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- É melhor iniciarmos o regresso, Kate. Aguarda-nos uma longa tirada.

- Ainda é cedo - e a rapariga voltou-se para Banda. - Conta-me aquilo dos tubarões.

A partir de então, sempre que David se encontrava na cidade, obrigava-o a acompanhá-la à herdade do negro.

A convicção de David de que Kate se libertaria da fase de obstinação tardava em se concretizar. Ao invés, parecia acentuar-se cada dia que passava. Recusava-se terminantemente a participar nas actividades próprias das raparigas da sua idade e insistia em que ele o levasse às minas, quando não preferia a pesca, a caça ou o campismo. Um dia em que pescavam no Vaal e ela capturou uma truta de dimensões apreciáveis, David comentou:

- Devias ter nascido rapaz.

- Não digas disparates. Depois, não podia casar contigo - e

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vendo-o soltar uma gargalhada divertida, ela persistiu: - Não tenhas a mínima dúvida de que havemos de nos casar um com o outro.

- Duvido. Para já, sou vinte e dois anos mais velho, o suficiente para ser teu pai.

Um dia, encontrarás um rapaz bem-parecido…

- Não me interessa encontrar nenhum rapaz bem-parecido. Há muito que te escolhi.

- Se falas a sério, vou revelar-te o segredo para conquistares o coração de um homem.

- Qual é? - quis saber, ansiosa.

- Através do estômago. Limpa essa truta e almocemos.

Uma vez por semana, Margaret convidava David para jantar na espaçosa moradia. Em regra, Kate preferia comer na cozinha com o pessoal, onde não necessita va de se preocupar com as maneiras à mesa, mas naquele dia optava pela companhia da mãe, unicamente porque ele também comparecia. Na maioria das vezes, David ia só, conquanto ocasionalmente levasse uma mulher, que Kate ficava a detestar desde o primeiro instante.

Mais tarde, conseguiu dirigir-se-lhe discretamente e observava:

- Aposto que desencantaste a tua companheira numa visita a casa de Madame Agnes.

Quando Kate contava catorze anos, a directora do colégio mandou chamar Margaret mais uma vez.

- Orgulho-me de dirigir um estabelecimento respeitável e receio que sua filha exerça uma influência maligna.

- Que fez ela, agora? - perguntou Margaret, com um suspiro de resignação.

- Ensina às colegas expressões que nunca tinham ouvido. Devo mesmo acrescentar que nem eu própria as conhecia. Não compreendo onde as aprendeu.

“Mas compreendo eu. Na rua, com os seus companheiros de brincadeira. É altura de pôr ponto final nisto”.

- Agradecia que falasse com sua filha a sério, Mistress McGregor. Fecharei os olhos por mais esta vez, mas…

- Deixe. Tenho uma ideia melhor. Enviá-la-ei para um colégio interno.

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Quando Margaret comunicou a ideia a David, este esboçou um sorriso malicioso.

- Duvido que ela fique contente.

- Não há outra solução. Agora, a directora queixa-se da sua linguagem. Ouve -a aos pesquisadores, com os quais convive constantemente. Kate começa a parecer-se com eles em tudo, incluindo o cheiro. Para ser franca, não a compreendo. Não vislumbro porque procede assim. É bonita, inteligente e…

- Talvez seja inteligente de mais.

- De qualquer modo, vou interná -la num colégio. Quando chegou a casa naquela tarde e se inteirou da decisão materna, a rapariga enfureceu-se.

- Queres livrar-te de mim!

- Evidentemente que não, querida. Penso apenas que estarás melhor.

- Em parte alguma posso estar melhor do que aqui, onde tenho todos os amigos.

Pretendes separar-me deles.

- Se te referes a esses maltrapilhos…

- Não são maltrapilhos. Valem tanto como as outras pessoas.

- Evitemos as discussões inúteis. Vais para um internato e acabou-se.

- Antes a morte!

- Como queiras. Encontrarás uma tesoura aguçada na sala de costura e, se procurares bem, creio que descobrirás veneno algures.

