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Ao jantar, surgiu a notícia de que Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austrohúngaro, e a esposa, Sofia, tinham sido assassinados.

O anfitrião, Lord Maney, comentou:

- É sempre deplorável ouvir que mataram uma mulher. Em todo o caso, ninguém vai envolver-se numa guerra por causa de um pequeno país balcânico.

E passaram a trocar impressões acerca do críquete. Mais tarde, na cama, Kate perguntou:

- Achas que vai haver guerra?

- Devido à morte de um arquiduque qualquer? Claro que não.

A previsão de David revelou-se errada. O Império Austro-Húngaro, suspeitando de que a sua vizinha Sérvia instigara o conluio para assassinar Ferdinando, declaroulhe guerra, e, em Outubro, a maior parte das potências mundiais estavam envolvidas no conflito. Era uma contenda de uma espécie nova. Empregavam -se pela primeira vez veículos mecanizados, como aeroplanos, porta-aviões e submarinos.

No dia em que a Alemanha declarou guerra, Kate observou:

- Pode ser uma oportunidade excelente.

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- Porquê? - perguntou David, enrugando a fronte.

- As nações vão precisar de armas e munições…

- Não as obterão de nós - interrompeu com firmeza. - O negócio que temos chega perfeitamente. Não vamos arrecadar lucros à custa do sangue dos outros.

- Estás a dramatizar a situação. Alguém tem de fabricar armamento.

- Enquanto eu pertencer à companhia, não seremos nós. Não quero discutir mais o assunto. Está encerrado! “Isso é o que tu pensas!…” reflectiu ela. “Porque será um idealista tão ingénuo?”

Por seu turno, David pensava: “Está mudada. Dantes, não revelava essa indiferença pela sorte dos outros.”

Os dias que se seguiram foram difíceis para ambos. Ele deplorava o vazio emocional criado entre ambos, mas não sabia como transpô-lo. Kate era demasiado orgulhosa e obstinada para ceder, porque sabia que tinha razão.

O presidente Wilson prometera manter os Estados Unidos fora do conflito, mas quando os submarinos alemães começaram a torpedear navios de passageiros desarmados e as atrocidades cometidas pelos germânicos se difundiram, acentuou-se a pressão para que a América abandonasse a neutralidade.

“Tornemos o mundo seguro para a democracia”, era o slogan.

David aprendera a voar na África do Sul e quando se constituiu a Esquadrilha Lafayette, em França, com pilotos americanos, anunciou a Kate:

- Tenho de me alistar.

- Não é a tua guerra! - bradou ela, apavorada.

- Em breve será. Os Estados Unidos não se podem manter afastados por muito tempo. Sou americano e quero participar já.

- Mas tens quarenta e seis anos!

- Ainda me considero capaz de pilotar um avião. E eles precisam da ajuda de todos.

Kate não encontrou qualquer meio de o dissuadir e passaram os últimos dias juntos em perfeita comunhão, esquecendo as divergências. Amavam -se e só isso importava.

Na véspera da partida para a França, David declarou:

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- Tu e Brad Rogers podem dirigir os negócios tão bem como eu. Talvez até melhor.

- Se te acontecer alguma coisa, não resisto.

- Não me há-de acontecer nada - e abraçou-a com ternura. - Voltarei coberto de condecorações!

A ausência de David constituiu um martírio para Kate. Tardara muito tempo a conquistá-lo e, agora, em cada segundo pairava o pavoroso receio de o perder.

Conservava-o sempre a seu lado. Reconhecia-o na cadência da voz de um desconhecido, numa risada repentina na rua, numa frase, num perfume, até numa canção. Encontrava-se em toda a parte. Escrevia-lhe longas cartas todos os dias e, quando recebia uma dele, lia-a e relia-a até se achar quase irreconhecível. Ele afirmava que tudo corria bem. Os Alemães desfrutavam de superioridade no ar, mas a situação não tardaria a inverter-se. Circulavam rumores de que a América em breve interviria.

“Não permitas que te suceda nada, meu amor, de contrário odiar-te-ei eternamente.”

Kate tentava olvidar a solidão e a amargura imergindo profundamente no trabalho.

