- Busquem.
Acto contínuo, os cães pareceram alucinados. Precipitaram-se para uma porta fechada e puseram-se a ladrar com excitação.
- Valha-me Deus! - balbuciou Kate. - Está ali!
- Abre a porta - ordenou Cominsky, puxando da pistola. O polícia acercou-se, empunhando igualmente a arma, e fez rodar o puxador. O compartimento, sem dúvida destinado a arrecadação, achava-se deserto. Todavia, um dos cães correu para outra porta, diante da qual estacou, rosnando.
- Que há do outro lado? - perguntou o superintendente.
- Uma casa de banho.
O polícia apressou-se a abri-la, mas não avistaram vivalma no interior.
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- Nunca os vi comportarem-se assim - articulou, meneando a cabeça, enquanto os cães se moviam em redor freneticamente. - Captaram o rasto, mas ele não aparece.
Por fim, os animais aproximaram-se de uma gaveta da secretária e continuaram a ladrar com persistência - Está solucionado o mistério - observou Kate, com um sorriso forçado. - Escondeu-se na gaveta.
- Lastimo tê-la incomodado, Miss McGregor - disse Cominsky, embaraçado.
Voltou-se para o polícia e ordenou: - Leve-os daqui para fora.
- Retiram-se? - perguntou ela, numa inflexão apreensiva.
- Garanto-lhe que não corre o menor perigo. Os meus homens passaram o edifício a pente fino. Posso assegurar-lhe que ele não se encontra aqui. Foi um falso alarme. As minhas desculpas.
- Não haja dúvida de que vocês sabem tornar excitante o serão de uma mulher - comentou ela, secamente.
Kate conservou-se junto da janela até que as três viaturas da Polícia se afastaram, após o que abriu a gaveta da secretária e extraiu um par de sapatos de lona manchados de sangue. Em seguida dirigiu-se a uma porta com a indicação Entrada Proibida a Pessoas Não Autorizadas, no fundo do corredor, e entrou. A sala continha apenas um cofre-forte enorme embutido na parede, onde a Kruger- Brent, Ltd. guardava os diamantes antes de serem expedidos para os diferentes destinos. Em movi mentos rápidos, compôs as letras do segredo e puxou a porta gigantesca. Nas paredes, alinhavam-se dezenas de pequenos cofres repletos de pedras preciosas e, no centro, via-se Banda, semiconsciente.
- Já se foram - informou Kate, ajoelhando a seu lado. O negro descerrou as pálpebras com lentidão e conseguiu esboçar um sorriso. Permitiu que ela o ajudasse a levantar e comprimiu os lábios no momento em que moveu o braço envolto numa ligadura manchada de sangue.
- Podes calçar os sapatos? - Kate retirara -lhos antes e, para confundir os cães que decerto apareceriam, utilizara-os para se deslocar em torno do seu gabinete, acabando por os ocultar na gaveta da secretária. - Vem. Tens de sair daqui.
- Eu desenrasco-me sozinho - declarou ele abanando
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a cabeça com veemência. - Se descobrem que me ajudou, fazem-lhe passar um mau bocado.
- Não te preocupes com isso - e vendo-o lançar uma olhadela em torno do cofre, sugeriu: - Se queres levar algum diamante, serve-te à vontade.
- Seu pai fez-me uma oferta semelhante, há muito tempo.
- Eu sei.
- Não preciso de dinheiro. Tenho apenas de abandonar a cidade por uns tempos.
- Como tencionas sair de Joanesburgo?
- Hei-de descobrir um meio.
- A Polícia bloqueou todas as saídas. Não tens a mínima hipótese, sem ajuda.
- Já me auxiliou mais do que devia - persistiu Banda, calçando os sapatos.
- Se te apanham, matam-te. Vens comigo.
Kate sabia que não se equivocava acerca do bloqueio das saídas da cidade. A captura do negro constituía uma prioridade suprema, e as autoridades tinham recebido ordens para o apanhar, vivo ou morto.
- Espero que tenha em vista um plano melhor do que o de seu pai - comentou Banda em voz débil, em resultado da perda de sangue.
- Não fales. Poupa as energias. Deixa tudo a meu cargo - e ela revelava uma confiança que não sentia totalmente, mas ele encontrava-se nas suas mãos e não permitiria que lhe acontecesse coisa alguma. Deplorava que David estivesse ausente, mas teria de se desembaraçar da crítica situação sem o seu auxílio. - Vou levar o carro para a porta das traseiras - anunciou após breve pausa. - Deixa passar dez minutos e segue para lá. Estará a porta da retaguarda aberta, para que subas e te estendas no chão. Há uma manta para te cobrires.
- Mas eles hão-de revistar todos os carros que abando nem a cidade.
- Não utilizaremos esse meio de transporte. Parte um comboio para a Cidade do Cabo às oito da manhã, ao qual mandei atrelar a minha carruagem pessoal.
- Vai levar-me aí?
- Precisamente.
- Vocês, os McGregor, adoram realmente a excitação - murmurou o negro, com um sorriso.
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Meia hora mais tarde, Kate conduzia o carro em direcção à estação de caminhode- ferro, com Banda deitado no solo da retaguarda, dissimulado por uma manta.
Não experimentou qualquer dificuldade em transpor as barreiras levantadas pelas autoridades, mas agora, no momento em que entrava no parque de estacionamento perto da linha, avistou um clarão à sua frente e verificou que o caminho se achava bloqueado por vários polícias, um dos quais se acercou no instante em que travou.
- Superintendente Cominsky?
- Miss McGregor! Que faz aqui?
- Talvez me julgue pateta, mas o que aconteceu há pouco assustou-me - declarou Kate, fingindo-se apreensiva. - Resolvi, portanto, ausentar-me da cidade até que capturem o assassino. Ou já o encontraram?
- Não, infelizmente, embora não me restem dúvidas de que o conseguiremos.
Palpita-me que tentará escapar-se no comboio. Não lhe servirá de nada, claro.
- Oxalá não se engane.
- Aonde vai?
- A minha carruagem pessoal encontra-se num desvio aí adiante. Penso seguir nela até à Cidade do Cabo.
- Quer que um dos meus homens a acompanhe?
- Obrigada, superintendente, mas não vejo necessidade. Agora que sei que estão na pista do homem, posso respirar melhor.
Cinco minutos depois, Kate e Banda achavam -se em segurança na carruagem, imersa na escuridão.
- Não convém acender a luz - referiu ela, enquanto o ajudava a instalar-se numa das camas. - Aqui, não corres perigo até de manhã. Quando o comboio principiar a andar, escondes-te na casa de banho.
- Entendido.
- Conheces algum médico que te possa observar, quando chegarmos à Cidade do Cabo?
- Chegarmos? -ecoou ele, arqueando as sobrancelhas.
- Julgavas que te deixava ir só e perdia a parte mais excitante da aventura?
Inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada: “Não pode negar de quem é filha.”
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Quando amanheceu, uma locomotiva conduziu a carruagem particular para a retaguarda do comboio que partiria com destino à Cidade do Cabo.
Às oito horas em ponto, a composição abandonou a estação. Entretanto, Kate comunicara ao pessoal que não queria ser incomodada, pois o ferimento de Banda voltava a sangrar e ela necessitava proceder à substituição da ligadura. Por outro lado, não tivera ensejo de conversar com ele desde o serão anterior, quando irrompera, exausto, no seu gabinete.
- Explica-me o que aconteceu, Banda.
O negro olhou-a e reflectiu: “Por onde hei-de principiar?” Como poderia fazer-lhe compreender a existência dos trek-boers, bóeres nómadas que expulsavam os bantos das suas terras ancestrais? Ou teria porventura principiado tudo com o gigantesco Oom Paul Kruger, presidente do Transval, o qual afirmara, num discurso pronunciado no Parlamento sul-africano, que “temos de mandar nos pretos e permitir-lhes apenas que sejam uma raça dominada”? Ou ainda na época do grande construtor do império Cecil Rhodes, cuja máxima consistia em “a África para os brancos”? Como lhe seria possível resumir a história do seu povo numa frase? Por fim, acudiu-lhe uma maneira:
- A Polícia assassinou o meu filho.
A descrição foi surgindo, embora com certa dificuldade. O filho mais velho de Banda, Ntombenthle, participava num comício, quando as autoridades surgiram para o dispersar. Em resultado disso, foram disparados alguns tiros e registaramse tumultos. Ntombenthle figurava entre os presos e, na manhã seguinte, apareceu enforcado na cela.