As trocas de impressões com os dois primeiros desenrolaram-se satisfatoriamente e Kate assegurou a David e a Brad:
- Qualquer deles me satisfaz.
Na manhã em que se deveria realizar a terceira entrevista, David surgiu no gabinete dela, profundamente pálido.
- O meu lugar ainda está vago?
- Que se passa? - perguntou ela, alarmada.
- Uma coisa inesperada - articulou ele, afundando-se numa cadeira.
- O quê?
- Acabo de receber uma carta de Tim O'Neil. Vendeu o negócio.
- Que queres dizer?
- Exactamente o que ouviste. Aceitou uma oferta de duzentos mil dólares pelos direitos de exploração do seu invento
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da Three Star Meat Packing Company de Chicago - o tom de David achava-se impregnado de amargura. - A companhia gostava de assegurar os meus serviços para dirigir as operações. O'Neil afirma que lamenta o contratempo que me provoca, mas não podia recusar uma soma tão elevada.
- E Josephine? - perguntou Kate, olhando-o com intensidade. - Que diz? Deve estar furiosa com o pai.
- Também recebi carta dela. Casará comigo, assim que chegar a São Francisco.
- E não tencionas ir?
- Claro que não! - explodiu ele. - Até aqui, tinha alguma coisa para oferecer. Podia transformar a firma numa companhia de grande envergadura. Infelizmente, eles estavam muito ansiosos por arrecadar uma quantia avultada.
- Não és justo ao d izer “eles”.
- O'Neil nunca aceitaria a oferta sem a aprovação de Josephine.
- Confesso que não sei o que dizer.
- Basta que digas que ia cometendo o maior erro da minha vida.
Kate pegou na lista de candidatos e principiou a rasgá-la com lentidão.
Nas semanas subsequentes, David mergulhou profundamente no trabalho, numa tentativa para esquecer a amargura e a mágoa. Entretanto, recebeu várias cartas de Josephine O'Neil, que depositou no cesto de papéis sem as abrir. Contudo, não conseguia esquecê-la, e Kate, consciente da desolação do amigo, não perdia a oportunidade de lhe fazer sentir que se achava presente, se necessitasse dela.
Tinham-se escoado seis meses desde que David recebera a carta de Tim O'Neil e, entretanto, aquele e Kate continuavam a trabalhar juntos. Ela esforçava-se por agradar ao companheiro de todas as maneiras possíveis. Trajava em conformidade com o que julgava representar as suas preferências, projectava viagens em comum e, numa palavra, diligenciava tornar-lhe a existência o mais feliz possível. No entanto, não obtinha o mínimo resultado e, por último, perdeu a paciência.
Encontravam-se no Rio de Janeiro para investigar as possibilidades da descoberta de um novo mineral, e, uma noite,
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após o jantar, reuniram-se no quarto de Kate para examinar uns relatórios. Ela enfiara um quimono e chinelos para se sentir mais confortável e, quando terminaram, David espreguiçou-se e anunciou:
- Estou derreado. Acho que me vou deitar.
- Não te parece chegado o momento de tirares o luto? - observou Kate, em voz átona.
- Qual luto? - inquiriu ele, surpreendido.
- Por Josephine O'Neil!
- Há muito que desapareceu da minha vida.
- Então, procede em conformidade.
- Que queres que faça?
Kate acabou por se enfurecer, em virtude da cegueira de que ele dava pro vas, assim como por todo o tempo perdido.
- Beija-me, por exemplo!
- O quê?
- Não sou a tua patroa? - rugiu, acercando-se. - Ordeno-te que me beijes.
E, rodeando-lhe o pescoço com os braços, colou os lábios aos dele. Ao princípio, sentiu-o resistir e tentar retrair-se, porém, a reacção não tardou e passou a colaborar.
- Kate…
- Estava a ver que nunca mais me propunhas isso - sussurrou ela, começando a soltar o cinto do quimono.
Casaram seis semanas depois, na cerimó nia de maior pomba a que Klipdrift jamais assistira. Celebrou-se na igreja mais importante da cidade, após o que se realizou uma recepção no recinto do Município. Havia montanhas de comida e inúmeras grades de cerveja, juntamente com uísque e champanhe, enquanto uma orquestra abrilhantava a festa, que se prolongou até de madrugada. Quando o Sol despontou, Kate e David afastaram-se discretamente.
