Kate encontrava-se sentada à secretária do seu gabinete, quando Brad Rogers entrou sem se fazer anunciar.
- Perdemos o negócio Shannon! - aventurou ela, ao observar-lhe a expressão grave.
- Não. Acabo de receber a notícia… Registou-se um acidente… uma explosão numa mina.
- Onde? - acudiu-lhe um pressentimento alarmante. - Teve consequências graves?
Há vítimas?
Brad encheu os pulmões de ar antes de revelar:
- Meia dúzia de mortos. David é um deles.
As palavras pareceram encher a sala e ricochetear nas paredes, aumentando de intensidade, até que se converteram em sons ensurdecedores nos ouvidos de Kate, numa espécie de cataratas do Niágara que a sufocavam, absorvendo-o para o seu centro devorador.
Por fim, tudo se tornou obscuro e silencioso.
O bebé nasceu uma hora mais tarde, com dois meses de antecedência, e Kate chamou-lhe Anthony James Blackwell, em homenagem ao pai de David. “Amo-te, meu filho, por ti, e amar-te-ei por teu pai.”
Um mês depois, a mansão na Quinta Avenida achava-se pronta para ser habitada, e ela e o filho, juntamente com o pessoal doméstico, instalaram-se. Dois castelos de Itália haviam sido despojados do recheio para a decorar.
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Em 1928, quando Tony completara quatro anos, Kate enviou-o para um colégio infantil. Era um garoto bem-parecido, de ar solene, com os olhos cinzentos e o queixo voluntarioso da mãe. Recebeu lições de música e, aos cinco anos, frequentou aulas de bailado. Alguns dos melhores momentos que passaram juntos desenrolaram-se na casa de Cedar Hill, em Dark Harbor. Kate adquiriu um iate ao qual chamou Corsair e levava Tony a passear ao longo da costa do Maine. No entanto, era o trabalho que lhe proporcionava maior prazer.
Existia algo de místico na companhia que Jamie McGregor fundara. Tinha vida própria, era absorvente. Kate considerava -a o seu amante, que nunca morreria num dia de Inverno, para a deixar só no mundo. Viveria eternamente. Ela providenciaria nesse sentido e, um dia, transmiti-la-ia ao filho.
O único factor de perturbação na vida de Kate era a sua terra natal. Na verdade, preocupava-se profundamente com a África do Sul, onde os problemas raciais se acentuavam, o que a inquietava cada vez mais. Havia dois campos políticos: os verkramptes - de vistas estreitas, pró -segregacionistas - e os verligtes - os iluminados, que queriam melhorar a situação dos negros. O primeiro -ministro, James Hertzog, e Jan Smuts tinham formado uma coligação e combinado o seu poder para obter a promulgação de uma nova lei, segundo a qual os indivíduo s de cor deixavam de poder votar e possuir terras. Milhões de pessoas pertencentes a diferentes grupos minoritários eram afectadas pelo novo diploma. As áreas que não continham materiais, centros industriais ou portos destinavam-se a negros, mestiços e ind ianos.
Kate combinou um encontro com várias entidades governamentais sul-africanas e declarou:
- Esta lei é uma bomba de relógio. Pretendem manter oito milhões de pessoas escravizadas.
- Não se trata de escravatura, Mistress Blackwell. Fazemo-lo para bem d elas.
- Sim? Como explicam isso?
- Cada raça tem alguma coisa para contribuir. Se os pretos se misturarem com os brancos, perderão a individualidade. Queremos protegê-los.
- Que disparate! A África do Sul tornou-se um inferno racista.
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- Não é verdade. Pretos de outros países percorrem milhares de quilómetros para se fixarem no nosso. Chegam a pagar seis libras por documentos de admissão falsos. Encontram-se muito melhor aqui do que em qualquer outra parte do mundo.
- Nesse caso, compadeço-me deles.
- São crianças primitivas, Mistress Blackwell. Creia que é para o seu bem.
Kate retirou-se frustrada e profundamente apreensiva pelo futuro do seu país.
