E estabeleceu-se novo silêncio carregado.
- Tony falou-lhe da sua próxima exposição, Mistress Blackwell?
- Sim. Foi uma surpresa muito agradável para mim.
- Po-podes ficar para assistir, mãe?
- Daria tudo para estar presente, mas tenho uma reunião da administração em Joanesburgo, depois de amanhã, a que não posso de modo algum faltar. Se soubesse mais cedo, tomava providências para a adiar.
- Não faz m-mal - disse Tony. - Compreendo perfeitamente.
Receava que ela aludisse a mais pormenores sobre a companhia diante de Dominique, mas o pensamento de Kate concentrava-se nas telas.
- É importante que as pessoas apropriadas compareçam na exposição.
- Quem são as pessoas apropriadas, Mistress Blackwell?
- Os formadores de opinião, os críticos - replicou, virando-se para a rapariga. - Alguém como André d'Usseau deve estar presente.
Referia-se ao crítico mais respeitado em França, um leão feroz que guardava o templo da arte, cujas impressões podiam
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favorecer ou destruir um artista de um dia para o outro. Era convidado para assistir à inauguração de todas as exposições, mas só comparecia às de maior projecção.
Os proprietários de galerias e pintores tremiam enquanto a sua opinião não vinha a lume. Era um mestre do bon mot e as suas tiradas sarcásticas circulavam por Paris em asas envenenadas. André d'Us-seau podia considerar-se o homem mais odiado nos círculos da arte e, ao mesmo tempo, o mais venerado.
- Não vai às ga-galerias de importância secundária - esclareceu Tony.
- Mas tem de ir a essa! Pode tornar-te famoso num abrir e fechar de olhos.
- Ou reduzir-me a pó.
- Não acreditas em ti? - bradou Kate, olhando-o com assombro.
- Claro que acredita - interpôs Dominique. - Mas não se atreve a esperar que D'Usseau compareça.
- Posso procurar uns amigos que o devem conhecer.
- Isso era divinal! - e os olhos da rapariga iluminaram-se. Virando-se para Tony, acrescentou: - Já pensaste no que representaria a sua presença?
- Ó esquecimento definitivo?
- Falo a sério. Sei do que ele gosta e estou certa de que adoraria os teus trabalhos.
- Não efectuarei qualquer diligência, a menos que o desejes - advertiu Kate.
- Sem dúvida que deseja, Mistress Blackwell.
- Te-tenho medo - Tony respirou fundo. - Mas, que diabo! Vamos a isso.
- Verei o que consigo - e Kate contemplou a tela no cavalete por um longo momento e voltou-se para o filho, com uma expressão de amargura no olhar. - Tenho de deixar Paris, amanhã. Podemos jantar juntos, esta noite?
- Sem dúvida. Estamos livres.
- Vamos ao Maxines ou prefere?… - começou, dirigindo-se a Dominique.
- Conhecemos um pequeno restaurante, perto daqui - acudiu Tony, com prontidão.
Afinal, entraram num bistro da Place Victoire, onde a comida era boa e o vinho excelente. As duas mulheres pareciam entender-se satisfatoriamente e o rapaz orgulhava -se de
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ambas. “É uma das melhores noites da minha vida. Estou com a minha mãe e a mulher com quem casarei.”
Na manhã seguinte, Kate telefonou do aeroporto:
- Contactei com meia dúzia de pessoas, mas nenhuma me forneceu uma resposta concreta acerca de André d'Usseau. No entanto, qualquer que seja o resultado, orgulho-me de ti, querido. As telas são maravilhosas. Até breve.
- Até breve, m-mãe.
A Galeria Goerg era espaçosa apenas o suficiente para se furtar à classificação de intime. Duas dezenas de telas de Tony foram penduradas nas paredes, numa preparação de última hora para a abertura. Numa mesa de tampo de mármore, viam-se fatias de queijo, biscoitos e garrafas de Chablis. Os únicos ocupantes da sala eram Anton Goerg, Tony, Domini-que e uma jovem assistente incumbida de pendurar os últimos quadros.
