- Olá, querido. Como estás?
- Be-bem, mãe. E t-tu?
Nas férias que passava em casa, Tony conservava-se longas horas diante das telas que a mãe adquirira na sua ausência. Sentia-se abismado com os trabalhos dos mestres e encantado com os impressionistas franceses: Monet, Renoir, Manet e Morisot, que lhe evocavam um mundo mágico. Comprou um conjunto de tintas e pincéis e um cavalete e principiou a pintar. Todavia, continuava a julgar horrível tudo o que produzia e recusava-se a mostrá-lo a quem quer que fosse. De modo algum se podia comparar com as obras-primas dos artistas.
- Um dia, tudo isto será teu, querido - declarou Kate. A perspectiva de tal vir a acontecer infundiu uma sensação de desconforto ao garoto de treze anos. A mãe não compreendia. As telas nunca lhe pertenceriam verdadeiramente, porque nada fizera para as merecer. Animavao o desejo firme de abrir caminho na vida pelos seus próprios meios. Acudiam-Lhe emoções ambivalentes relacionadas com o afastamento dela, pois tudo o que lhe dizia respeito era sempre excitante. Encontrava-se no centro de um vértice, transmitindo ordens, concluindo negócios incríveis, levando-o a lugares exóticos ou apresentando-o a pessoas interessantes. Constituía uma figura impressionante, de que se orgulhava imensamente. Considerava-a a mulher mais fascinante do mundo e assolava -o uma impressão de culpa por só gaguejar na sua presença. Kate não fazia a menor ideia do respeito que infundia ao
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filho, até que, um dia, numa das visitas a casa, durante as férias, o ouviu perguntar:
- Go-governas o m-mundo, mãe?
- Que ideia! - ela soltou uma risada. - O que te levou a fazer uma pergunta tão disparatada?
- To-todos os meus a -amigos falam de ti. És re-realmente algo de especial.
- Sou apenas a tua mãe, querido!
Tony desejava agradar a Kate mais do que tudo no mundo. Sabia o que a companhia representava para ela e que tencionava ceder-lhe o lugar um dia, o que o enchia de pesar, por estar convencido de que nunca a conseguiria substituir. Não era esse o futuro que tinha em mente.
No entanto, quando tentava explicar-lho, a mãe limitava-se a rir.
- Ainda és muito novo para decidires o teu futuro. E ele passava a gaguejar mais do que nunca.
A ideia de vir a ser um pintor excitava-o. Poder reproduzir os belos segredos da Natureza e conservá-los para a posteridade representava uma esperança que lhe incutia alento suplementar. Queria ir estudar para Paris, mas reconhecia que devia abordar o assunto com a maior prudência.
Passavam momentos maravilhosos juntos. Kate era a castelã de vastas propriedades, tendo adquirido vivendas em Palm Beach e na Carolina do Sul e uma coudelaria no Kentucky, que visitavam durante as férias de Tony. Nos dias em que um dos seus cavalos participava numa corrida, compareciam no hipódromo e entusiasmavam-se com o desenrolar das operações.
- Vencemos, querido! - exclamou Kate uma ocasião, no final de uma prova. - Lembra-te disto. O importante na vida é vencer - e, quase sem se deter: - A Kruger-Brent, Limited, será tua, mais tarde. Dirigi-la-ás e…
- Não a quero di-dirigir, mãe. Os negócios e o poder não me in-interessam.
- Pateta! - explodiu. - Que sabes tu dos negócios ou do poder? Julgas que percorro o mundo para espalhar o mal ou prejudicar o próximo? Consideras a Kruger-Brent uma máquina de fazer dinheiro impiedosa que esmaga tudo o que se lhe atravessa no caminho? Fica sabendo de uma coisa, meu rapaz. É o que existe de melhor, depois de Jesus Cristo.
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Somos a ressurreição. Salvamos vidas às centenas de milhares. Quando abrimos uma fábrica num país ou numa comunidade em apuros, os habitantes obtêm meios para construir escolas, bibliotecas e igrejas e proporcionar aos filhos todo o bem-estar possível - respirava com dificuldade, dominada pela indignação. - Abrimos fábricas onde as pessoas passam fome e estão desempregadas e, graças a nós, podem ter vidas decentes e conservar a cabeça erguida. Tornamonos os seus salvadores. Que não te torne ouvir desdenhar os negócios e o poder!
E o rapaz apenas encontrou coragem para articular:
- Es-está bem, m-mãe.
Ao mesmo tempo, porém, pensava com obstinação: “Hei-de ser um artista.”
Quando o filho completou quinze anos, Kate sugeriu que passasse as férias grandes na África do Sul, onde nunca estivera.
- Não me posso ausentar daqui neste momento, mas hás-de achá-lo um país fascinante. Tratarei dos preparativos imediatamente.
- Esperava pa-passar as férias em D-Dark Harbor.
- Fica para o ano - insistiu com firmeza. - Este Verão, prefiro que visites Joanesburgo.
Pôs-se em contacto com o superintendente da companhia naquela cidade e elaboraram um itinerário meticuloso para Tony. Cada dia foi planeado com um objectivo em vista: tornar a viagem tão excitante quanto possível para o rapaz, para que compreendesse que o seu futuro se situava à testa da firma.
Mais tarde, Kate recebia relatórios diários dos movimentos do filho: descera a uma das minas de ouro, passara dois dias nos campos de diamantes, efectuara uma digressão guiada às fábricas da Kruger-Brent, participara num safari no Quénia…
Poucos dias antes do termo das férias, telefonou ao gerente da companhia em Joanesburgo e inquiriu:
- Que tal se dá ele?
- Tem-se divertido muito. Na verdade, esta manhã até perguntou se podia ficar mais algum tempo.
- É uma notícia maravilhosa! - exclamou, encantada.
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No final das férias, Tony dirigiu-se a Southampton, Inglaterra, onde tomou um avião da Pan American Airways System com destino aos Estados Unidos.
Kate interrompeu uma reunião importante para o ir esperar e sentiu-se satisfeita com a expressão de entusiasmo que lhe observou:
- As férias foram boas, querido?
- A África do Sul é um pa-país fantástico, m-mãe. Sabias que me levaram de avião ao deserto da Namíbia, onde o avô roubou os diamantes ao bisavô V-Van der Merwe?
- Não os roubou - corrigiu ela. - Apoderou-se simplesmente daquilo a que tinha direito.
- Pois foi - disse Tony, com um sorriso malicioso. - Não havia mis do m-mar, mas ainda têm guardas e cães. Ne-negaram-se a dar-me um diamante.
- Não precisas que te dêem coisa alguma. Um dia, pertencer-te-ão todos.
Gostaste de tudo, hem? - Kate sentia-se plenamente satisfeita com o entusiasmo do filho acerca da sua herança. - Que te agradou mais?
- As cores. Pin-pintei uma paisagem do local. Custou-me ter de pa-partir. Quero voltar lá para pin-pintar com mais vagar.
- Pintar? - tentou mostrar-se interessada. - É um passatempo estupendo.
- Não é isso, m-mãe. Quero ser pintor. Pensei a fu-fundo no assunto. Irei estudar para Paris. Creio que te-tenho algum talento.
- Não acredito que pretendas passar o resto da vida a pintar - articulou em voz tensa.
- Sem dúvida, m-mãe. É a única coisa que me interessa. E Kate compreendeu que perdera a partida.
“Tem o direito de viver a sua vida”, admitia ela. “Mas como posso permitir que cometa um erro tão horrível?” Em Setembro, a decisão foi arrebatada das mãos de ambos. A Europa voltou a estar em guerra.
- Quero que te matricules na Escola de Finanças e Comércio Wharton - anunciou Kate. - Dentro de dois anos, se ainda te apetecer ser artista, terás a minha bênção.
Estava convencida de que entretanto o filho mudaria de ideias. Afigurava -se-lhe inconcebível que desejasse passar a
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vida com um pincel na mão diante de um cavalete, quando podia dirigir a empresa mais excitante do mundo. No fundo, pertencia à família Blackwell.
Para ela, a Segunda Guerra Mundial constituiu mais uma grande oportunidade.
Havia falta de equipamento militar e materiais em todo o mundo e a Kruger-Brent podia satisfazer todas as necessidades. As fábricas da companhia entraram em laboração permanente.