- Foi sempre maravilhosa para mim e eu não passei de uma filha ingrata.
- Também foste uma filha maravilhosa - murmurou David, numa tentativa para a consolar.
- Só lhe causei preocupações. Daria tudo para me poder redimir. Eu não queria que ela morresse.
Ele aguardou que desabafasse por completo e, quando a viu mais calma, disse:
- Embora te custe a crer, essa dor desaparecerá, um dia. E sabes o que restará?
Recordações gratas. Lembrar-te-ás de todas as coisas agradáveis que tu e ela partilharam.
- É possível. Mas neste momento sofro horrivelmente. Na manhã seguinte, discutiram o futuro dela.
- Tens família na Escócia - recordou David.
- Não! Não é a minha família. São parentes - comentou Kate, numa inflexão de amargura. - Quando meu pai quis partir para aqui, zombaram dele. Ninguém o ajudou, à parte a mãe, que já morreu. Não tenho nada de comum com aquela gente.
- Tencionas completar os estudos? - e sem dar ensejo a que ela respondesse, acrescentou: - Penso que tua mãe o desejaria.
- Nesse caso, voltarei para lá - e baixou os olhos para o chão, articulando entre dentes: - Raios partissem o colégio.
- Também, já não falta muito.
Kate concluiu o curso com uma classificação elevada e David esteve presente na festa de encerramento.
Quando se encontravam na carruagem privada, no trajecto de Joanesburgo para Klipdrift, ele observou:
- Tudo isto será teu dentro de poucos anos: esta carruagem,
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as minas, a companhia. Podes considerar-te uma mulher extremamente rica. Se resolveres vender tudo, obterás muitos milhões de libras - olhou-a com curiosidade e concluiu: - A menos que prefiras ficar à testa das operações. Em breve terás de tomar uma decisão.
- Já ponderei o assunto - redarguiu Kate, com um sorriso. - Meu pai era um pirata.
Um velho pirata maravilhoso. Lamento não o ter conhecido. Não venderei a companhia. E queres saber porquê? Porque o pirata lhe deu os nomes de dois guardas que tentaram matá -lo. Não te parece uma ideia extraordinária? Às vezes, de noite, quando não consigo dormir, penso em meu pai e em Banda rastejando através do mis do mar e julgo ouvir as vozes dos guardas: Kruger- Brent… - meneou a cabeça. - Nunca a venderei. Pelo menos, enquanto te mantiveres nela e velares por tudo.
- Ficarei até deixares de precisar de mim - prometeu David, com uma expressão solene.
- Decidi matricular-me numa escola comercial.
- Numa escola comercial? - ecoou ele, surpreendido.
- Estamos em 1910 - lembrou Kate. - Há várias em Joanesburgo que admitem raparigas.
- Mas…
- Perguntaste o que faria com o meu dinheiro. Quero merecê-lo.
Capítulo décimo quarto A escola comercial constituiu uma aventura nova e excitante. Quando frequentara Cheltenham, Kate encarara o facto como uma obrigação, um mal necessário.
Agora, era diferente. Em todas as aulas aprendia algo que lhe seria útil quando dirigisse a companhia. O curso incluía contabilidade, gestão, comércio internacional e administração de empresas. Uma vez por semana, David telefo nava, a fim de se inteirar de como corriam as coisas, e ela respondia:
- Maravilhosamente. É uma experiência excitante.
Um dia, trabalharia ao lado dele, até altas horas da noite, e, quando menos esperasse, David voltar-se-ia para ela e
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confessar-lhe-ia: “Tenho sido um pateta, querida. Queres casar comigo?” No instante imediato, estariam nos braços um do outro.
Mas isso ainda vinha longe. Para já, tinha muito que aprender, pelo que se concentrava firmemente nos estudos.
O curso comercial prolongou-se por dois anos, e Kate regressou a Klipdrift a tempo de celebrar o seu vigésimo aniversário. David foi esperá-la à estação e ela lançou-lhe os braços ao pescoço num gesto impulsivo.
- Estou tão contente de te ver!
- Alegra-me que voltasses finalmente - articulou ele, mas arrependendo-se com prontidão.
- Que tens?
- Nada. Simplesmente, as jovens não abraçam os homens em público.
- Compreendo - murmurou Kate, depois de o olhar em silêncio por um momento. - Prometo não tornar a embaraçar-te.
No percurso para casa, David observou-a dissimuladamente. Na verdade, convertera-se numa mulher atraente, inocente e vulnerável, e prometeu a si próprio nunca se aproveitar disso.
Na manhã de segunda-feira, Kate instalou-se no seu novo gabinete na Kruger- Brent, Ltd. Afigurava-se-lhe que mergulhara subitamente num universo exótico e bizarro, com costumes e linguagem próprios. Havia um surpreendente estendal de divisões, subsidiários, departamentos regionais, insenções alfandegárias e sucursais no estrangeiro. Os produtos que a companhia manufacturava ou possuía pareciam intermináveis. Existiam igualmente fábricas, ranchos de gado, uma via-férrea, uma linha de navegação e, evidentemente, a fundação da fortuna da família: diamantes, ouro, zinco, platina e magnésio extraídos sem interrupção, que ingressavam nos cofres da companhia.
Poder.
Era quase excessivo para se poder abarcar na totalidade. Kate, sentada no gabinete de David, assistia atentamente, enquanto ele tomava decisões que afectavam milhares de pessoas dispersas pelo mundo. Os responsáveis das várias divisões apresentavam sugestões, mas estas eram refutadas com frequência.
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- Porque discordas deles? - quis saber Kate. - Não cumprem a sua obrigação?
- Claro que cumprem, mas não é essa a questão. Cada um e ncara o seu departamento como o centro do mundo, como convém. No entanto, alguém tem de formar uma visão global e decidir o que interessa mais à companhia. Anda daí.
Vamos almoçar com uma pessoa que precisas de conhecer.
David conduziu-a à espaçosa sala de jantar contígua ao gabinete dela, onde os aguardava um rapaz de rosto esguio e olhar incisivo.
- Este é Brad Rogers - informou David. - Brad, aqui tem a sua nova patroa, Kate McGregor.
- Tenho muito gosto em conhecê-la, Miss McGregor - disse o rapaz, este ndendo a mão.
- É a tua arma secreta - explicou David a Kate. - Sabe tanto acerca da Kruger- Brent, Ltd. como eu. Se alguma vez me afastar, ele suprirá a minha falta. · Se alguma vez me afastar…”. A possibilidade obrigou a rapariga a estremecer involuntariamente. “Ele nunca abandonaria a companhia”. Não obstante, só pensou nisso ao longo da refeição e, no final, não conseguiu recordar-se do que comera.
Após o almoço, trocaram impressões sobre a África do Sul.
- Teremos problemas em breve - advertiu David. - O Governo acaba de promulgar o imposto individual.
- Em que consiste, exactamente? - perguntou Brad Rogers.
- Os negros, os mestiços e os indianos têm de pagar duas libras por cada membro da família, o que representa mais de um mês de salário.
Kate lembrou-se de Banda e acudiu-lhe uma onda de apreensão. Todavia, não tardaram a abordar outros tópicos.
A nova vida agradava-lhe imensamente. Cada decisão envolvia o risco de milhões de libras. Os negócios de alto nível constituíam uma combinação de argúcia, coragem para jogar uma cartada e instinto para saber quando desistir ou ir para a frente.
- Os negócios são um jogo - afirmava David. - Estão envolvidas apostas fantásticas e temos de competir com peritos. Quem quiser ganhar precisa de aprender a ser um mestre do jogo.
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Era precisamente isso que Kate estava disposta a fazer. Aprender.
Ela vivia só na vasta moradia, apenas com a companhia do pessoal doméstico. O ritual dos jantares das sextas-feiras com David prosseguiu, mas, quando Kate o convidava em qualquer outro dia, ele invocava um pretexto para recusar. Durante as horas de expediente, estavam juntos constantemente, mas mesmo nessas ocasiões ele parecia ter erguido uma barreira entre ambos, uma muralha que ela se sentia incapaz de transpor.