- Garantiram que se suicidou, mas sei que o assassinaram.
- Tão jovem, meu Deus! - exclamou Kate, lembrando-se das inúmeras vezes que tinham brincado juntos. - Lastimo profundamente. Mas porque te perseguem?
- Quando o mataram, comecei a agrupar os negros para me vingar. Não podia ficar de braços cruzados. A Polícia chamou-me inimigo do Estado, prendeu-me por um roubo que não pratiquei e condenaram-me a vinte anos de prisão. Eu e mais três conseguimos evadir-nos. Um guarda foi atingido mortalmente a tiro e atribuem-me a culpa, embora nunca possuísse uma arma de fogo em toda a minha vida.
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- Acredito. A primeira coisa a fazer é levar-te para um lugar seguro.
- Lamento envolvê-la nisto.
- Não me envolveste em nada. És meu amigo.
- O primeiro branco que me chamou amigo foi seu pai. - Banda exibiu um sorriso de nostalgia. - Como tenciona fazer-me sair do comboio, na Cidade do Cabo?
- Não é para aí que vamos.
- Mas disse…
- Como mulher, assiste -me o direito de mudar de ideias. A meio da noite, quando o comboio se deteve na estação de Worcester, Rate mandou desatrelar a carruagem e conduzi -la para um desvio. Ao amanhecer, dirigiu-se à cama de Banda, e encontrou-a vazia. O negro desaparecera, disposto a não a comprometer mais profundamente. Apesar de deplorar o facto, ela estava persuadida de que não se deixaria apanhar pelas autoridades, pois dispunha de muitos amigos. “David há-de orgulhar-se de mim”, foi o seu pensamento imediato.
- Não percebo como pudeste ser tão estúpida! - vociferou ele, quando Kate regressou a Joanesburgo e lhe descreveu o episódio. - Não só arriscaste a tua segurança pessoal como colocaste a companhia em perigo. Sabes o que a Polícia faria se encontrasse Banda aqui?
- Sei - replicou ela, com uma expressão de desafio. - Matava-o.
- Será possível que não compreendas nada? - David passou a mão pela fronte, num gesto de frustração.
- Enganas-te. Compreendo que és um homem frio, sem sentimentos.
- Não passas de uma criança.
Kate ergueu a mão para o esbofetear, mas ele apressou-se a segurar-lha.
- Tens de aprender a dominar-te.
Estas palavras ecoaram-lhe na cabeça: “Tens de aprender a dominar-te.”
Ela tinha quatro anos e achava-se no auge de uma troca de socos com um rapaz que se atrevera a importuná -la, quando David surgiu e afugentou este último. No momento em que Kate pretendia correr no seu encalço, ele segurou-a pelo braço e recomendou:
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- Tens de aprender a dominar-te. As meninas bem-com-portadas não se entregam a cenas de pugilismo.
- Não sou uma menina bem-comportada. Larga-me.
- Vai mudar de roupa e lavar-te, antes que tua mãe te veja.
- Aplicava -lhe um correctivo, se não interviesses - asseverou Kate, lançando um olhar pesaroso na direcção tomada pelo antagonista.
David olhou-a em silêncio por um momento e inclinou a cabeça com lentidão.
- Provavelmente, aplicavas mesmo.
Mais serena, permitiu que lhe pegasse ao colo e a levasse para casa. Gostava de estar nos braços dele. Na realidade, agra dava -lhe tudo a seu respeito. Era o único adulto que a compreendia e, sempre que se encontrava na cidade, consagrava-lhe algum tempo. Em momento de descontracção, Ja-mie descrevera a David as suas aventuras com Banda e agora o rapaz repetia-lhas.
- Fala-me outra vez da jangada que construíram. E ele comprazia-a com prontidão.
- E os tubarões… Conta-me aquilo do mis do mar… Daquele dia em que…
Kate tinha poucas oportunidades de ver a mãe, sempre ocupada com os assuntos da Kruger-Brent, Ltd.
Margaret conversava com o marido todas as noites, como acontecera ao longo do ano que precedera a sua morte.
