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No intuito de manter o equilíbrio mental, ela resolveu interessar-se pela cidade.

Assim, recolheu fundos para a construção de uma igreja e inaugurou uma missão destinada a auxiliar as famílias dos pesquisadores necessitadas. Quando pediu ao marido que utilizasse uma das suas carruagens pessoais para os transportar gratuitamente de regresso à Cidade do Cabo, nos casos em que se lhes esgotava o dinheiro e a esperança, ele protestou:

- Propões que desperdice dinheiro? Que recorram ao mesmo meio de transporte da vinda: a pé.

- Não estão em condições de efectuar grandes caminhadas -

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argumentou Margaret. - E se ficarem, a cidade terá de lhes custear a alimentação e o vestuário.

- Está bem - capitulou ele, finalmente. - Mas é uma ideia insensata.

- Obrigada, Jamie.

Acompanhando-a com a vista enquanto se afastava, não pôde evitar uma ponta de orgulho nela. “Dava uma esposa excelente para alguém…”, cogitou.

A prostituta à qual Jamie montara um apartamento era Mag-gie, a que se sentara ao lado de Margaret, no dia em q ue esta fora convidada por Madame Agnes. Ele considerava irónico o facto de a mulher ter o mesmo nome de sua esposa, sobretudo porque não possuíam qualquer ponto comum. Maggie era uma loura de vinte e um anos, rosto atraente e corpo sensual, que se movimentava na cama com a voracidade e a sofreguidão de uma pantera. Jamie entregara uma quantia substancial a Madame Agnes para que lha dispensasse e a prostituta recebia uma mesada generosa. Por outro lado, ele usava da maior discreção quando a visitava, quase sempre à noite e depois de se certificar de que não o observavam. Na realidade, porém, numerosas pessoas estavam ao corrente da situação, mas abstinham-se de tecer comentários. Tratava-se da cidade de Jamie McGregor e assistia-lhe o direito de proceder como quisesse.

Naquela noite, não experimentava o mínimo prazer. Deslocara-se ao apartamento animado da perspectiva de longas horas inebriantes e deparara -se-lhe Maggie dominada por acentuado mau humor. Encontrou-a estendida na cama ampla, o roupão cor-de-rosa insuficiente para encobrir os recantos sinuosos e excitantes, e foi acolhido pelo desabafo:

- Estou farta de me manter fechada entre estas malditas quatro paredes. Não passo de uma escrava ou prisioneira! Em casa de Madame Agnes, ao menos, divertia-me um pouco. Porque não me levas contigo, nas tuas viagens?

- Já to expliquei. Não posso…

- Tretas! - saltou da cama e postou-se diante dele, numa atitude de desafio. - Levas o teu catraio a toda a parte. Sou menos que ele?

- És - articulou Jamie, em reflexão perigosamente calma, dirigindo-se ao bar e pegando na garrafa de brande para encher o quarto cálice da noite, quantidade muito superior àquela a que se achava habituado.

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- Não significo absolutamente nada para ti! - vociferou ela. - Sou um mero monte de estrume - e inclinou a cabeça para trás, soltando uma risada desagradável. -·· O escocês moralão!

- Vê se te acalmas!

- Estás sempre a criticar-me. Nunca digo nem faço nada acertado. Julgas -te meu pai, porventura?

- Voltas para a casa de Madame Agnes amanhã mesmo - decidiu Jamie, cansado do desafio de palavras. - Vou preveni-la do teu regresso - e, pegando no chapéu, encaminhou-se para a porta.

- Não te livras de mim com essa facilidade, bastardo! - rugiu Maggie, seguindo-o, enfurecida.

- Acabo de o fazer.

Quando se encontrou na rua, ele descobriu que vacilava e sentia o espírito enevoado. Talvez tivesse emborcado mais de quatro brandes. Na verdade, perdera-lhes a conta. Lembrou-se do corpo capitoso de Maggie e experimentou uma erecção.

Uma vez em casa, no momento em que passava diante da porta fechada do quarto de Margaret, lobrigou um clarão amarelado através da frincha inferior. De súbito, imaginou-a deitada, envolta apenas na camisa de dormir. Ou talvez em coisa nenhuma. Recordou-se de como o seu corpo apetitoso se contorcera debaixo dele entre o arvoredo da margem do rio Orange. Por fim, impelido pelos vapores do álcool, abriu a porta e entrou.

Margaret estava de facto deitada, lendo ao clarão de um candeeiro de petróleo, e ergueu os olhos com uma e xpressão de surpresa.

- Há alguma novidade?

- Já um homem não pode visitar a esposa sem provocar estranheza? - retorquiu ele em voz arrastada.

Ela usava um roupão transparente, e Jamie descortinou os seios túrgidos aparentemente empenhados em perfurar o tecido. “Tem um corpo admirável”, admitiu. E principiou a despir-se.

- Que fazes? - balbuciou Margaret, saindo da cama de olhar arregalado.

Sem responder, ele obrigou-a a deitar-se de novo e estendeu-se a seu lado, completamente desnudo.

- Como te desejo, Maggie!

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Na confusão de ébrio, não estava muito seguro de qual das duas Maggies desejava. Travou-se breve luta, cuja vitória não oferecia dúvidas desde o início.

Finalmente, já rendida, Margaret puxou-o para si e sussurrou:

- Oh, Jamie querido! Necessito tanto de ti…

Por seu turno, ele reflectia: “Não te devia ter tratado tão mal. De manhã, dir-te-ei que não voltas para casa da Madame Agnes…”

Quando acordou, Margaret descobriu que estava só. No entanto, ainda sentia o corpo vigoroso do marido no seu íntimo e evocava as suas palavras: “Como te desejo, Maggie!” Afinal, não se equivocara desde o princípio. Ele amava-a.

Merecera a pena esperar, ao longo de todos aqueles anos de dor, solidão e humilhação.

Permaneceu o resto do dia num estado de êxtase. Tomou banho, lavou o cabelo e mudou várias vezes de ideias acerca do vestido que mais agradaria a Jamie.

Dispensou a cozinheira, a fim de poder preparar as iguarias preferidas do marido.

Por último, pôs a mesa para o jantar com requintes extremos, empenhada em que fosse um serão memorável.

No entanto, Jamie não foi comer a casa, nem apareceu em toda a noite. Margaret esperou-o na biblioteca até às três horas da madrugada e acabou por se ir deitar.

Quando ele chegou, na noite seguinte, cumprimentou-a polidamente e dirigiu-se ao quarto do filho. Ela enrugou a fronte, perplexa, e em seguida voltou-se para o espelho, o qual lhe revelou que nunca estivera tão atraente. Todavia, no momento em que se aproximou para observar os olhos, não os reconheceu. Eram os de uma estranha.

Capítulo X - Tenho uma notícia maravilhosa para si, Mistress McGregor - declarou o Dr.

Tecger, com um sorriso. - Vai ter um filho.

Margaret sentiu o choque da revelação, sem saber se devia rir ou chorar. “Uma notícia maravilhosa?” Era impensável contribuir com mais um filho num matrimónio sem amor.

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A humilhação afigurava -se-lhe insustentável. Impunha-se que encontrasse uma saída e, enquanto pensava nisso, acudiu-lhe uma vaga de náusea que a inundou de transpiração.

- A indisposição matinal? - observou o médico.

- Acho que sim.

- Tome estes comprimidos - recomendou, entregando-Lhe uma pequena embalagem. - Atenuam um pouco o enjoo. Está em condição excelente, Mistress McGregor. Não tem nada que se preocupar. Vá para casa e comunique a boa nova ao seu marido.

- Tem razão. É o que vou fazer.

Encontravam-se à mesa do jantar, quando resolveu anunciar:

- Fui hoje ao médico. Vou ter um filho.

Sem proferir palavra, Jamie atirou o guardanapo para o lado, levantou-se e abandonou a sala. Foi naquele momento que Margaret compreendeu que o podia odiar tão profundamente como o amava.

Foi uma gravidez difícil e ela passava grande parte do tempo na cama, fatigada e fraca. Permanecia deitada, hora após hora, imaginando Jamie a seus pés, empenhado em que lhe perdoasse, e voltando a praticar o amor furiosamente.

Mas não passava de fantasias. A realidade consistia em que se encontrava encurralada. Não tinha para onde ir e, de qualquer modo, ele nunca permitiria que levasse o filho consigo.