- Não me faças isso, por favor, mãe! - balbuciou Kate, rompendo em lágrimas.

- É para teu bem, minha filha - murmurou Margaret, apertando-a nos braços. - Em breve terás idade para casar e nenhum homem escolherá uma moça que fala e se veste como tu.

- É falso. David não se importa.

- Que tem ele a ver com isto?

- Vamos casar.

Exalou um suspiro de frustração.

- Vou dizer a Mistress Talley que prepare as tuas coisas.

Dentre a meia dúzia de internatos para raparigas existentes em Inglaterra, Margaret decidiu que o de Cheltenham, em Gloucestershire, era o mais indicado para Kate. Situava -se

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numa propriedade espaçosa rodeada por muros elevados e, segundo o prospecto publicitário, fora fundado para as filhas de nobres. David tinha relações profissionais com o marido da directora, Mrs. Keaton, pelo que não encontrou dificuldades para obter a admissão da rapariga.

Quando tomou conhecimento do local que lhe fora destinado, Kate explodiu uma vez mais.

- Ouvi falar desse antro! É um horror. Voltarei de lá como uma daquelas bonecas inglesas presunçosas. Tens essa ideia em vista?

- A minha única ideia é que aprendas boas maneiras - assegurou-lhe Margaret.

- Não preciso delas para nada. Bastam-me os miolos para suprir todas as insuficiências.

- Não é isso que interessa mais aos homens nas mulheres - volveu, secamente. - E não esqueças que te estás a tornar uma mulher.

- Não me interessa. Por que raio não me deixas sossegada?

- Proíbo-te que empregues essa linguagem na minha presença.

E os duelos verbais entre mãe e filha repetiram -se com in-termitências até ao dia em que Kate teve de partir. Como David necessitava de se deslocar a Londres em viagem de negócios, Margaret solicitou-lhe:

- Importa-se de a acompanhar? Só Deus sabe onde iria parar, se ninguém a escoltasse.

- Com o maior prazer - afirmou ele.

- És como a minha mãe! - vociferou Kate. - Estás em pulgas para te livrares de mim!

- Enganas-te - corrigiu David. - Posso esperar.

Viajaram numa carruagem privada de Klipdrift à Cidade do Cabo e daí de barco até Southampton, ao longo de quatro semanas. Embora o amor-próprio não lhe permitisse confessá-lo, Kate sentia-se encantada com a companhia de David. “É como uma lua-de-mel, com a diferença de que não estamos casados. Por enquanto!”

A bordo do navio, ele passava grande parte do tempo a trabalhar no seu camarote, enquanto ela se enroscava no sofá e o observava em silêncio, contente por se achar a seu lado.

Um dia perguntou:

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- Não te chateias com tantos números?

- Não se trata apenas de números - redarguiu David, pousando a caneta e erguendo os olhos. - São histórias.

- De que espécie?

- Para quem os souber interpretar, são histórias de companhias que compram ou vendem, pessoas que trabalham para nós. Milhares de indivíduos por todo o mundo ganham a vida através da companhia que o teu pai fundou.

- Pareço-me com ele?

- Sim, em vários aspectos. Era um homem obstinado, independente.

- E eu sou uma mulher obstinada e independente?

- Digamos, antes, uma turbulenta mimada. O homem que casar contigo não conhecerá um momento de descanso.

“Pobre David…”, cismou ela, com um sorriso sonhador. Na sala de jantar, na sua derradeira noite no mar, ele perguntou:

- Porque te mostras tão difícil?

- Achas que sou?

- Bem sabes que sim. Enlouqueces tua mãe.

- A ti também? - sussurrou Kate, pousando a mão na dele.

- Pára com isso - e David sentiu-se corar. - Não te entendo.

- Entendes perfeitamente.

- Porque não és como as outras jovens da tua idade?

- Preferia morrer. Não me quero parecer com ninguém.

- Nisso, tens conseguido o teu objectivo!

- Juras não casar com ninguém até eu ser suficientemente adulta para ti? Prometo desenvolver-me o mais depressa possível. Limita-te a não conhecer ninguém que possas amar, por favor.