- Vou a casa acabar de fazer as malas - informou ela. - Passa por lá dentro de uma hora.
Por entre a claridade pálida da alvorada, Kate entrou na vasta mansão e dirigiu-se ao seu quarto, no primeiro andar, onde se aproximou de um quadro pendurado na parede e exerceu pressão em determinado ponto da moldura. Acto contínuo, a tela começou a deslizar para o lado e expôs um cofre
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embutido. Após uma pausa, ela abriu-o e extraiu um documento. Era o contrato da compra da Three Star Meat Packing Company de Chicago, por Kate McGregor.
Junto dele, encontrava-se outro referente à aquisição, por aquela firma, dos direitos de exploração do invento de Tim O'Neil por duzentos mil dólares. Hesitou por um momento e voltou a guardá-los no cofre. Agora, David pertencia-lhe.
Sempre lhe pertencera. E à Kruger-Brent, Ltd. Juntos, torná -la-iam a companhia mais poderosa do mundo.
Exactamente como Jamie e Margaret McGregor teriam desejado.
TERCEIRA PARTE
Kruger-Brent, Ltd. 1914-1945
Capítulo décimo sexto Encontravam-se na biblioteca, onde outrora Jamie gostava de se sentar com um cálice de brande na sua frente, e David argumentava que não havia tempo para uma verdadeira lua -de-mel.
- Alguém tem de olhar pela loja.
- De acordo, Mister Blackwell. Mas quem olhará por mim?
Kate enroscou-se sobre os joelhos do marido, que sentiu o calor do seu corpo através do vestido, enquanto os documentos que examinava deslizavam para o chão. Em seguida, ela levantou-se e despiu-se com estudada lentidão, após o que estendeu as mãos e principiou a desabotoar-lhe a camisa.
- Possui-me, David! - gemeu, entregando-se-lhe.
A espessa carpeta afigurou-se-lhes apropriada para o que pretendiam. Kate estremeceu levemente no momento em que ele a penetrou e assolou-a uma vaga de sensações inebriantes que culminaram num êxtase indefinível. “Morri e fui para o Céu…”, reflectiu no instante da explosão final.
Percorreram praticamente todo o mundo, visitando, entre outras cidades, Paris, Zurique, Sydney e Nova Iorque, ao serviço da companhia, mas aproveitando igualmente alguns momentos para si próprios. Conversavam até altas horas da noite, faziam amor e exploravam -se mutuamente os corpos e os espíritos. Kate constituía um prazer inesgotável para David. Acordava -o de madrugada para o obrigar a actividades sexuais pagãs e, poucas horas depois, participava numa conferência de negócios, mais lúcida e eficiente do que qualquer dos outros presentes. Possuía uma propensão especial para os negócios, tão rara como inesperada. Ao princípio, tratavam-na com condescendência tolerante, que não tardava a converter-se em respeito. Ela experimentava uma satisfação especial em se dedicar às manobras e maquinações do jogo, e David via-a empregar argumentos que venciam indivíduos mais experientes. Na verdade, Kate dispunha de todos os instintos de uma vencedora. Sabia o que queria e como obtê -lo.
Poder.
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Culminaram a lua-de-mel com uma semana gloriosa na casa de Cedar Hill, em Dark Harbor.
Foi a 28 de Junho de 1914 que começou a admitir-se a possibilidade de uma guerra, quando eles haviam sido convidados para uma residência de campo em Sussex. Decorria a época em que as pessoas endinheiradas preferiam residir fora das cidades, e os hóspedes de fim-de-semana deviam obedecer a um ritual. Os homens trajavam formalmente para o pequeno-almoço, mudavam de indumentária para o período que medeava até ao almoço e a operação voltava a repetir-se ao longo do dia, sendo exigido o smoking ou sobrecasaca para o jantar.
- Safa! - protestou David. - Sinto -me como um pavão.
- Um pavão muito atraente, querido. Quando chegarmos a casa, podes andar nu.
- Não quero esperar tanto tempo - declarou ele, apertando-a nos braços.