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- Tivemos sorte em o ver - murmurou o amigo de Tony. - É muito raro vir a Paris.

Vive em Vence, perto da costa do Mediterrâneo.

Havia também Max Ernst, saboreando um aperitivo noutra esplanada, e o insigne Alberto Giacometti, que percorria a Rue de Rivoli, parecido com uma das suas esculturas, alto, magro e ossudo. Tony conheceu Hans Belmer, que começava a tornar-se popular com as suas pinturas eróticas de raparigas que se convertiam em bonecas desmembradas. No entanto, o seu momento mais excitante foi porventura aquele em que lhe apresentaram Braque. O artista mostrou-se cordial, mas a emoção quase privou Tony do uso da fala.

Os futuros génios invadiam as novas galerias de arte, estudando a sua competição. A Galeria Drousand -David exibia trabalhos de um jovem artista desconhecido chamado Bernard Buffet, que estudara na École dês Beaux-Arts, Soutine, Utril-lo e Dufy. Os estudantes afluíam ao Salão de Outono e à Galeria Charpentier, onde trocavam impressões sobre os seus rivais bem sucedidos.

A primeira vez que visitou o apartamento do filho, Kate ficou abismada, e, embora tivesse a prudência de não emitir comentários reflectiu: “Raios para isto! Como pode um membro da minha família viver num antro destes?” Em voz alta, todavia, declarou:

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- Tem um aspecto utilitário. Mas vejo que não há frigorífico. Onde conservas a comida?

- No pa-parapeito da janela.

Aproximou-se da janela, abriu-a e estendeu a mão para uma maçã.

- Espero não te desfalcar de um dos teus assuntos.

- Claro que não, m-mãe - replicou Tony, rindo.

- Agora - sugeriu ela, cravando os dentes no fruto -, fala-me dos teus estudos.

- Por enquanto, pouco tenho para dizer. Este ano, só fa -fazemos desenhos.

- Gostas de Maitre Cantai?

- É ma-maravilhoso. Mas parece -me mais importante saber se ele gosta de mim.

Só cerca da terça parte dos alunos passará ao ano seguinte.

E continuaram a conversar sem que Kate aludisse uma única vez à possibilidade de ele ingressar na companhia.

Maitre Cantai não era um homem que costumasse proferir encómios com facilidade. Assim, o melhor elogio com que Tony podia contar não ia além de “Já vi pior” ou “Quase começo a ver por baixo”.

No final do período escolar, Tony figurava entre os oito aprovados para frequentar o segundo ano. Para comemorar o facto, ele e os outros sete visitaram um cabaré de Montmar-tre, embriagaram-se e passaram a noite com umas jovens inglesas que efectuavam uma digressão turís tica em França.

Quando as aulas recomeçaram, Tony passou a trabalhar com óleos e modelos vivos, o que lhe fez parecer que se libertara da escola pré-primária. Depois de um ano de desenhos de partes da anatomia humana, afigurava -se-lhe que conhecia todos os músculos, nervos e glândulas do corpo. Aquilo não era desenhar, mas copiar. Agora, com um pincel na mão e um modelo vivo na sua frente, principiava a criar, e o próprio Maitre Cantai se revelava impressionado.

- Tem o sentir - admitiu com relutância. - Agora, precisamos aperfeiçoar a técnica.

Havia cerca de uma dúzia de modelos que posavam nas aulas e os que Maitre Cantai utilizava com mais frequência

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eram Carlos, um rapaz que estudava medicina, Annette, uma morena de busto generoso e uma camada de acne nas costas, e Dominique Masson, uma loura de contornos harmoniosos, a qual também servia de modelo a vários pintores conhecidos, sendo a favorita de todos. Invariavelmente, após as aulas, os alunos assediavam-na numa tentativa para que aceitasse o convite para os acompanhar.

- Nunca misturo o prazer com o trabalho - declarava ela. - De resto, não seria justo que saísse com algum de vocês - acrescentava., com um sorriso malicioso. - Viram o que tenho para oferecer, mas estou a zero quanto aos vossos atributos.

Uma tarde, quando os outros já se haviam retirado e Tony terminava um retrato de Dominique, esta aproximou-se por detrás inesperadamente e comentou:

- Tenho o nariz muito comprido.

- Achas? Vou modificá-lo.

- Não lhe mexas. Esse está óptimo. O comprido é o meu.

- Esse é que não posso alterar - observou ele, com um sorriso.

- Um francês teria dito: “O teu nariz é perfeito, chérie”.

- Gosto dele, e não sou francês.

- Vê-se. Nunca me convidaste para sair. Confesso que não compreendo porquê.

- Não… não sei. Talvez porque todos os outros o fazem e nunca aceitas.

- Toda a gente sai com alguém - concluiu ela, sorrindo, e afastou-se.

Tony notou que, sempre que ficava até mais tarde, Dominique ia vestir-se e depois se colocava atrás dele para o observar.

- És muito bom - anunciou, um dia. - Hás-de ser um pintor importante.

- Obrigado. Oxalá não te enganes.

- A pintura reveste -se de muita importância para ti, oui?

- Oui.

- Achas que alguém que se tornará um pintor importante me convidaria para jantar? - e apercebendo-se da expressão de surpresa no rosto dele, a rapariga advertiu: - Como pouco, para conservar a linha.

- Com o maior prazer - declarou Tony, rindo.

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Jantaram num bistro próximo do Sacré-Coeur e discutiram pintores e a pintura em geral. Ele sentia-se fascinado com as histórias que Dominique lhe contava acerca de artistas conhecidos e, quando tomavam café au lait, ela afirmou:

- Considero-te tão bom como qualquer deles.

Embora extraordinariamente satisfeito, Tony apenas conseguiu articular:

- Ainda tenho um longo caminho a percorrer. Quando abandonavam o bistro, ela perguntou:

- Não me levas a ver o teu apartamento?

- Se quiseres. Mas olha que não é grande coisa.

Uma vez chegados, contemplou a desarrumação que imperava e admitiu:

- Tens razão. Não é grande coisa. Quem se ocupa disto?

- Vem uma mulher fazer a limpeza, uma vez por semana.

- Despede-a. Está tudo num verdadeiro caos. Não tens uma amiga?

- Não.

Observou Tony pensativamente por um momento e inquiriu:

- És invertido, por acaso?

- De modo algum.

- Ainda bem, porque era uma pena. Arranja-me um balde com água e sabão.

Dominique iniciou a limpeza e a arrumação do apartamento, até que lhe imprimiu um aspecto quase irreconhecível. Quando se considerou satisfeita, voltou-se para Tony e anunciou:

- Por hoje, chega. Agora, preciso de me lavar - esclareceu, após o que entrou na casa de banho e abriu a torneira da minúscula banheira. - Como te ajeitas nisto?

- Dobro as pernas.

- Gostava de assistir.

Quinze minutos depois, reapareceu apenas com uma toalha em torno da cintura, e Tony reflectiu que nunca tivera oportunidade de a admirar devidamente. Por estranho que parecesse, a presença da toalha tornava -a mais apetitosa.

- Gostavas de fazer amor comigo? - sugeriu ela, adivinhando-lhe a reacção.

- Muito.

- Então, vamos a isso - condescendeu, libertando-se da toalha.

Tony nunca conhecera uma mulher como Dominique, que dava tudo e não exigia nada em troca. Aparecia quase todas as noites, a fim de cozinhar para ele, e quando comiam fora insistia em frequentar bistros pouco dispendiosos ou snackbars.

- Tens de economizar - recomendava. - Até os bons artistas sentem dificuldades nos primeiros tempos. E tu és bom, chéri.

Visitavam Lês Halles a altas horas da noite e saboreavam sopa de cebola no Pied de Cochon. Iam ao Musée Carnavalet e a locais que os turistas não frequentavam, como o Cimetière Père -Lachaise, onde repousavam Oscar Wilde, Chopin, Ho -noré de Balzac e Marcel Proust. Desciam às catacumbas e aproveitaram um fim-desemana para percorrer o Sena numa barcaça pertencente a um amigo de Dominique.

Esta constituía uma companhia encantadora. Possuidora de notável sentido do humor, animava Tony com as suas observações jocosas, quando o via deprimido.

Parecia conhecer toda a gente em Paris e levava-o a reuniões interessantes, onde lhe apresentava as figuras mais proeminentes do momento, como o poeta Paul Éluard e André Breton, responsável da prestigiosa Galeria Maeght.