Выбрать главу

Enternecido pelo tom subitamente grave da interlocutora, ele pegou-lhe na mão e proferiu:

- Quando casar, desejarei que minha filha seja exactamente como tu.

Todavia, Kate levantou-se com brusquidão e, num tom que vibrou em toda a sala de jantar, vociferou:

- Vai para o raio que te parta, David Blackwell!

E encaminhou-se apressadamente para a saída, acompanhada pelos olhares assombrados de todos.

168

Passaram três dias juntos em Londres e ela adorou cada minuto de que se compuseram.

- Reservo -te uma surpresa - anunciou ele. - Consegui bilhetes para a peça Mistress Wiggs of lhe Cabbage Patch.

- Agradeço-te a atenção, mas prefiro ir ao Gaiety.

- Aí levam uma revista musical imprópria para a tua idade.

- Depois de a ver te direi se tens razão - insistiu Kate, com obstinação.

Por conseguinte, foram ao Gaiety.

Kate adorava o aspecto de Londres: a mistura de automóveis e tipóias, as mulheres com os seus trajos dispendiosos e elegantes e os homens de smoking ou sobrecasaca. Jantaram no Ritz, mais tarde cearam no Savoy e, no momento de se retirarem, ela reflectiu: “Havemos de voltar aqui juntos.”

Uma vez em Cheltenham, foram introduzidos no gabinete de Mrs. Keaton, à qual, após as saudações iniciais, David disse:

- Quero agradecer-lhe por admitir Kate.

- Estou certa de que gostaremos de a ter connosco. De resto, é com prazer que satisfaço um pedido de um amigo de meu marido.

Naquele momento, Kate compreendeu que fora ludibriada. Era David que a queria longe de casa e providenciara para que ficasse ali.

Sentia-se tão revoltada e amargurada que não quis despedir-se dele.

Capítulo décimo terceiro O colégio de Cheltenham era insuportável. Havia regras para tudo. As raparigas tinham de usar uniformes idênticos, que se prolongavam até aos tornozelos. O dia escolar durava dez horas e cada minuto estava rigidamente estruturado. Mrs.

Keaton dirigia as alunas e o pessoal com mão de ferro. Elas encontravam-se ali para aprender boas maneiras, disciplina,

169

etiqueta e decoro, a fim de, um dia, atraírem maridos convenientes.

Numa das cartas à mãe, Kate escreveu: “É uma autêntica prisão. As minhas companheiras são horríveis. Só sabem falar de vestidos e rapazes, e as professoras não passam de monstros. Não conseguirão manter-me cá. Hei-de fugir!”

Conseguiu escapar à vigilância por três vezes, mas acabou sempre por ser encontrada e remetida à procedência.

Numa reunião semanal do pessoal docente, quando o nome dela foi mencionado, uma das professoras afirmou:

- Esta rapariga é indomável. Penso que a devíamos recambiar para a África do Sul.

No entanto, Mrs. Keaton replicou:

- Concordo consigo, mas encaremos o caso como um desafio. Se conseguirmos disciplinar Kate McGregor, não voltaremos a ter problemas com qualquer internada.

Por conseguinte, a rapariga continuou no colégio.

Ante o assombro das professoras, Kate manifestou interesse pela herdade pertencente ao colégio, onde se cultivavam legumes e criavam galinhas e porcos, havendo igualmente algumas vacas e cavalos. Passava lá todo o tempo que podia e, quando se inteirou, Mrs. Keaton ficou profundamente satisfeita.

- Afinal, era uma simples questão de paciência - declarou numa reunião. - Ela encontrou finalmente o seu interesse na vida. Um dia, casará com um proprietário rural, ao qual será extremamente útil.

Na manhã seguinte, Oscar Denker, encarregado da herdade, procurou a directora e informou:

- Uma das raparigas, Kate McGregor, precisa ser afastada de lá.

- Porquê? - estranhou Mrs. Keaton. - Constou-me que se interessa muito pelos trabalhos.

- Sabe em que consiste o seu único interesse? Em ver os animais fornicar, se me permite a expressão.

- O quê?

- É como lhe digo. Observa-os com um prazer doentio.

- Com mil raios!

Kate ainda não perdoara a David por a ter enviado para o

170

exílio, mas sentia muito a sua falta. “O meu destino determinou que me apaixonasse por um homem que odeio”, reflectia com amargura. Contava os dias da separação como uma prisioneira ansiosa por chegar à data da libertação.

Entretanto, receava que ele cometesse algum acto irreparável, como, por exemplo, casar com outra mulher enquanto ela permanecia desterrada no maldito colégio. “Se o fizer, mato os dois. Não. Só a ela. Hão-de prender-me e enforcarme, mas, quando me encontrar no cadafalso, ele compreenderá que me ama. Mas será demasiado tarde e suplicará que lhe perdoe. "Sim, David querido. Estás perdoado. Foste cego ao ponto de não ver que tinhas um amor profundo na palma da mão, e deixaste -o voar como se fosse uma avezinha, que vai agora ser executada. Adeus, David." Todavia, no derradeiro instante, serei indultada e ele tomar-me-á nos braços e levar-me-á para um país exótico, onde a comida não se compare à horrível mistela servida em Cheltenham.”

Um dia, recebeu uma carta dele comunicando que visitaria Londres e a procuraria.

Acto contínuo, deu largas à imaginação e descobriu uma dezena de subentendidos nas linhas que acabava de ler. “Porque vem a Inglaterra? Para estar comigo, claro. Porque me visita? Porque compreendeu finalmente que me ama e não pode continuar longe de mim. Vai arrebatar-me deste antro insuportável.” Por conseguinte, continha a alegria com dificuldade, e a sua fantasia era tão real que no dia da chegada dele começou a despedir-se das colegas, com a explicação:

- O meu namorado vem buscar-me.

Elas olhavam-na com incredulidade, sem todavia se pronunciarem, à excepção de Georgina Christy, que fungou desdenhosamente e acusou:

- É mais uma das tuas mentiras.

- Espera e verás. Ele é alto e simpático e está louco por mim.

Quando chegou, David ficou intrigado com a curiosidade de que era alvo por parte das raparigas, que o observavam, sorriam maliciosamente e murmuravam umas às outras.

- Parece que nunca viram um homem - comentou, quando se encontrou a sós com Kate. Olhando-a com desconfiança, perguntou: - Disseste alguma coisa a meu respeito?

171

- Que ideia! Porque faria uma coisa dessas? Almoçaram na ampla sala de jantar do colégio e David pô-la ao corrente do que se passava em casa.

- Tua mãe manda-te beijos e aguarda com ansiedade as férias grandes para voltar a ver-te.

- Como está ela?

- Bem, mas trabalha muito.

- Qual a situação da companhia?

- A melhor possível - asseverou, surpreendido com a pergunta. - Porquê? · Porque um dia me pertencerá e compartilhá-la-emos juntos”, pensou ela, ao mesmo tempo que respondia:

- Por mera curiosidade.

- Não comes? - estranhou David, vendo que ela conservava o prato intacto.

Na verdade, Kate não estava interessada na comida, pois aguardava com ansiedade o momento mágico em que ele diria: “Vem comigo, Kate. Já és uma mulher e desejo-te. Casaremos imediatamente.”

Todavia, a refeição chegou ao fim sem que a ansiada declaração se produzisse.

Só no instante em que consultou o relógio e anunciou que tinha de se retirar, sob pena de perder o comboio, ela compreendeu, com uma sensação de horror, que não tencionava levá -la consigo. O bastardo deixá-la-ia apodrecer naquela prisão infecta!

Por seu turno, ele ficara satisfeito com a visita. Kate mostrava-se uma rapariga inteligente e comunicativa, e a rebelião que outrora manifestava parecia dominada. Antes de se despedirem, pousou a mão na dela com afecto e inquiriu:

- Precisas de alguma coisa?

- Sim, podes fazer-me um grande favor - retorquiu ela, com um olhar incendiário. - Desaparece da minha vida para sempre!

E afastou-se com notável dignidade, de cabeça erguida, deixando-o boquiaberto.

Margaret não podia negar que tinha saudades de Kate. Apesar de se tratar de uma rapariga irrequieta e rebelde, reconhecia que era o único ser vivo que estimava. “Será uma mulher importante”, admitia com orgulho, “mas quero que tenha as maneiras de uma senhora.”