Em Klipdrift, Margaret mantinha-se ansiosamente ao corrente de cada batalha, e ela e as pessoas à sua volta viviam dos rumores, variando o seu estado de espírito da euforia ao desespero, consoante a natureza das notícias. Até que, uma manhã, um dos empregados entrou no gabinete da companhia e comunicou:
- Consta que os Ingleses avançam para aqui. Vão matar-nos a todos!
- Que ideia! - redarguiu Margaret. - Não se atrevem a tocar-nos.
Cinco dias depois, achava-se convertida em prisioneira de guerra. Ela e Kate foram transferidas para Paardeberg, uma das centenas de campos de prisioneiros que haviam surgido na África do Sul. Os detidos mantinham -se num vasto campo aberto rodeado por arame farpado, guardados por soldados britânicos, em condições deploráveis.
- Não te preocupes, querida - murmurou Margaret, apertando Kate nos braços. - Não te há-de acontecer nada.
Todavia, nenhuma delas acreditava nestas palavras. Cada dia que passava constituía um catálogo de horrores. Viam os companheiros de infortúnio morrer às dezenas, centenas e finalmente milhares, à medida que a febre grassava no campo. Não havia médicos nem medicamentos para os feridos e a comida escasseava. Foi um pesadelo constante, que se prolongou por cerca de três anos lancinantes. O que mais custava a suportar era a sensação de desamparo absoluto. Margaret e Kate encontravam-se à inteira mercê dos captores.
Dependiam deles para as refeições e para o alojamento e até para a conservação da vida. A garota vivia imersa em terror, vendo as outras crianças morrer e receando que não tardasse a
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suceder-lhe o mesmo. Não dispunha de meios para se proteger e à mãe, e tudo aquilo representou uma lição que jamais esqueceria. Poder. Quem o possuía, tinha comida, medicamentos, liberdade. Enquanto assistia à morte dos que a rodeavam, identificava o poder com a vida. “Hei-de tê-lo, um dia. Ninguém poderá voltar a tratar-me assim.”
As batalhas violentas prosseguiam - Belmont, Graspan, Stormberg, Spioenkop -, mas os destemidos Bóeres acabaram por se revelar incapazes de resistir ao poderio do Império Britânico. Em 1902, após quase três anos de guerra sangrenta, tiveram de capitular. Combateram cinquenta e cinco mil bóeres e perderam a vida trinta e quatro mil dos seus soldados, mulheres e crianças. Mas o que encheu os sobreviventes de indignação quase selvagem foi o conhecimento de que vinte e oito mil deles morreram em campos de concentração britânicos.
No dia em que as portas foram abertas, Margaret e Kate regressaram a Klipdrift.
Poucas semanas mais tarde, num domingo cálido e sereno, foi a vez de David Blackwell se apresentar. A guerra amadurecera-o, mas continuava a ser o mesmo homem ponderado no qual Margaret se habituara a confiar.
- Lamento não as ter podido proteger - declarou, amargurado, quando se inteirou das vicissitudes que ela e filha tinham sofrido.
- Isso pertence ao passado, David. Temos de pensar apenas no futuro.
E o futuro era a Kruger-Brent, Ltd.
Para o mundo, o ano de 1900 representava uma ardósia limpa em que se escreveria História, uma nova era que prometia paz e esperança ilimitadas para todos. Principiara um novo século, que trazia consigo uma série de inventos surpreendentes e revolucionadores da vida em todo o Globo. Os automóveis a vapor e os eléctricos foram substituídos pelo motor de combustão. Surgiram os submarinos e os aeroplanos. A população mundial explodiu para um bilião e meio de almas. Era o período próprio para o crescimento e a expansão e, durante os seis anos imediatos, Margaret e David aproveitaram devidamente todas as oportunidades.
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Entretanto, Kate desenvolvia-se quase sem assistência, pois a mãe achava-se muito ocupada com a d irecção da companhia, coadjuvada por David, para poder preocupar-se com ela. Assim, tornara-se uma criança irreprimível, obstinada, e intratável. Certa tarde, quando regressava a casa de uma reunião de negócios, Margaret surpreendeu a filha de catorze anos no pátio enlameado, envolvida em renhida luta com dois rapazes.
- Valha-me Deus! - murmurou, abismada. - É esta a rapariga que um dia dirigirá os destinos da Kruger-Brent! Bem podemos rogar à Providência para que não nos desampare!
SEGUNDA PARTE
Kate e David 1906-1914
Capítulo décimo segundo Kate McGregor trabalhava, à noite, no seu gabinete da sede da Kruger-Brent International, em Joanesburgo, quando ouviu o som de sereias da Polícia. Pousou os documentos que examinava, aproximou-se da janela e espre itou. Três carrospatrulhas e uma furgoneta detiveram-se à entrada do edifício com um chiar de pneus no asfalto e uma dezena de homens uniformizados apeou-se com prontidão para cobrir as portas de acesso. Era meia-noite e as ruas achavam-se desertas.
Kate lançou uma olhadela ao seu reflexo na vidraça. Com vinte e dois anos, era uma mulher atraente, possuidora dos olhos cinzentos do pai e o corpo torneado da mãe.
Momentos depois, bateram à porta e ela proferiu:
- Entre - declarou, após o que viu surgir dois polícias, um dos quais exibia a insígnia de superintendente. - Que aconteceu? - inquiriu.
- Peço desculpa por a importunarmos a esta hora tardia, Miss McGregor. Sou o superintendente Cominsky.
- Qual é o problema, superintendente?
- Fomos informados de que um assassino evadido entrou neste edifício, há poucos minutos.
- Neste edifício? - repetiu ela, com uma expressão chocada.
- Exacto. Está armado e é perigoso.
- Nesse caso, agradecia-lhe que o encontrasse e levasse - observou, com uma ponta de impaciência.
- É precisamente a minha intenção. Apercebeu-se de algum ruído suspeito?
- Não. No entanto, encontrava-me só e há muitos lugares onde uma pessoa se pode esconder. Recomende aos seus homens que revistem tudo minuciosamente.
- Sem dúvida, Miss McGregor - e o superintendente voltou-se para o corredor, ordenando: - Principiem na cave e sigam até ao terraço - e dirigindo-se de novo a Kate: - Há algum gabinete fechado à chave?
- Penso que não, de contrário tratarei de o abrir. Verificou que ela se achava enervada e, no fundo, não a
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censurava por isso. Ainda ficaria mais apreensiva se soubesse como o homem que perseguiam estava desesperado.
- Havemos de o encontrar - prometeu com firmeza. Kate tornou a pegar nos documentos que estudava, mas descobriu que não conseguia concentrar-se, ouvindo os polícias moverem-se por todo o edifício, de um gabinete para o outro. “Conseguirão descobri -lo?” A ideia fêla estremecer.
Entretanto, eles actuavam com lentidão, metodicamente, esquadrinhando todos os esconderijos possíveis. Quarenta e cinco minutos mais tarde, o superintendente Cominsky reapareceu e ela leu-lhe a expressão correctamente.
- Não o encontraram!
- Ainda não, mas não se apoquente…
- Lamento, mas estou apoquentada. Se há um assassino no edifício, quero que o descubram.
- Consegui-lo-emos. Restam os cães.
Soaram latidos no corredor e, no momento imediato, apareceu um polícia com dois corpulentos pastores-alemães.
- Os cães percorreram todo o prédio, superintendente. Farejaram tudo excepto este gabinete.
Cominsky virou-se para Kate.
- Ausentou-se daqui recentemente?
- Fui ao arquivo buscar uns documentos. Parece-lhe que ele pode?… - e ela interrompeu-se com um estremecimento. - É melhor não descurar nenhuma possibilidade.
O superintendente fez um sinal ao subordinado, que soltou os animais da trela e indicou: