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Quando completou vinte e um anos, todas as acções da Kruger-Brent International foram transferidas para Kate, a qual passou assim a dispor do controlo oficial da companhia.

- Jantemos juntos, esta noite, para comemorar o acontecimento - propôs a David.

- Desculpa não aceitar a sugestão, mas tenho muito trabalho para pôr em dia.

Por conseguinte, ela jantou só, sem conseguir determinar o motivo. “A culpa será minha ou dele?” David tinha de ser surdo, cego e mudo para não adivinhar o seu afecto de longa data. Impunha-se que tomasse medidas para rectificar a situação.

A companhia negociava o estabelecimento de uma linha de navegação nos Estados Unidos e David sugeriu:

- Porque não vais com Brad a Nova Iorque ultimar as negociações? Era uma boa experiência para ti.

Embora preferisse que ele a acompanhasse, o amor-próprio impediu-a de o revelar. Ocupar-se-ia de tudo sem a sua ajuda. De resto, nunca visitara a América e ansiava por fazê-lo.

O acordo foi estabelecido sem problemas, e Kate recordou-se da recomendação de David no sentido de que aproveitasse a oportunidade para conhecer o país.

Ela e Brad visitaram companhias subsidiárias em Detroit, Chicago, Pitsburgo e Nova Iorque, e Kate sentia-se abismada com a dimensão e a energia dos Estados Unidos. O ponto alto da digressão consistiu na excursão a Dark Harbor, Maine, numa ilhota encantadora denominada Islesboro, na baía Penobscot. Fora convidada para jantar na residência do artista

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Charles Dana Gibson, onde compareceram doze pessoas, todas com moradias na ilha.

- Este lugar tem uma história interessante - revelou o dono da casa a Kate. - Há anos, os residentes costumavam fazer-se transportar de Boston em pequenas embarcações costeiras. Aguardava-os uma carruagem que os conduzia às diferentes residências.

- Quantas pessoas vivem actualmente na ilha?

- Cerca de cinquenta famílias. Viu o farol, quando ofer-r y boat acostou?

- Sim.

- É ocupado por um homem e o seu cão. Quando passa um barco, o animal vai lá fora e toca a sineta.

- Está a brincar - disse ela, rindo.

- De modo algum. E, por estranho que pareça, o cão é surdo como uma porta. Por conseguinte, pousa a orelha na sineta, para verificar se vibra.

- Dá a impressão de que se trata de um ambiente fascinante.

- Merece a pena ficar e dar uma volta, pela manhã.

- Porque não? - assentiu, cedendo a um impulso.

Kate pernoitou no único hotel da ilha e, no dia seguinte, alugou uma tipóia, conduzida por um ilhéu. Partiram do centro de Dark Harbor, que consistia num armazém de artigos gerais, uma loja de ferragens e um pequeno restaurante, e, transcorridos poucos minutos, atravessavam uma bela área arborizada.

Entretanto, ela apercebia-se de que nenhuma das pequenas ruas sinuosas tinha nome, e o mesmo acontecia com os receptáculos de correio, o que a levou a perguntar ao cocheiro:

- As pessoas não se perdem, devido à falta de indicações?

- Não. Toda a gente sabe onde as coisas se situam.

- Compreendo - murmurou, lançando-lhe um olhar de través.

Na extremidade inferior da ilha, passaram diante de um cemitério e Kate pediu ao homem que parasse.

Em seguida, apeou-se e percorreu as passagens entre as sepulturas, entretendose a ler algumas lápides.

“JOB PENDLETON, FALECIDO A 25 DE JANEIRO DE 1796, AOS 47 ANOS”. O epitáfio era do seguinte teor:

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“Debaixo desta pedra, pouso a cabeça imerso no sono eterno. Que Deus abençoe a cama.”

“JANE, MULHER DE THOMAS PENDLETON, FALECIDA A 25 DE FEVEREIRO

DE 1802, AOS 47 ANOS”.

Pairavam espíritos de outro século, de uma era há muito extinta. “CAPITÃO

WILLIAM HATCH, AFOGADO NO SOUND DE LONG ISLAND EM OUTUBRO DE

1866, AOS 30 ANOS”. Seguia-se o epitáfio: “Enfrentou tempestades furiosas e cruzou todos os mares embravecidos.”

Kate conservou-se demoradamente no cemitério, saboreando o silêncio e a paz.

Por fim, regressou à tipóia, que reatou a marcha.

- Como é o Inverno aqui? - perguntou, passados uns minutos.

- Frio. A baía costumava gelar e as pessoas vinham do continente de trenó. Agora, temos oferry, claro.

Contornaram uma curva e surgiu, junto da água, em baixo, uma atraente moradia de dois pisos rodeada por rosas silvestres e papoilas. Os estores das oito janelas da frente estavam pintados de verde e junto da porta dupla havia bancos brancos e seis vasos com gerânios vermelhos. O conjunto assemelhava -se a algo extraído de um conto de fadas.

- A quem pertence aquela casa?

- Ao velho Dreben, que enviuvou há poucos meses.

- Quem mora lá agora?

- Ninguém, suponho.

- Sabe se está à venda?

O homem olhou a passageira por um momento e replicou:

- Se estiver, compra -a de certeza o filho de uma das famílias já instaladas aqui. Os ilhéus não simpatizam com os forasteiros.

Não podia ter pronunciado palavras mais apropriadas para estimular o espírito competitivo de Kate, a qual, menos de uma hora depois, se avistava com um advogado que representava o proprietário.

- É por causa da casa Dreben - explicou ela. - Está à venda?

O interpelado franziu os lábios e declarou:

- Sim e não.

- Que quer dizer com isso?

- Está, mas há várias pessoas interessadas.

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“As famílias antigas da ilha”, cogitou Kate, que persistiu:

- Apresentaram uma oferta?

- Ainda não, mas…

- Então, apresento eu.

- É uma casa dispendiosa.

- Indique o preço.

- Cinquenta mil dólares.

- Vamos vê-la por dentro.

O interior da casa era ainda mais atraente do que ela previra. O vestíbulo achavase virado ao mar, através de uma parede de vidro. A um lado, havia um amplo salão de baile e, no outro, uma sala de estar com uma vasta lareira. Não faltava a biblioteca de decoração conservadora, a vasta cozinha e, a seguir, a copa e uma arrecadação. No rés-do-chão, situavam-se seis quartos para o pessoal e uma casa de banho e, no piso superior, uma suite e quatro quartos de menores dimensões. O conjunto era muito maior do que Kate calculara. -Mas quando David e eu tivermos filhos, precisaremos de todo este espaço”, reflectiu. O terreno adjacente estendia-se até à baía, onde se localizava uma doca privada.

- Fico com ela - anunciou, sem hesitar. Decidiu chamar-lhe Cedar Hill.

Ansiava por regressar a Klipdrift, para transmitir a nova a David. Durante a viagem, dominava-a uma excitação invulgar. A casa que acabava de adquirir em Dark Harbor constituía um sinal, um símbolo de que eles casariam um com o outro, e sabia que David também adoraria a moradia.

Na tarde em que chegou a Klipdrift com Brad, Kate precipitou-se imediatamente para o gabinete de David. Ao vê -lo, sentado à secretária, com o habitual ar eficiente, sentiu o coração palpitar desordenadamente e só então se apercebeu de como sentira a sua falta.

- Sê bem-vinda! - exclamou ele, levantando-se. E antes que ela tivesse ensejo de proferir palavra, acrescentou: - Quero que sejas a primeira a saber. Vou casar!

Capítulo décimo quinto Tudo principiara com naturalidade, seis semanas antes. A meio de um dia particularmente atarefado, David foi informado de que Tim O'Neil, amigo de um importante comprador de diamantes americano, se encontrava em Klipdrift e lhe solicitava que o recebesse e porventura levasse a jantar. Embora não gostasse de perder tempo com turistas, reconheceu que não devia contrariar o cliente e, dada a impossibilidade de delegar a fastidiosa missão em Kate, ausente na América do Norte com Brad Rogers, telefonou para o hotel onde O'Neil se alojara e convidou-o para jantar naquela noite.

- Vim com minha filha - esclareceu o americano. - Espero que não se importe que me acompanhe.

- De modo algum - replicou David polidamente, conquanto não lhe apetecesse ter de aturar uma criança.