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Quando a filha se apresentou, nas fé rias grandes, perguntou-Lhe:
- Que tal te dás no colégio?
- Detesto-o! É como se estivesse rodeada por uma centena de amas.
- As tuas colegas pensam da mesma maneira?
- Ora! - articulou Kate, com uma expressão de desdém. - Gostava que as visses.
Estiveram sempre metidas em redomas. Não sabem nada da vida.
- Nesse caso, deves ter um ambiente horrível - observou Margaret, com uma ponta de sarcasmo.
- Não faças pouco de mim, por favor. Nunca estiveram na África do Sul. Os únicos animais selvagens que viram foi no parque zoológico. Não fazem a mínima ideia do que seja uma mina de diamantes ou de ouro.
- Não tiveram a tua sorte.
- Ri-te, mas quando me tornar como elas, hás-de arrepender-te.
- Achas possível?
- De modo algum - Kate exibiu um sorriso malicioso. - Julgas que endoideci?
Ainda não havia uma hora que chegara e já se encontrava no pátio jogando râguebi com os filhos do pessoal doméstico, enquanto Margaret a observava da janela e reflectia: “Estou a desperdiçar dinheiro. Nunca mudará.”
Naquela noite, dura nte o jantar, a rapariga perguntou:
- David está na cidade?
- Creio que regressa amanhã da Austrália.
- Então, vem jantar na sexta -feira?
- É provável - Margaret estudou o semblante da filha e aventurou: - Gostas dele, hem?
- Suporto-o - foi a resposta seca, com um encolher de ombros. - Simpatizo com ele como ser humano, mas detesto-o como homem.
Na sexta-feira, quando David se apresentou para jantar, Kate precipitou-se para a porta, a fim de o abraçar, e murmurou-lhe ao ouvido:
- Perdoo-te. Tive tantas saudades tuas! Sentiste a minha falta?
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Ele respondeu afirmativamente, ao mesmo tempo que pensava: “Na verdade, senti muito a sua ausência!” Nunca conhecera ninguém como aquela rapariga.
Apesar de a ver crescer com escassas ausências, cada reencontro constituía uma revelação. Estava prestes a completar dezasseis anos e principiava a apresentar a configuração de adulta. Podia mesmo considerar-se uma beldade, com espírito acutilante e voluntariosa. “Será um quebra-cabeças para o homem que a levar…”, não pôde deixar de admitir.
Enquanto comiam, ele perguntou:
- Como vão as coisas no colégio?
- O melhor possível. Estou a aprender muito. As professoras são maravilhosas e tenho muitas amigas - e Kate fez uma pausa, ignorando a expressão perplexa da mãe. - Deixas-me ir contigo às minas?
- É assim que queres passar as férias?
- Exacto.
A deslocação às minas exigia um dia inteiro, o que significava que estaria ao lado de David durante todo esse tempo.
- Se tua mãe aprova…
- Por favor, mãe!
- Pois sim, q uerida. Indo com ele, sei que estarás em segurança.
Ao mesmo tempo, Margaret reflectia que não podia sentir-se tão tranquila quanto à segurança de David.
A mina de diamantes da Kruger-Brent, nas proximidades de Bloemfontein, era um complexo gigantesco, com centenas de operários entregues às diversas operações.
- É uma das mais lucrativas da companhia - explicou David, quando se achavam no gabinete do capataz, aguardando alguém que os acompanhasse às profundezas do solo. Numa das paredes, via-se uma vitrina cheia de diamantes de todas as cores e dimensões. - Cada pedra tem uma característica distinta. As provenientes das margens do Vaal são de aluvião e têm as faces polidas pela erosão de séculos.
“Está mais atraente que nunca”, reflectia Kate. “Adoro as suas sobrancelhas!” - Apesar de procederem de diferentes minas, podem identificar-se pelo aspecto - prosseguiu ele. - Repara nesta. O tamanho e a tonalidade amarelada indicam que veio de
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Paardspan. As De Beer têm uma superfície oleosa e a forma de dodecaedros.
“É brilhante. Sabe tudo.” - Esta outra veio da mina de Kimberley, porque é um oc-taedro.
“O capataz pensará que somos amantes? Oxalá que sim!” - A cor de um diamante serve para lhe determinar o valor e refere -se segundo uma escala que vai de um a dez. Em primeiro lugar, figura o azul-esbranquiçado e, em último, o castanho.
“E cheira tão bem! É um odor másculo. Adoro os seus braços e ombros. Quem dera…” - Kate!
- Sim, David? - articulou com embaraço.
- Estás a prestar atenção?
- Com certeza - afirmou, indignada. - Não me escapou uma única palavra do que disseste.
Passaram as duas horas seguintes nas entranhas da mina, após o que foram almoçar, o que constituía a ideia dela de um dia divinal.
Quando a filha regressou, ao fim da tarde, Margaret perguntou:
- Divertiste-te?
- Imenso! O trabalho nas minas é realmente fascinante. Meia hora depois, espreitou casualmente pela janela e viu-a lutar com o filho de um dos jardineiros.
Na época escolar subsequente, as cartas de Kate do colégio revelaram-se prudentemente optimistas. Fora nomeada capitã das equipas de hóquei e lacrasse ' e figurava no quadro de honra. O colégio não era tão mau como supusera ao princípio e até havia algumas colegas realmente simpáticas. Pedia autorização para levar duas delas nas férias grandes, ideia que agradou a Margaret. Agora, os seus sonhos concentravam-se apenas em Kate. “Jamie e eu pertencemos ao passado. Ela é o futuro. E que belo futuro será!” ' Jogo de origem canadiana, no qual a bola é jogada com uma raqueta em forma de L. (N. do T.)
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Quando Kate regressou a casa nas férias, todos os rapazes a assediavam em busca do privilégio da sua companhia, mas ela não se mostrava interessada.
David encontrava-se na América, e aguardava com impaciência que voltasse. No dia em que se apresentou, a rapariga foi recebê-lo à entrada, e ele sentiu-se surpreendido com o calor da reacção que se lhe deparou no momento em que a abraçou. Em seguida, retrocedeu um passo e contemplou-a. Havia algo de diferente nela, uma expressão no olhar que não conseguia definir e o embaraçava vagamente.
Nas poucas vezes em que as viu naquelas férias, achava-se rodeada por rapazes e especulava involuntariamente acerca de qual seria o felizardo. Dias depois, necessitou de se deslocar uma vez mais à Austrália e, quando regressou a Klipdrift, Kate já seguia a caminho da Inglaterra.
No último ano no colégio, David surgiu inesperadamente, uma tarde. Em regra fazia-se preceder de uma carta ou telegrama, mas desta vez não houvera qualquer advertência prévia.
- Que surpresa maravilhosa! - exclamou Kate. - Devias ter-me prevenido, para…
- Venho buscar-te - anunciou ele com gravidade.
- Há alguma novidade?
- Tua mãe está muito mal.
Ela conservou-se como que petrificada por um momento e murmurou:
- Vou fazer as malas.
Kate ficou chocada com o aspecto da mãe, pois vira-a poucos meses antes e parecera-lhe de excelente saúde. Agora, apresentava-se pálida e magra e o clarão voluntarioso dissipara-se do olhar. Dir-se-ia que o cancro que lhe devorava a carne também consumira a alma.
- Oh, mãe… - proferiu a rapariga, sentando-se na borda da cama e pegando na mão de Margaret. - Não sei como exprimir…
- Estou preparada, minha filha. No fundo, creio que o tenho estado desde a morte de teu pai. Queres ouvir um disparate? Sempre me preocupei com a possibilidade de ninguém cuidar dele como devia. Agora, posso fazê -lo eu.
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Margaret foi sepultada três dias depois, e a sua morte abalou Kate profundamente.
Perdera o pai e o irmão sem os conhecer, meras personagens obscuras do passado. O passamento da mãe, porém, era real e doloroso. Tinha dezoito anos e achava-se repentinamente só no mundo, perspectiva que se lhe afigurava assustadora.
No cemitério, diante da sepultura, resistiu corajosamente às lágrimas que pretendiam jorrar, mas uma vez em casa sentiu-se incapaz de as conter e rompeu em soluços.