No início da guerra, a França e a Alemanha possuíam as forças armadas mais bem equipadas da Europa, mas os Aliados dispunham de maiores efectivos humanos, recursos e material. Quanto à Rússia, com o exército mais numeroso, achava-se mal guarnecida de armamento e pior comandada.

- Precisam todos de auxílio - afirmou ela a Brad Rogers. - Há que fornecer-lhes tanques, armas e munições.

- David é da opinião… - começou ele, com desconforto.

- Na sua ausência, somos nós que tomamos as decisões. No entanto, Brad sabia perfeitamente o que isto significava na realidade. “Quem decide sou eu.”

Kate não compreendia a atitude do marido quanto ao fabrico de armamento. Os Aliados necessitavam dele e ela considerava seu dever patriótico fornecer-lho.

Conferenciou com os dirigentes de meia dúzia de nações amigas e, transcorrido um ano, a Kruger-Brent, Ltd., iniciava o fabrico de armas, tanques, bombas e munições. A companhia transformava-se rapidamente num dos maiores impérios industriais do mundo e, quando se inteirou dos números relativos às receitas, ela disse a Brad Rogers:

- Já viu isto? David terá de reconhecer que se enganava.

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Entretanto, a África do Sul atravessava um período agitado. Os chefes dos partidos tinham manifestado o seu apoio aos Aliados e aceitado a responsabilidade de defender o país da Alemanha, mas a maioria dos Africânderes opunha-se ao auxílio à Grã-Bretanha. Não podiam esquecer o passado tão rapidamente.

Por outro lado, na Europa, a guerra corria mal para os Aliados e a luta na frente ocidental atingira um ponto morto. Ambos os lados se fixavam nas suas posições, protegidos por trincheiras que atravessavam a França e a Bélgica, e os soldados conheciam privações. A chuva enchia as escavações de água e lama e os ratos abundavam. Ciente disto, Kate congratulava-se por o marido combater no ar.

A 6 de Abril de 1917, o presidente Wilson declarou guerra à Alemanha e a predição de David tornou-se realidade. A América começou a mobilizar.

O primeiro corpo expedicionário americano, chefiado pelo general John J.

Pershing, iniciou o desembarque em França a 26 de Junho daquele ano. Os nomes de novos lugares passaram a fazer parte do vocabulário de toda a gente:

Saint-Mi-hiel… Château-Thierry… Meuse-Argonne… Belleau Wood… Verdun… Os Aliados tinham-se tornado uma força irresistível e, a 11 de Novembro de 1918, o conflito conheceu finalmente o seu termo. O mundo encontrava-se seguro para a democracia.

David pôde empreender o regresso a casa.

Quando desembarcou do transporte de tropas em Nova Iorque, Kate esperava-o.

Olharam-se em silêncio por um momento eterno, ignorando o ruído da multidão à sua volta, e, por último, caíram nos braços um do outro. Vendo-o mais magro e de expressão fatigada, ela reflectiu: “Como senti a sua falta!” Tinha uma infinidade de perguntas para lhe fazer, mas podiam ficar para mais tarde.

- Vou levar-te para Cedar Hill - anunciou. - É o lugar perfeito para repousares.

Conduziu o marido através da casa, que remodelara especialmente para o receber, falando-lhe quase sem interrupção, o que não a impedia de observar que se mostrava invulgarmente reservado. Quando completaram a visita, ela perguntou:

- Gostas das modificações que introduzi?

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- Sem dúvida. Agora, sentemo-nos, porque quero conversar contigo.

- Tens algum reparo a fazer? inquiriu, dominada por um pressentimento ominoso.

- Segundo apurei, tornámo-nos fornecedores de munições de metade do mundo.

- Espera até veres os livros - Kate começou. - Os lucros…

- Não me refiro a isso. Se a memória não me atraiçoa, eram excelentes, antes de eu partir. Assentámos em que não nos envolveríamos no fabrico de material de guerra.

- Tu é que assentaste. Eu não. - Kate esforçava-se por dominar a irritação. - Os tempos mudam e temos de nos adaptar.