- David é de uma utilidade extraordinária, Jamie, e ainda cá estará quando a companhia passar para as mãos de Kate. Embora me custe afligir-te, confesso que não sei o que fazer com essa rapariga…
Kate era obstinada, irrequieta e impossível de dominar, recusando-se a obedecer à mãe ou a Mrs. Talley. Se lhe escolhiam um vestido, trocava-o imediatamente por outro. Também não se alimentava convenientemente. Comia o que e quando lhe apetecia, indiferente a rogos ou ameaças. Se a obrigavam a comparecer a uma festa de aniversário, encontrava sempre uma maneira para provocar distúrbios.
Não tinha amigas. Negava-se a frequentar as aulas de bailado, preferindo praticar o râguebi com adolescentes. A partir do momento em que começou a frequentar a escola, Margaret era convocada pela directora pelo menos uma vez por mês e
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necessitava de empregar todos os meios de persuasão para que Kate não fosse expulsa.
- Não a compreendo - desabafava a mulher. - Apesar de invulgarmente inteligente, revolta-se contra tudo. Não sei o que faça com ela.
E Margaret via-se forçada a partilhar da sua opinião.
A única pessoa capaz de manter Kate na linha era David.
- Ouvi dizer que te convidaram para uma festa de anos, esta tarde - observou ele.
- Detesto essas coisas.
- Eu sei - agachou-se até ficar ao nível dela. - Mas o pai da festejada é meu amigo, e fico mal situado se não compareceres e te portares como uma senhora.
- É um bom amigo?
- Sim.
- Então, vou.
E as suas maneiras naquela tarde foram impecáveis.
- Não compreendo como o consegue - comentava Margaret. - É um autêntico acto de ilusionismo.
- Trata-se de uma fase passageira - afirmava ele, rindo. - Há-de livrar-se dela. O essencial é não lhe quebrar a voluntariedade.
- Aqui para nós, em certas ocasiões eu gostava de lhe quebrar o pescoço - era, com frequência, o comentário final dela, com um sorriso malicioso.
Quando tinha dez anos, Kate anunciou, um dia:
- Quero conhecer Banda.
- Não é possível - redarguiu David, surpreendido. - A herdade dele fica muito longe.
- Acompanhas-me, ou tenho de fazer a viagem sozinha? Na semana seguinte, partiram. A herdade tinha dimensões apreciáveis e Banda cultivava nela trigo, dedicando-se igualmente à criação de carneiros e avestruzes. Os alojamentos consistiam em cabanas circulares com paredes de barro, enquanto postes suportavam o tecto cónico coberto com colmo.
O negro encontrava-se à entrada, observando-os, enquanto Kate e David se apeavam da carruagem.
- Adivinhava que era filha de Jamie McGregor, mesmo
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que não mo dissessem - declarou, contemplando a rapariga com gravidade.
- E eu reconhecia-te imediatamente - replicou ela. - Vim agradecer-te por salvares a vida a meu pai.
- Desconfio que exageraram - Banda soltou uma gargalhada. - Entre, para conhecer a família.
A esposa era uma banto atraente chamada Ntame e havia dois filhos:
Ntombenthle, de dezassete anos, e Magena, de dezasseis. O primeiro podia considerar-se uma miniatura do pai, com os mesmos traços fisionómicos regulares e porte empertigado.
Kate passou toda a tarde a brincar com os dois rapazes e, por fim, jantaram na cozinha da pequena mas imaculada cabana. Por seu turno, David sentia uma ponta de desconforto por se sentar à mesa com uma família de negros.
Respeitava Banda, mas, em obediência à tradição, não devia haver confraternização entre as duas raças. Além disso, preocupavam -no as actividades políticas do anfitrião, pois constava que era discípulo de John Tenga Javabu, o qual pugnava por mudanças sociais drásticas. Como os proprietários das minas não conseguiam recrutar nativos em número suficiente, o Governo impusera uma taxa de dez xelins a quem não trabalhasse nelas, o que suscitava tumultos por toda a África do Sul.
Ao fim da tarde, David propôs: