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Combinaram encontrar-se na sala de jantar do Grand Hotel e, quando ele chegou, O'Neil e a filha já se achavam sentados à mesa. O pai era um indivíduo bemparecido, de cabelos grisalhos, provavelmente com pouco mais de cinquenta anos, mas a rapariga, Josephine, foi imediatamente considerada a mulher mais bonita que David jamais vira. Aparentava trinta anos, com um corpo deslumbrante, cabelos louros sobre os ombros e olhos azul-claro.

- Desculpem o atraso - balbuciou, perturbado. - Surgiu um assunto inesperado.

- Às vezes, são os mais excitantes - observou ela, divertida com a reacção que provocara. - Meu pai diz que é um homem muito importante, Mister Blackwell.

- Nem por isso… e agradecia que me tratasse por David.

- É um bom nome. Sugere grande voluntariedade. Antes do final da refeição, David já decidira que Josephine era muito mais do que uma mera mulher bonita. Possuía inteligência, espírito e o condão subtil de o pôr à vontade. Na realidade, pressentia que se interessava genuinamente por ele, pois dirigia-lhe perguntas de natureza pessoal que nunca ouvira dos lábios de outra mulher. Por conseguinte, não se surpreendeu quando, no termo do serão, descobriu que já se enamorara parcialmente dela.

- Onde residem? - perguntou a Tim O'Neil.

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- Em São Francisco.

- Regressam em breve? - desta vez, esforçou-se por envolver a interrogação numa aura de formalidade.

- Para a semana.

- Se Klipdrift é tão interessante como promete, talvez o convença a ficarmos mais algum tempo - interpôs Josep-hine, com um sorriso cativante.

- Nesse caso, tratarei de redobrar os motivos de interesse - prometeu David. - Gostavam de visitar uma mina de diamantes?

- Adorávamos! - afirmou ela.

Outrora, ele acompanhava pessoalmente os visitantes importantes às minas, mas acabara por confiar a tarefa a subordinados. Agora, porém, propôs impulsivamente:

- Amanhã, convém-lhes?

Tinha várias entrevistas marcadas para o dia seguinte, mas, de repente, haviam perdido toda a importância.

David conduziu os O'Neil no elevador que terminava o percurso quatrocentos metros abaixo da superfície.

- Há um pormenor que sempre me intrigou - disse Jo-sephine. - Por que se avaliam os diamantes em carates?

- O termo “carate” foi inspirado na semente da carob1 - explicou David -, devido à sua consistência no peso. Um carate é igual a duzentos miligramas.

- Sinto -me absolutamente fascinada.

Ele não pôde deixar de perguntar a si mesmo se Josephine se referia apenas aos diamantes. A sua proximidade era inebriante. Cada vez que a contemplava, experimentava uma nova sensação excitante.

- Deviam visitar os arredores, o campo - sugeriu. - Se não têm qualquer compromisso para amanhã, acompanhá-los-ei com o maior prazer.

Antes que o pai se pudesse pronunciar, Josephine declarou:

- É uma óptima ideia.

A partir de então, David encontrou-se com ela e o pai todos os dias e, à medida que o tempo passava, o amor que sentia acentuava-se. Nunca conhecera uma mulher tão fascinante.

' Alfarroba. (N. do T.)

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Uma noite, quando foi buscar os O'Neil para jantar, David ouviu o americano alegar:

- Hoje, sinto-me um pouco em baixo. Importa-se que não os acompanhe?

- De modo algum - e David esforçou-se por dissimular a satisfação. - Compreendo perfeitamente.

- Tentarei evitar que se aborreça - prometeu Josephine, com um sorriso malicioso.

Ele levou-a a um restaurante inaugurado recentemente. A sala encontrava-se repleta, mas o chefe de mesa reconheceu-o e apressou-se a indicar um lugar perto do conjunto musical que amenizava o ambiente.

- Dançamos? - sugeriu David.

- Com todo o gosto - assentiu Josephine.

No momento imediato, achava-se nos braços dele, que se sentiu transportado a uma atmosfera de magia.

- Amo-a, Josephine! - acabou por desabafar.

- Não diga isso, por favor.

- Porquê?

- Porque não poderia casar consigo.

- Ama-me?

- Estou louca por si, querido - sussurrou ela, os olhos azuis emitindo um clarão irresistível. - Não o nota?

- Então, qual o motivo?

- Nunca conseguiria habituar-me a Klipdrift. Terminava por e ndoidecer.

- Podia experimentar.

- Sinto -me tentada, mas sei o que aconteceria. Se casasse consigo e tivesse de viver aqui, convertia-me numa neurasténica e acabávamos por nos odiar. Prefiro que nos separemos assim.

Josephine olhou-o em silêncio por um momento e aventurou:

- Vê alguma possibilidade de se adaptar a São Francisco?

- Que faria lá? - articulou ele, reflectindo que se tratava de uma ideia impraticável.

- Quero que converse com o meu pai. Tomaremos o pequeno-almoço juntos.

- Josephine falou-me do que se passou, ontem à noite - informou Tim O'Neil. - Tudo indica que se lhes depara um problema, mas talvez eu possa apresentar uma solução, se estiver interessado.

- Sem dúvida.

- Sabe alguma coisa acerca de alimentos congelados? - perguntou extraindo um maço de documentos de uma pasta.

- Receio bem que não.

- As primeiras experiências na matéria efectuadas nos Estados Unidos datam de mil oitocentos e sessenta e cinco. A dificuldade consistia em transportar os alimentos a longas distâncias, sem que descongelassem. Dispúnhamos de carruagens frigoríficas, mas ninguém descobria um meio de refrigerar camiões - pousou os dedos nos documentos. - Até agora. Acabo de receber a patente do método que revolucionará toda a indústria alimentar.

- Confesso que não consigo interpretá-los - declarou David, depois de consultar os papéis.

- Isso não interessa, pois não procuro um perito técnico. Tenho-os em abundância.

O que pretendo é o financiamento e alguém que dirija as operações. Não se trata do sonho de um visionário. Troquei impressões com especialistas na matéria, que foram unânimes em reconhecer o valor da descoberta. Preciso de uma pessoa como você.

- A central da companhia será em São Francisco - esclareceu Josephine.

David conservou-se silencioso por um momento, assimilando o que acabava de escutar. Por fim, observou:

- Diz que obteve a patente?

- Exacto. Está tudo a postos para arrancar.

- Importa-se de me emprestar estes documentos, para que os mostre a alguém.

- Nada tenho a objectar.

A primeira coisa que David fez foi inteirar-se da idoneidade do americano, e revelaram-lhe que possuía reputação sólida em São Francisco. Dirigira o departamento científico do Berkeley College e desfrutava d o respeito geral. David ignorava tudo o que se referia a congelação de produtos alimentares, mas tencionava elucidar-se.

- Voltarei dentro de cinco dias, querida. Gostava que tu e teu pai esperassem.

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- O tempo que quiseres - assentiu Josephine. - Vou ter saudades tuas.

- E eu tuas - admitiu David, com maior sinceridade do que ela supunha.

Ele seguiu de comboio para Joanesburgo e avistou-se com Edward Broderick, proprietário da maior fábrica de carne enlatada da África do Sul.

- Queria ouvir a sua opinião acerca disto - declarou David, mostrando-lhe os documentos. - Preciso de saber se pode resultar.

- Não percebo patavina de alimentos congelados ou camiões frigoríficos, mas conheço quem está familiarizado com o assunto. Se quiser voltar à tarde, terei aqui dois peritos para lhe dissiparem as dúvidas.

David tornou a visitar Edward Broderick às quatro daquela tarde. Ao mesmo tempo, apercebia-se de um certo nervosismo e incerteza, porque não estava bem ciente de como desejava que a reunião se desenrolasse. Duas semanas antes, teria soltado uma gargalhada, se alguém sugerisse que, um dia, abandonaria a Kruger-Brent, Ltd., companhia que fazia parte da sua própria vida. E riria ainda com mais gosto se esse alguém acrescentasse que dirigiria uma pequena empresa de alimentos congelados em São Francisco. A situação poderia considerar-se inconcebível, se não existisse um pormenor decisivo: Josephine O'Neil.