Ele olhou-a em silêncio por um momento e volveu:
- Tu mudaste?
Deitada na cama, naquela noite, Kate perguntava a si própria se fora ela quem mudara ou o marido. Tornara -se mais forte ou ele mais fraco. Recordou a argumentação de David contra a fabricação de armamento e considerou-a frágil.
No fundo, alguém necessitava de fornecer a mercadoria aos Aliados, além do que a operação envolvia lucros fabulosos. Que acontecera ao sentido dele dos negócios? Sempre o encarara como um dos homens mais argutos que conhecera, mas agora pensava que se achava mais capacitada para dirigir a companhia.
Passou a noite quase totalmente em claro e, de manhã, após o pequeno -almoço, ela e David percorreram as imediações da casa.
- Agrada-me estar aqui - confessou ele. - É realmente encantador.
- Quanto à nossa conversa de ontem…
Os factos estão consumados. Procedeste como te pareceu melhor, na minha ausência.
“Teria feito o mesmo, se estivesses presente!“ Kate absteve -se de concretizar a dúvida em voz alta. Agira daquela maneira em obediência aos interesses da companhia. “A Kruger-Hrent terá maior significado para mim que o meu casamento?“ O temor impediu-a de procurar a resposta.
Capítulo XVIII Os cinco anos imediatos assistiram a um período de expansão mundial incrível. A Kruger-Brent, Ltd. fora fundada com base em diamantes e ouro, mas enveredara pela diversificação e estendera as raízes por todo o Globo, pelo que o seu centro nervoso deixara de se situar na África do Sul. A companhia adquirira recentemente um império editorial, uma empresa de seguros e um milhão de hectares de terrenos arborizados para a obtenção de madeira.
Uma noite, Kate desferiu uma cotovelada em David, que acordou sobressaltado.
- Temos de transferir a sede da companhia.
- Hem? - articulou ele, estremunhado.
- O fulcro mundial dos negócios situa -se actualmente em Nova Iorque. É aí que a nossa sede se deve encontrar. A África do Sul fica muito longe de tudo. De resto, agora que dispomos do telefone e do cabo submarino, podemos comunicar com qualquer das sucursais em poucos minutos.
- Porque não pensaria eu nisso? - grunhiu, e voltou a adormecer.
Nova Iorque era um mundo e xcitante. Nas visitas anteriores à cidade, Kate sentira o seu palpitar acelerado, mas viver lá equivalia a estar no centro de um vértice gigantesco. A terra parecia girar mais rapidamente e tudo se movia a um ritmo mais veloz.
Ela e David escolheram um local em Wall Street para sede da companhia e os arquitectos iniciaram os trabalhos. Por seu turno, Kate recorreu a outro para restaurar uma mansão estilo Renascença francesa do século XVI, na Quinta Avenida.
- A cidade é muito ruidosa - queixou-se David.
E não exagerava. O som das máquinas de rebitar atroava os ares em todas as áreas de Nova Iorque, à medida que os arranha-céus se erguiam em sucessão ininterrupta. Na verdade, a cidade tornara -se a Meca dos negócios de todo o mundo, quartel-general da marinha mercante, seguros, comunicações e transportes. Irradiava uma vitalidade ímpar. Kate adorava tudo aquilo, mas pressentia a amargura do marido.
205
- Isto é o futuro, querido. Nova Iorque desenvolve-se e nós com ela.
- Até onde pretendes chegar?
- Até onde for possível.
No fundo, ela não compreendia a razão pela qual ele formulara a pergunta. A finalidade do jogo consistia em ganhar, o que só se conseguia vencendo todos os outros jogadores. Esta realidade afigurava-se-lhe óbvia. Como se explicava que David não a descortinasse? Apesar de ser um excelente homem de negócios, faltava-lhe alguma coisa: o apetite, a compulsão para conquistar, para ser o maior e o melhor. Jamie McGregor possuía esse espírito e Kate também. Conquanto não compreendesse exactamente o que acontecera, num determinado ponto da sua vida a companhia convertera-se no amo e ela na escrava.
Quando tentou explicar a David o que sentia, este soltou uma gargalhada e afirmou:
- Trabalhas em excesso.
Ao mesmo tempo, porém, reflectia: “Cada vez se parece mais com o pai!” E, sem entender bem o motivo, o facto apresentava-se-lhe vagamente preocupante.
Como podia uma pessoa trabalhar em excesso? Kate achava-se convencida de que não existia "maior prazer no mundo. Era nessas ocasiões que se sentia mais viva. Cada dia que surgia trazia um novo conjunto de problemas, cada um dos quais constituía um desafio, um puzzle para resolver, um novo jogo para ganhar. E ela actuava maravilhosamente. Era arrastada por algo fora de toda a capacidade de imaginação. Não tinha nada de comum com o dinheiro ou a satisfação de um acto cumprido, mas com o poder. Um poder que dominava as vidas de milhares de pessoas de todos os recantos da Terra, tal como a sua existência fora outrora dominada. Enquanto dispusesse de poder, nunca necessitaria verdadeiramente de ninguém. Tratava-se de uma arma temível para além de tudo o concebível.
Era convidada para jantar com reis, rainhas e presidentes, todos interessados no seu auxílio, na sua boa vontade. Uma nova fábrica Kruger-Brent podia representar a diferença entre a pobreza e a riqueza. Poder. A companhia tinha vida própria, como um gigante em crescimento que exigia alimento, e por vezes tornavam-se necessários sacrifícios, pois não existia
206
possibilidade de agrilhoar esse gigante. Kate compreendia tudo, agora, perfeitamente. Possuía um ritmo, um palpitar, que lhe comunicara para sempre.
Em Março, um ano depois de se terem instalado em Nova Iorque, sentiu-se indisposta e deixou-se convencer por David a consultar o médico.
- Chama-se John Harley - acrescentou. - Apesar de jovem, já conquistou reputação excelente.
Harley era um indivíduo magro, de semblante carregado, que aparentava vinte e seis anos, menos cinco que Kate, a qual começou por advertir:
- Não tenho tempo para estar doente!
- Tomarei a informação em consideração, Mistress Blackwell - replicou o médico, secamente. - Para já, deixe-me examiná-la - e, em seguida, recolheu sangue para alguns testes e declarou: - Não creio que seja algo de cuidado. Espero ter os resultados dentro de dois ou três dias. Telefone-me quarta-feira.
Kate tratou de ligar para o consultório logo de manhã, e o Dr. Harley anunciou jovialmente:
- Tenho notícias excelentes para lhe transmitir, Mistress Blackwell. Está grávida.
Foi um dos momentos mais e xcitantes da vida dela, e apressou-se a informar o marido.
Este mostrou-se invulgarmente excitado e, apertando-a nos braços com ternura, profetizou:
- Há-de ser uma rapariga e parecer-se exactamente contigo.
Entretanto, reflectia: “É precisamente o que lhe convém. Agora, ficará mais em casa. Tornar-se-á mais uma esposa.”
Kate, por seu turno, cismava: “Há-de ser um rapaz, que um dia assumirá a direcção da Kruger-Brent.”
A medida que a data do parto se aproximava, ela conservava-se mais tempo em casa, embora continuasse a comparecer no seu gabinete todos os dias.
- Deixai os negócios a meu cargo e repousa - aconselhava David.1 Todavia, não conseguia compreender que os negócios representavam a melhor forma de repouso para Kate.
207
- Vou fazer o possível para que seja a vinte e cinco - prometeu ela, pois o nascimento achava-se previsto para a segunda metade de Dezembro. - Não podemos desejar melhor prenda de Natal.
“Será um Natal perfeito”, cogitava. Era dirigente de uma grande empresa, casara com o homem que amava e teria um filho dele. Se havia alguma ironia na ordem de prioridades, não se apercebia disso.
O corpo avolumara -se, dificultando-lhe os movimentos, pelo que cada vez lhe era mais penoso deslocar-se ao escritório, mas, quando David ou Brad Rogers sugeriam que ficasse em casa, replicava que o cérebro continuava a funcionar normalmente. Dois meses antes da data calculada para o parto, o marido visitou a África do Sul em viagem de inspecção à mina de Pniel, devendo regressar a Nova Iorque na semana segui nte.