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- Tens passado um dia agradável?

- Sim, mamã. M-aravilhoso.

Estremeceu de admiração e olhou-o com estranheza, pois nunca o ouvira gaguejar.

- Sentes-te bem?

- M-muito b-bem, o-obrigado.

- Evita gaguejar. Fala mais devagar.

- Po-pois sim, ma-mamã.

A deficiência agravou-se nas semanas subsequentes e Kate decidiu levá -lo ao Dr.

Harley, o qual, após um exame minucioso, declarou:

- Fisicamente, não lhe encontro nada. Estará sob alguma pressão?

- Que ideia! Porque pergunta?

- É um garoto muito sensível. A gaguez constitui com frequência uma manifestação física de frustração, de incapacidade para enfrentar a vida.

- Engana-se, doutor. Tony figura sempre no topo do quadro de honra do colégio.

No último período, obteve três prémios: melhor atleta, melhor aluno na matéria geral e primeiro classificado no domínio das artes.

- Hum… - o médico fez uma pausa, olhando a interlocutora pensativamente. - Que costuma fazer quando ele gagueja?

- Corrijo-o, c laro.

- Sugiro que não o faça. Isso só serve para lhe aumentar a tensão.

- Se tem algum problema psicológico, garanto-lhe que não é por causa da mãe! - asseverou ela, irritada. - Adoro-o e ele sabe que o considero a criança mais fantástica do mundo.

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Era precisamente esse o fulcro do problema. Nenhuma criança resistiria a semelhante situação sem denunciar algum efeito. O Dr. Harley baixou os olhos para a ficha na sua frente e murmurou:

- Ele tem doze anos, não é?

- Exacto.

- Talvez não fosse má ideia que abandonasse o ambiente familiar, por uma temporada. Um colégio interno algures era o lugar ideal. Há estabelecimentos excelentes, na Suíça.

Na Suíça! A hipótese de o filho se achar tão longe dela era assustadora. Uma criança tão pequena, ainda sem preparação para se desembaraçar sem ajuda!

Não obstante, articulou a meia voz:

- Vou pensar nisso.

Naquela tarde, cancelou uma reunião e seguiu para casa mais cedo. Tony, que se encontrava na sala de estudo, entretido com o trabalho de casa, anunciou:

- Ti-tive ho-je um vinte, mamã!

- Gostavas de estudar na Suíça?

- Po-posso? - balbuciou, o olhar iluminado por um clarão de entusiasmo.

Seis semanas mais tarde, Kate acompanhava o filho ao navio que cruzaria o oceano, depois de o matricular no Instituto Lê Rosey, em Rolle, pequena localidade nas margens do lago de Genebra. Conservou-se no cais de Nova Iorque até que o enorme paquete desapareceu no horizonte, reflectindo: “Raios para isto! Vou ter muitas saudades dele.” Por fim, rodou nos calcanhares e regressou à li musina que a conduziria ao escritório.

Kate gostava de trabalhar com Brad Rogers, que tinha quarenta e seis anos, mais dois do que ela. Haviam-se tornado amigos ao longo dos anos e estimava-o pela devoção que sempre manifestara pela Kruger-Brent, Ltd. Era solteiro e costumava acompanhar uma variedade de amigas, mas Kate apercebeu-se gradualmente de que a amava. Em mais de uma ocasião, ouvira-o proferir observações ambíguas, mas fingia não se dar conta, para manter as suas relações num nível impessoal de negócios, atitude que infringiu uma única vez.

Brad passara a encontrar-se com alguém regularmente,

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comparecendo ao trabalho todas as manhãs fatigado e distraído, o que resultava prejudicial para a companhia. Transcorrido um mês sem que a situação desse mostras de se alterar, ela decidiu que se impunham medidas drásticas, sobretudo ao recordar-se de que David estivera prestes a abandonar a firma por causa de uma mulher. Não permitiria que Brad chegasse a esse extremo.

Kate planeara deslocar-se, só, a Paris, a fim de adquirir uma companhia de importações-exportações importante, mas à última hora pediu-lhe que a acompanhasse. Passaram o dia da chegada em reuniões e, à noite, jantaram num restaurante de luxo, após o que ela sugeriu que a seguisse à sua suite no Hotel George V, a fim de analisarem os relatórios da nova companhia.

Uma vez sós, Brad declarou:

- Há uns pontos que me parecem merecer estudo mais profundo.

- Deixemos isso, agora - murmurou Kate, deslizando para os seus braços. - Podemos começar por tratar de assuntos mais agradáveis.

- Meu Deus! Há tanto tempo que a desejava…

- Eu também ansiava por este momento.

Não perderam tempo em transferir-se para o quarto contíguo. Kate era uma mulher sensual, mas há muito que toda a sua energia sexual fora aproveitada noutras actividades. O trabalho absorvia-a e satisfazia-a por completo.

Necessitava de Brad por outras razões.

Ele colocou-se-lhe em cima e ela abriu as pernas, sentindo o órgão erecto penetrá-la, o que não se lhe afigurou agradável nem desagradável.

Principiou a executar o ritmo clássico de semelhantes momentos, enquanto Kate pensava: “Pedem muito pela companhia e não reduzem um cêntimo, porque estão ao corrente do meu interesse.”

Brad acompanhava os movimentos rítmicos de palavras ternas e as reflexões dela prosseguiam. “Eu podia suspender as negociações e aguardar que me procurassem. Mas suponhamos que não voltavam a dar notícias? Devo arriscarme a perder a oportunidade?”

Apercebendo-se de que o ritmo aumentara de intensidade, passou a colaborar mais abertamente, sem todavia interromper

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o raciocínio íntimo. “Não. Eles encontravam outro comprador com facilidade. É melhor pagar o que pedem. Compensarei o excesso vendendo uma das suas subsidiárias.” Registou-se uma exclamação abafada e ele proferiu:

- Foi maravilhoso. Não lhe agradou?

- Não encontro palavras para o descrever.

Kate conservou-se nos braços de Brad toda a noite, reflectindo e planeando, enquanto ele dormia. De manhã, quando acordou, disse-lhe:

- Essa mulher com quem tem andado ultimamente…

- Está com ciúmes! - exclamou ele, encantado. - Não pense mais nela. Prometo que não a voltarei a ver.

Kate não tornou a ir para a cama com Brad, e quando ele não compreendia por que se esquivava, limitava-se a alegar:

- Eu desejava imenso, mas receio que depois deixássemos de poder trabalhar juntos. Temos de nos sacrificar ambos pela firma.

E Brad viu-se forçado a aceitar esta explicação.

À medida que a companhia se expandia, Kate estabelecia fundações de beneficência que contribuíam para liceus, igrejas e colégios. Ao mesmo tempo, ia enriquecendo a sua colecção de arte, adquirindo obras de artistas da Renascença e pós-Renascença, como Rafael, Ticiano, Tintoretto e El Grego, e da escola barroca, como Rubens, Caravaggio e Van Dyck.

A colecção Blackwell era reputada como a mais valiosa das particulares de todo o mundo. Reputada, porque nenhum estranho, à parte convidados especiais, tivera ensejo de a admirar. Além disso, Kate não permitia que a fotografassem, nem a discutia com a Impre nsa. A vida pessoal da família Blackwell achava -se vedada ao público. Os próprios empregados domésticos ou da companhia estavam proibidos de ventilar o assunto. No entanto, tornava -se impossível evitar os rumores e a especulação, pois Kate Blackwell era um enigma intrigante - uma das mulheres mais ricas e poderosas do mundo. Circulavam milhares de interrogações a seu respeito, mas poucas respostas.

Um dia, ela telefonou à directora do Instituto Lê Rosey e disse:

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- Gostava de saber como está meu filho.

- O melhor possível, Mistress Blackwell. É um aluno excelente e…

- Não me refiro a isso - hesitou, relutante em admitir a possibilidade de um ponto fraco na família. - Tem gaguejado?

- De modo algum. Fala normalmente.

Exalou um profundo suspiro de alívio. Nunca duvidara de que se tratava de uma deficiência temporária. O dr. Harley equivocara-se redondamente.

Tony regressou a casa quatro semanas mais tarde, e Kate esperava -o no aeroporto. O garoto apresentava bom aspecto, e, ao vê -lo, invadiu-a uma onda de orgulho maternal.