Se Tony manifestava disposição para pintar à noite, ela apressava-se a posar para ele, embora tivesse trabalhado todo o dia. Era a primeira vez que podia estar certo de que alguém o estimava por si próprio, sem a mínima relação com os seus antecedentes familiares. Receava dizer à rapariga que era herdeiro de uma das maiores fortunas do mundo, pois poderia perder aquilo que obtivera com ela. Não obstante, no dia do seu aniversário, não resistiu à tentação de lhe oferecer um casaco de pele de lince.
- É a melhor prenda de anos de toda a minha vida! - exclamou Dominique, vestindo-o e rodopiando na sala. De súbito, porém, imobilizou-se e perguntou: - Onde arranjaste o dinheiro para o comprar?
No entanto, ele achava -se preparado e explicou:
- Foi roubado. Não por mim, acredita. Comprei-o a um receptador, perto do Museu Rodin. Não me custou muito mais que um bom casaco de algodão em Au Printemps.
A rapariga olhou-o em silêncio por uns instantes e rompeu numa gargalhada.
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- Hei-de usá-lo, ainda que vamos ambos parar à cadeia! - rodeou-lhe o pescoço com os braços e bradou: - Grande pateta! Meu querido e fantástico pateta!
Tony decidiu para consigo que merecera a pena mentir.
Uma noite, Dominique sugeriu que fosse viver com ela. Devido ao facto de trabalhar na École dês Beaux-Arts e servir de modelo a alguns dos artistas mais conhecidos de Paris, podia manter um apartamento moderno e espaçoso na Rua Prêtres-Saint Severin.
- Não deves continuar num lugar destes - acrescentou. - É horrível. Instala-te comigo e não terás de pagar aluguer. Posso lavar-te a roupa, cozinhar para ti e…
- Nem pensar. Obrigado.
- Porquê? “Como poderia ele explicar-lhe?” Ao princípio, não haveria inconveniente de maior em lhe revelar que era rico, mas agora era demasiado tarde. Dominique suporia que se divertira à sua custa. Por conseguinte, declarou:
- Era como se vivesse à tua custa. Já te devo muitos favores.
- Nesse caso, mudo-me eu para aqui. Quero viver a teu lado.
E fê-lo no dia seguinte.
Existia uma intimidade simples e maravilhosa entre ambos. Passavam fins -desemana no campo e alojavam-se em pequenas pousadas, onde Tony instalava o cavalete e pintava paisagens. Nunca se haviam sentido tão felizes.
Entretanto, o trabalho dele progredia admiravelmente. Uma manhã, Maitre Cantai pegou numa das telas de Tony e mostrou-a aos alunos.
- Vejam este corpo. Apercebemo-nos da sua respiração. Tony aguardou com mal contida ansiedade o momento de poder informar Dominique, quando chegou ao apartamento.
- Sabes como consegui finalmente captar a respiração? Tendo o modelo nos braços, todas as noites.
- Não acredito que precises de mais três anos de aulas - redarguiu ela, depois de soltar uma gargalhada. - Toda a gente vê isso, na escola, incluindo Cantai.
O receio de Tony residia em que não fosse suficientemente bom, limitando-se a ser mais um pintor cujo trabalho se perderia na torrente de pinturas apresentadas por milhares de
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artistas de todo o mundo, diariamente. A perspectiva afigurava-se-lhe intolerável.
Ao mesmo tempo, acudia-lhe ao espírito a recomendação da mãe, segundo a qual o importante era vencer.
Por vezes, quando concluía um trabalho, invadia-o uma sensação de euforia e pensava: “Tenho talento. Tenho realmente talento!” Noutras ocasiões, contemplava o que acabava de executar e decidia: “Não passo de um amador.”
Com o encorajamento de Dominique, adquiria confiança crescente naquilo que efectuava. Entretanto, completara cerca de duas dúzias de pinturas, em que predominavam as paisagens e as naturezas-mortas. Havia também uma de Dominique, estendida, desnuda, debaixo de uma árvore, o corpo acariciado pelo sol. Viam-se um casaco e uma camisa de homem em segundo plano, e o observador compreendia que ela aguardava o amante.
Quando contemplou o resultado, ela exclamou:
- Tens de promover uma exposição!
- Enlouqueceste. Ainda não reúno as condições necessárias.
- Enganas-te, mon cher.
Naquela tarde, quando chegou ao apartamento, Tony descobriu que a rapariga não se encontrava só. Acompanhava -a Anton Goerg, um indivíduo magro, de estômago dilatado e olhos castanhos protuberantes, proprietário da Galeria Goerg, na Rue Dauphine. As telas de Tony achavam-se dispersas à sua volta.
- Que se passa? - quis saber o recém-chegado.
- Passa-se que, na minha opinião, o seu trabalho é brilhante, monsieur - e o homem desferiu-lhe uma palmada nas costas. - Terei o maior prazer em promover-lhe uma exposição na minha galeria.
Tony desviou os olhos para Dominique, que o fitava com um sorriso de alegria.
- Não sei o que dizer.
- Já disse - redarguiu Goerg. - Nestas telas.
Tony e Dominique passaram metade da noite imersos na discussão do assunto.
- Penso que ainda não chegou o momento oportuno - alegava ele. - Os críticos crucificavam-me.
- Não concordo, chéri. O ambiente é o ideal para ti.
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Trata -se de uma pequena galeria, e só as pessoas do bairro poderão admirar os teus trabalhos e julgá-los. Não tens nada a perder. Goerg não sugeria a exposição se não te reconhecesse talento. Pensa, como eu, que serás um artista importante.
- Está bem - acabou por capitular. - Quem sabe? Até sou capaz de vender uma tela.
O telegrama era do seguinte teor: “CHEGO PARIS SÁBADO. JANTAREMOS
JUNTOS. MÃE.”
O primeiro pensamento de Tony quando viu Kate entrar no estúdio foi: “É uma bela mulher!” Na realidade, ela completara cinquenta e cinco anos e apenas e xibia uns vestígios grisalhos nas têmporas, irradiando um ar de vitalidade impressionante. Uma ocasião, perguntara -lhe porque não voltara a casar e obtivera a resposta com prontidão:
- Houve apenas dois homens importantes na minha vida. Teu pai e tu.
Agora, no pequeno apartamento de Paris, diante da mãe, Tony proferiu:
- Te-tenho muito go-gosto em voltar a ver-te, m-mãe.
- Estás com um aspecto absolutamente maravilhoso! A barba fica-te muito bem - e ela deu uma risada e acariciou-lha. - Lembras Abe Lincoln - olhou em volta com curiosidade. - Vejo que arranjaste uma mulher a dias competente. Dá a impressão de que te mudaste.
Em seguida, aproximou-se do cavalete e contemplou demoradamente a tela por concluir, enquanto Tony aguardava a reacção com ansiedade.
Por fim, Kate exprimiu-se em voz pausada:
- É brilhante. Realmente brilhante.
Consagraram as duas horas seguintes ao exame das outras pinturas, discutindoas pormenorizadamente. Ao cabo de numerosas palavras encomiásticas intermitentes, ela anunciou:
- Vou preparar uma exposição. Conheço alguns proprietários de galerias que…
- Obrigado, m-mãe, mas não é ne-necessário. Tenho uma pre-prevista para sexta - feira.
- Estupendo! - abraçou o filho com entusiasmo. - Onde?
- Na Galeria Go-Goerg.
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- Nunca ouvi falar dela.
- É pequena, mas ainda não es-estou em condições de apresentar os meus trabalhos na Hammer ou na Wil-wildenstein.
- Discordo - apontou para a pintura de Dominique debaixo da árvore. - Só esta…
Naquele momento, ouviu-se o som da porta de entrada e a voz de Dominique, ansiosa:
- Estou com o cio, chéri! Despe-te já para… - nesse instante, avistou Kate. - Oh, merde! Não sabia que tinhas visitas.
Seguiu-se um breve silêncio embaraçoso, cortado finalmente por Tony:
- Apresento-te minha m-mãe. M-mãe, esta é Do-domini-que Masson.
As duas mulheres observaram-se sem proferir palavra por alguns segundos, até que Dominique murmurou:
- Tenho muito gosto em conhecê-la, Mistress Blackwell.
- Estava a admirar o seu retrato pintado por meu filho - redarguiu Kate, à guisa de retribuição.