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David aguardava-o na biblioteca e não perdeu tempo com rodeios:

- Sua filha foi raptada, Mister McGregor.

Jamie olhou-o em silêncio, o rosto dominado por profunda palidez. Por último, rodou nos calcanhares e afastou-se.

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Havia quarenta e oito horas que não se deitava, pelo que se afundou na cama e adormeceu quase imediatamente. Encontrava -se estendido à sombra de uma gigantesca árvore frondosa e, ao longe, através da savana, um leão movia-se na sua direcção, enquanto o filho o sacudia. “Acorda, pai. Vem aí um leão!” O animal movia-se agora mais rapidamente e o garoto sacudia-o com mais força. “Acorda!”

Jamie abriu os olhos e viu Banda na sua frente. Preparava-se para falar, mas o negro cobriu-lhe a boca com a mão.

- Nem uma palavra! - murmurou, permitindo que se soerguesse.

- Onde está o meu filho?

- Morreu - Banda fez uma pausa, enquanto Jamie via o quarto oscilar à sua volta. - Lastimo profundamente, mas nã o cheguei a tempo de o evitar. Os brancos derramaram sangue dos bantos, que resolveram vingar-se.

- Meu Deus! - Jamie ocultou o rosto nas mãos. - Que lhe fizeram?

- Abandonaram-no no deserto - Banda exprimia-se numa inflexão amargurada. - Encontrei o corpo e sepultei-o.

- Não é possível!

- Tentei salvá-lo.

Jamie inclinou a cabeça com lentidão, aceitando a realidade pungente.

- E minha filha? - inquiriu em voz átona.

- Levei-a antes que eles viessem buscá-la. Agora, encontra -se de novo no quarto, adormecida. Não corre perigo, se você cumprir o que prometeu.

- Cumprirei - afirmou, o rosto convertido numa máscara de ódio. - Mas quero apanhar os homens que mataram meu filho, para que expiem o crime.

- Nesse caso, terá de mandar executar toda a minha tribo - declarou Banda, com uma expressão impenetrável.

Não passava de um pesadelo, mas ela mantinha os olhos fechados com firmeza, pois sabia que se os abrisse tudo se tornaria real e os filhos estariam mortos. Por conseguinte, entregava -se a um jogo. Conservaria as pálpebras cerradas, até que sentisse a mão do pequeno Jamie pousada na sua e o ouvisse dizer:

- Estamos aqui, mãe. Não corremos perigo.

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Havia três dias que se achava na cama, recusando falar ou ver pessoa alguma. O Dr. Teeger visitara -a várias vezes, sem que Margaret se apercebesse. A meio da noite, ouviu um ruído no quarto do filho e apurou os ouvidos. Pouco depois, registou-se novo som. O pequeno Jamie voltara!

Levantou-se com prontidão e atravessou apressadamente o corredor em direcção ao quarto do garoto. Através da porta, apercebeu-se de gemidos abafados, e, alarmada, fez rodar o puxador.

O marido encontrava-se estendido no chão, o rosto e o corpo contraídos, com um dos olhos fechado, ao passo que o outro a fitava grotescamente. Tentava falar, mas as palavras brotavam como sons animais incoerentes.

- Oh, Jamie… Jamie! - balbuciou Margaret.

- As notícias são más, Mistress McGregor - declarou o Dr. Teeger. - Seu marido sofreu um colapso grave. Tem cinquenta por cento de probabilidades de sobreviver, mas se tal acontecer não passará de um vegetal. Tomarei as providências necessárias para que dê entrada numa clínica particular, onde receberá a assistência apropriada.

- Não!

- Não, quê? - articulou, fitando Margaret com perplexidade.

- Quero-o aqui comigo.

Reflectiu por um momento e aquiesceu.

- Muito bem. Procurarei uma enfermeira para…

- Não é necessário. Eu própria cuidarei dele.

- Desconhece a situação, Mistress McGregor. Seu marido deixou de ser uma pessoa em funcionamento normal. Está completamente paralisado e manter-se-á assim para sempre.

- Cuidarei dele - reiterou Margaret, com obstinação. Jamie pertencia-lhe finalmente.

Capítulo décimo primeiro Jamie McGregor viveu exactamente mais um ano desde o dia em que sofreu o colapso, e foi o período mais feliz da vida de Margaret. O marido achava -se totalmente incapacitado,

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sem poder mover-se ou falar. Ela preocupava -se com todas as suas necessidades e conservava-se a seu lado, dia e noite. Durante o dia, conduzia-o à sala de costura numa cadeira de rodas e não parava de lhe falar, ao mesmo tempo que se entretinha fazendo malha. Abordava todos os pequenos problemas domésticos pelos quais ele nunca se interessara por falta de tempo e revelava-lhe o desenvolvimento da pequena Kate. À noite, transferia o corpo esquelético de Jamie para o quarto e depositava-o suavemente na cama, a seu lado.

Entretanto, David Blackwell dirigia a Kruger-Brent, Ltd., e, de vez em quando, procurava Margaret para que assinasse documentos. Nessas ocasiões, experimentava uma sensação pungente ao observar a incapacidade física e mental de Jamie, ao qual considerava que devia tudo o que era.

- Escolheste bem, querido - comentou ela ao marido. - David é um colaborador excepcional - pousou o trabalho e sorriu. - Parece-se um pouco contigo. Não receavas sonhar os projectos mais arrojados e todos se concretizaram. A companhia não pára de se expandir - voltou a pegar nas agulhas. - Kate começa a falar. Pareceu-me ouvir-lhe dizer “mamã”, esta manhã.

Jamie mantinha-se imóvel, como que petrificado, o olhar fixando um ponto indefinido na sua frente.

Na manhã seguinte, quando acordou, Margaret descobriu que ele morrera.

- Repousa, meu amor, repousa… - murmurou, estreitando-o nos braços. - Sempre te amei, profundamente. Espero que chegasses a compreendê-lo. Adeus, querido.

Agora, encontrava-se só. O marido e o filho tinham-na deixado. Restavam apenas ela e a filha. Dirigiu-se ao quarto contíguo e contemplou a criança que dormia no berço. Katherine. Kate. O nome derivava do grego e significava límpida ou pura, costumando atribuir-se às santas, freiras e rainhas.

- Qual das três coisas serás? - proferiu em voz alta. Decorria uma época de grande expansão na África do Sul, mas também de agitação crescente. Registava-se uma fricção de longa data no Transval entre os Bóeres e os Ingleses, que culminou com o conflito aberto. Na quinta-feira, 12 de Outubro de 1899, data do sétimo aniversário de Kate, foi declarada a guerra e, três dias mais tarde, o Estado Livre de Orange sofria o primeiro ataque. David tentou convencer Margaret a

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abandonar a África do Sul com a filha, mas ela negou-se a partir.

- Meu marido encontra-se aqui - alegou com firmeza. Reconhecendo a incapacidade para a demover da decisão, ele limitou-se a anunciar:

- Vou juntar-me aos Bóeres. Acha que pode cuidar das coisas?

- Sem dúvida. Farei o possível para que a companhia funcione normalmente.

David alistou-se na manhã seguinte.

Os Ingleses contavam com uma guerra fácil e rápida, pouco mais do que uma operação de limpeza, pelo que se lançaram nela confiantes. No aquartelamento em Hyde Park, Londres, realizou-se um jantar de despedida, com uma ementa especial em que se via um soldado britânico segurando a cabeça de um javali numa bandeja e a seguinte descrição:

JANTAR DE DESPEDIDA Ao ESQUADRÃO DO CABO 27 de Novembro de 1899

EMENTA

Ostras de Pintas Azuis Sopa de Estuque

Sapo na Toca

Cabrito à Mafeking

Nabos do Transval. Molho do Cabo

Faisões de Pretória

Molho Branco Pudim da Paz. Gelados Maciços Queijo Holandês Sobremesa (E, favor não atirar cascas para debaixo das mesas) Gemidos Bóeres - Long Tom Holandeses Esfolados Vinho de Laranjeira No entanto, estava -lhes reservada uma surpresa. Os Bóeres encontravam-se no seu território e eram duros e resolutos. ~* Jogo de palavras entre boar (javali) e bóer (bur).

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A primeira batalha da guerra foi travada em Mafeking, pouco mais que uma aldeia, e pela primeira vez os Ingleses começaram a vislumbrar o que se lhes erguia pela frente. Acto contínuo, seguiram mais tropas de Inglaterra, que cercaram Kimberley, e só conseguiram avançar em direcção a Ladysmith, que tomaram, após luta encarniçada. Os canhões dos locais tinham maior alcance que os dos agressores, pelo que se tornou necessário recorrer à artilharia dos navios de guerra britânicos. Assim, as peças foram desembarcadas e utilizadas pelos marinheiros a centenas de quilómetros das suas unidades.