Mas também se preocupava com Banda, cujo nome figurava constantemente nos jornais. A Imprensa sul-africana chamava-lhe morrião escarlate e havia um tom de admiração na descrição das suas proezas. Escapara várias vezes à Polícia disfarçando-se de operário, motorista e porteiro, organizara um exército de guerrilha e encabeçava a lista de indivíduos mais procurados pelas autoridades.
Um artigo incerto no Cape Times revelava que fora levado em triunfo através de uma aldeia habitada por negros aos ombros de manifestantes. Deslocava -se de localidade em localidade para falar a multidões de estudantes, mas, sempre que a Polícia se apercebia da presença de Banda, este desaparecia. Constava que dispunha de um grupo de guarda-costas de centenas de amigos e seguidores e dormia numa casa diferente cada noite. Kate sabia que só a morte o impediria de prosseguir a sua cruzada.
Impunha-se que contactasse com ele. Nessa conformidade, mandou chamar um dos seus capatazes negros mais antigos na firma, merecedor da sua inteira confiança, e perguntou-Lhe:
- Parece-te que podes localizar Banda” William?
- Só se quiser ser localizado.
- Tenta. Preciso falar com ele.
- Verei o que consigo.
Na manhã seguinte, o capataz comunicou:
- Se estiver livre, logo à noite, um carro levá -la-á a determinado ponto, fora da cidade.
' Scarlet Pimpernel, pseudónimo de um aristocrata inglês que salvou numerosas pessoas da guilhotina, durante a Revolução Francesa. (N. do T.)
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Kate foi conduzida a uma pequena povoação cento e vinte quilómetros ao norte de Joanesburgo, onde o motorista deteve o veículo diante de uma casa de madeira, na qual ela entrou. Banda aguardava -a e tinha exactamente o mesmo aspecto da última vez que o vira. “E já conta sessenta anos”, pensou Kate. Apesar de permanecer em fuga constante às autoridades desde longa data, apresentava-se sereno e despreocupado.
- Cada vez que a vejo está mais bonita - observou, com um sorriso.
- Mas estou a envelhecer - redarguiu ela, rindo, - Faltam-me poucos anos para completar quarenta.
- O tempo continua a não lhe provocar marcas da sua passagem.
Foram para a cozinha e, enquanto Banda preparava café, Kate disse:
- Não me agrada o que está a acontecer. Onde irá tudo isto parar?
- Será cada vez pior - articulou ele com simplicidade. - O Governo nega-se a estabelecer diálogo connosco. Os brancos destruíram as pontes entre eles e nós e um dia descobrirão que necessitam delas para que comuniquemos. Já temos alguns heróis: Nehemiah, Tile, Mokone, Richard Msimang. Tratam-nos como gado destinado ao matadouro.
- Nem todos os brancos pensam assim - afirmou Kate. - Vocês têm amigos que lutam para mudar este estado de coisas. Acabarão por triunfar, mas é necessário tempo.
- O tempo é como a areia numa ampulheta. Escoa-se.
- Que aconteceu a Ntame e a Magena?
- Minha mulher e o meu filho estão escondidos - explicou Banda, com uma ponta de amargura. - A Polícia concentra os seus esforços em diligências para me encontrar.
- Que devo fazer para os ajudar? Não posso ficar inactiva. Precisas de dinheiro?
- Faz sempre jeito.
- Providenciarei nesse sentido. Que mais?
- Reze por todos nós.
Ela regressou a Nova Iorque na manhã seguinte.
Quando Tony atingiu idade suficiente para viajar, Kate passou a levá -lo nas viagens de negócios, durante as férias escolares. O garoto adorava visitar museus e podia passar
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horas consecutivas diante de telas e estátuas dos grandes mestres. Em casa, desenhava reproduções do que vira, mas o acanhamento impedia-o de as mostrar à mãe.
Possuía um temperamento agradável e uma leve timidez que agradava às pessoas. Kate orgulhava -se do filho, que obtinha sempre as melhores notas nos estudos e aceitava as suas felicitações como um estímulo para fazer cada vez melhor.
Em 1936, no décimo segundo aniversário de Tony, ela regressou de uma viagem ao Médio Oriente precisamente a tempo de participar na festa. Assim que o viu, abraçou-o com fervor e perguntou: