecia. “A minha obrigação consiste em auxiliar Jamie em tudo o que puder.”
Jamie consagrava cada vez mais tempo ao filho, que tinha agora cinco anos, e, na primeira vez que o levou a visitar as minas, o garoto não falou noutra coisa durante uma semana. Ausentavam-se para acampar e dormiam numa tenda sob a estrelas. Jamie estava habituado aos céus da Escócia, onde as estrelas conheciam os seus lugares apropriados no firmamento. Na África do Sul, porém, as constelações eram confusas. Em Janeiro, Canopo brilhava com intensidade sobre a cabeça do observador, ao passo que em Maio era o Cruzeiro do Sul que se situava perto do zénite. Em Junho, estação invernosa no Hemisfério Sul, Escorpião constituía a glória da abóbada celeste. De qualquer modo, agradava-lhe particularmente permanecer deitado na terra morna e contemplar o céu intemporal, com o filho a seu lado, consciente de que faziam parte da mesma eternidade.
Levantavam-se ao romper do dia e caçavam para comer. O pequeno Jamie possuía um pónei, e pai e filho cavalgavam na savana, evitando cautelosamente as covas de dois metros produzidas pelo urso-formigueiro, suficientemente profundas para tragarem um cavalo e respectivo cavaleiro, e as outras de menores dimensões feitas pelo gato dos pântanos.
Com efeito, pairava o perigo na savana. Numa das suas excursões, Jamie e o filho encontravam-se acampados na margem de um rio, quando quase foram mortos por uma manada de springboks. O primeiro sinal de perigo consistiu numa ténue nuvem de poeira no horizonte. As lebres, os chacais e os gatos dos pântanos principiaram a fugir espavoridos e serpentes de largas dimensões surgiam da vegetação em
134
busca de pedras para se ocultarem. Quando voltou a observar o horizonte, Jamie verificou que a nuvem se aproximava.
- Saiamos daqui - indicou ao filho.
- A tenda…
- Não há tempo para a levantar!
Subiram rapidamente para as montadas e seguiram para o topo de uma colina.
Entretanto, ouviam o rugido surdo de cascos e avistaram a linha da frente dos springboks, que se estendia por mais de quatro quilómetros. Eram pelo menos quinhentos mil e arrasavam tudo o que se lhes deparava no caminho. Derrubavam árvores e pulverizavam os arbustos e na esteira da vaga irresistível ficavam os corpos de centenas de pequenos animais. Lebres, serpentes, chacais e galinhasda- índia eram esmagados pelos casos implacáveis. A atmosfera achava-se impregnada de poeira e de um rugido contínuo, e, quando finalmente o pandemónio terminou, Jamie calculou que se prolongara por mais de três horas.
No dia do sexto aniversário do filho, anunciou:
- Para a semana, levo-te à Cidade do Cabo, para que vejas como é uma autêntica cidade.
- A mãe não pode vir connosco? Não gosta de caçar, mas as cidades agradamlhe.
- Tem muito que fazer aqui - disse Jamie, acariciando-Lhe a cabeça. - É uma viagem só para nós, homens, hem?
A criança sentia-se preocupada com o facto de a mãe e o pai parecerem tão distantes um do outro, sobretudo porque não compreendia o motivo.
Viajaram na carruagem ferroviária pessoal de Jamie. Em 1891, o caminho-de-ferro representava o meio de transporte proeminente na África do Sul, pois os comboios eram pouco dispendiosos, cómodos e rápidos. A carruagem que ele mandara construir expressamente para as suas deslocações tinha vinte e cinco metros de comprimento e continha quatro compartimentos luxuosos com acomodações para doze pessoas, uma sala que podia funcionar como gabinete de trabalho, outra para as refeições, um bar e uma cozinha totalmente equipada. Os aposentos dispunham de camas metálicas, candeeiros a gás e janelas panorâmicas.
- Onde estão os outros passageiros? - perguntou o garoto.
135
- Somos só nós - explicou Jamie, rindo. - O comboio é teu, filho.
O pequeno Jamie passou a maior parte da viagem voltado para a janela, de olhos arregalados, maravilhado com a vasta paisagem que deslizava velozmente.
- É a terra de Deus - observou o pai. - Encheu-a de minerais preciosos para nós, enterrados no solo à espera que os recolhamos. Aquilo que encontrámos até agora não passa do começo.
Quando chegaram à Cidade do Cabo, o garoto ficou assombrado com as multidões e os edifíc ios imponentes. Jamie levou-o à McGregor Shipping Line e indicou-lhe meia dúzia de navios que carregavam e descarregavam no porto.
- Pertencem-nos.
No regresso a Klipdrift, o jovem Jamie ansiava por revelar tudo o que vira.
- O pai é dono de toda a cidade! Havias de gostar, mãe. Virás connosco, na próxima vez.
- Com certeza, querido - murmurou Margaret, abraçando-o.
Jamie passava muitas noites fora de casa e ela sabia que visitava o bordel de Madame Agnes. Constara-lhe que adquirira um apartamento para uma das mulheres, a fim de a poder procurar quando entendesse, com maior discrição.
Embora não tivesse a certeza da veracidade da afirmação, Margaret só sabia que lhe apetecia matar a prostituta, se porventura se confirmasse.