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Três meses depois, Tony regressava a casa. Ele e Kate encontravam-se em Dark Harbor, sentados no terraço sobranceiro à baía sulcada de graciosas velas brancas, e ela reflectia que a guerra o modificara. O filho apresentava uma maturidade nova. Deixara crescer um pequeno bigode e tinha um aspecto másculo. Em torno dos olhos, exibia pequenas rugas que outrora não possuía.

Estava persuadida de que aqueles anos no mar lhe haviam proporcionado tempo para reconsiderar a decisão de não ingressar na companhia.

- Quais são os teus planos? - aventurou-se por fim a perguntar.

- Como estava a dizer, quando fomos interrompidos grosseiramente pela guerra - redarguiu ele, com um sorriso -, vou pa-para Paris.

QUARTA PARTE

Tony 1946-1950

Capítulo décimo oitavo Não era a primeira vez que Tony visitava Paris, mas agora as circunstâncias diferiam. A Cidade da Luz fora ofuscada pela ocupação alemã, mas evitara a destruição ao considerarem-na cidade aberta. Os habitantes haviam sofrido profundamente, e conquanto os nazis tivessem saqueado o Louvre, Tony encontrou Paris relativamente intacta. De resto, agora viveria lá, faria parte da cidade, em vez de ser um mero turista. Podia instalar-se no apartamento de Kate na Avenida Foch, poupado pela ocupação, mas preferiu alugar outro numa casa antiga restaurada, perto de Montparnasse, que consistia numa saleta com lareira, um pequeno quarto e uma cozinha minúscula sem frigorífico. Entre o quarto e esta última, situava -se a casa de banho, com uma banheira para chuveiro, um bidé rachado e uma sanita temperamental, com uma tampa revolucionária difícil de conservar na posição apropriada.

Quando a dona da casa principiou a apresentar desculpas pelo aspecto geral, ele interrompeu-a, assegurando que considerava tudo perfeito.

Passou todo o sábado no Mercado das Pulgas '. Segunda e terça-feira, percorreu as lojas de artigos em segunda mão, na margem esquerda, e na quarta dispunha de todo o mobiliário básico de que necessitava: um sofá-cama, uma mesa que conhecera melhores dias, duas poltronas, um guarda-fato de estilo indefinido e uma mesa oscilante e duas cadeiras para a cozinha. “A mãe ficava horrorizada se visse isto”, pensou. Podia ter o apartamento repleto de antiguidades inapreciáveis, mas isso equivaleria a armar em artista americano excêntrico em Paris.

A diligência seguinte consistia em frequentar uma boa escola de arte, e a mais prestigiada de toda a França era a École dês Beaux-Arts, particularmente exigente no tocante a quem admitia, e Tony acalentava reduzidas esperanças nesse capítulo.

' Equivalente à nossa Feira da Ladra.

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Não obstante, necessitava de provar à mãe que tomara a decisão certa. Levou lá três das suas telas e teve de aguardar quatro semanas para saber se fora aceite.

No final desse período, a concierge entregou-lhe uma carta da escola, na qual o convocavam para a segunda-feira seguinte.

A École dês Beaux-Arts situava-se num amplo edifício de pedra de dois pisos, com uma dezena de salas de aula cheias de a lunos. Tony apresentou-se ao director, Maítre Gessand, um homem de estatura elevada e olhar amargurado, praticamente sem pescoço e os lábios mais finos que ele jamais vira.

- As suas telas são de amador - declarou em tom formal. - No entanto, prometem.

A nossa comissão seleccionou-o mais pelo que não figura nelas. Compreende?

- Não muito bem, maítre.

- Acabará por compreender, com o tempo. Vou destiná -lo a Maítre Cantai, que será seu professor nos próximos cinco anos… se você aguentar tanto tempo.

“Hei-de aguentar”, prometeu Tony a si mesmo.

Maítre Cantai era um homem de pequena estatura, com cabeça totalmente calva, que cobria com uma boina roxa, olhos castanhos, nariz bolboso e lábios grossos como salsichas.

- Os americanos são diletantes, bárbaros - proferiu à guisa de saudação. - Para que veio?

- Para aprender.

Emitiu um grunhido de dúvida como única resposta.

Havia vinte e cinco alunos na aula, na sua maioria franceses. Tony lançou uma olhadela aos vários cavaletes dispostos em torno da sala e escolheu um perto da janela sobranceira a um bistro. Em seguida, procurou o modelo, mas não conseguiu descortiná -lo.

- Podem começar - indicou Maítre Chantal.

- Não trouxe as minhas tintas - informou Tony.

- Não precisa delas. O primeiro ano destina-se a aprender a desenhar convenientemente. - O maìtre apontou para diversas peças de gesso da anatomia humana, obtidas de estátuas gregas dispersas pela sala. - Desenharão isto. Se porventura lhes parece muito fácil, prestem atenção ao seguinte. Mais de metade de vocês serão eliminados antes do final do ano. No primeiro aprenderão anatomia. No segundo, os poucos que passarem trabalharão com modelos vivos e óleos. No

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terceiro, em que a frequência já será muito reduzida, pintarão comigo, segundo o meu estilo, aperfeiçoando-o largamente, bem entendido. No quarto e no quinto anos, procurarão o estilo próprio. E, agora, toca a trabalhar.

Não necessitou de repetir a ordem, pois todos se debruçaram sobre os cavaletes.

De vez em quando, ele descrevia um circuito pela sala, a fim de emitir comentários críticos. Quando chegou ao lugar de Tony, exclamou:

- Isto não serve! O que vejo é o exterior de um braço. Interessa-me o interior. Os músculos, os ossos e os ligamentos. Quero ver que há sangue a circular lá dentro.

Sabe como deve proceder?

- Sim, maítre. Pensa-se, vê-se, sente -se, e depois desenha -se.

Quando não estava na aula, Tony costumava ficar no apartamento, entretido a fazer esboços. Podia manter-se a desenhar de manhã à noite. O facto incutia-lhe uma sensação de liberdade que nunca conhecera. O simples acto de se sentar diante de um cavalete com um pincel na mão fazia-o julgar-se um deus. Tinha possibilidade de criar mundos completos com uma das mãos. Formava uma árvore, uma flor, um ser humano, um universo. Era uma experiência arrebatadora.

Nascera para aquilo. Quando não pintava, achava -se nas ruas em exploração da fabulosa cidade. Agora, era a sua, o lugar onde nascia a sua arte. Havia duas Paris, divididas, pelo Sena, em margem esquerda e margem direita, que constituíam mundos separados. Esta última destinava-se às pessoas abastadas, estabelecidas na vida. A outra pertencia aos estudantes, aos artistas. Era Montparnasse, o Boulevard Raspail e Saint-Ger-main-des-Prés. O Café Flore, Henry Miller e Elliot Paul. Para Tony, tratava-se do lar. Sentava-se durante horas no Boule Blanche ou em La Coupole com outros estudantes e discutiam o seu mundo arcano.

- Ouvi dizer que o director de arte do Museu Guggenheim está em Paris e compra tudo o que lhe aparece.

- Manda-o esperar por mim!

Liam todos as mesmas revistas, que compartilhavam, em virtude do seu preço elevado: Studio e Cahiers d'Art, Formes et Couleurs e Gazette dês Beaux-Arts.

Tony aprendera francês no Instituto Lê Rosey e resultava-lhe

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fácil criar amizade com outros estudantes da sua classe, pois todos partilhavam uma paixão comum. Não faziam a mínima ideia de quem era a família dele e aceitavam-no como pertencente ao mesmo nível. Artistas pobres que lutavam pela vida reuniam-se no Café Flore e no Lês Deus Magots, no Boulevard Saint- Germain, e comiam em Lê Pot d'Etian, na Rue dês Canettes ou na Rue de 1'Université. Nenhum dos outros vira jamais o interior do Lassere ou do Maxim's.

Em 1946, gigantes praticavam a sua arte em Paris. Uma vez por outra, Tony vislumbrava Pablo Picasso, e, um dia, ele e um amigo avistaram Marc Chagall, um homem corpulento de cinquenta e poucos anos e cabelos revoltos que começavam a tornar-se grisalhos. Encontrava -se sentado à mesa de uma esplanada, imerso em animada conversa com um pequeno grupo.