- O convite menciona as sete horas - disse o primeiro, consultando o relógio. - As pessoas devem começar a chegar a todo o momento.
Tony, que não esperara estar nervoso, reflectia: “E não estou. Entrei em pânico!” - E se não aparecer ninguém? - aventou.
- Ficamos com todos estes aperitivos para nós - volveu Dominique, acariciandolhe a face.
Com efeito, principiaram a chegar pessoas. Isoladamente ao princípio, e depois em maior número, enquanto Goerg, postado à entrada, as saudava com efusão.
Por seu turno, Tony cogitava: “Não têm aspecto de compradores de objectos de arte.” O seu olhar arguto dividia-se em três categorias: os artistas e estudantes de arte, que compareciam a todas as exposições para tomar o pulso à concorrência, os negociantes, empenhados em difundir informações detractoras sobre os aspirantes a pintores, e a multidão de curiosos, composta em larga medida por homossexuais e lésbicas, que pareciam passar a vida na periferia do mundo da arte. “Não conseguirei vender uma única tela”, acabou por pensar.
De súbito, apercebeu-se de que Goerg lhe fazia sinal para que se aproximasse e segredou a Dominique:
- Não me apetece conhecer esta gente. Vieram todos para me reduzir a tiras.
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- Não digas disparates. Vieram mas foi para te serem apresentados. Trata-os com amabilidade.
Nessa conformidade, mostrou-se amável. Foi apresentado a todos, sorriu com abundância e pronunciou as frases apropriadas em resposta aos elogios que lhe dirigiam. “Mas tratar-se-á na verdade de elogios?” Ao longo dos anos, desenvolvera-se um vocabulário nos círculos da arte para abarcar as exposições de artistas desconhecidos. Frases que diziam tudo e nada.
- Uma pessoa sente-se identificada com o assunto…
- Nunca tinha visto um estilo como o seu…
- A isto é que eu chamo pintar!…
- Trata-se de um tema arrebatador…
- Não acredito que alguém conseguisse fazer melhor… Entretanto, continuava a chegar gente, e Tony perguntava a si próprio se a atracção residia na curiosidade pelos seus trabalhos ou nos aperitivos e no vinho gratuitos. Até àquele momento, não fora vendido um único quadro, mas o queijo e o vinho desapareciam a olhos vistos.
- Seja paciente - recomendava Goerg. - Eles estão interessados. Primeiro, têm de captar o aroma das pinturas. Quando vêem uma que lhes agrada, começam a rondá-la, até que perguntam o preço. Nessa altura, mordem o anzol!
- Isto parece mais uma pescaria - disse Tony a Domini -que.
Por fim, Goerg procurou-o, para anunciar:
- Vendemos uma! A paisagem da Normandia, por quinhentos francos.
Foi um momento que Tony recordaria toda a vida. Alguém comprara um quadro seu! Alguém apreciara suficientemente o seu trabalho para dar dinheiro por ele, pendurá-lo em sua casa ou no escritório, viver com ele, mostrá-lo aos amigos.
Tratava-se de um pequeno fragmento de imortalidade. Era uma maneira de viver mais de uma vida, de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Um artista coroado de êxito e ncontrava-se em centenas de lares, escritórios e museus de todo o mundo, para proporcionar prazer a milhares, por vezes milhões, de pessoas. Tony sentia-se como se tivesse entrado no panteão de Da Vinci, Miguel Ângelo e Rembrandt. Deixara de ser um amador para se tornar um profissional.
Alguém dera dinheiro pelo seu trabalho…
Pouco depois, Dominique acercou-se, excitada.
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- Acabas de vender outra, chéri!
- Qual? - quis saber ele, com ansiedade.
- A floral.
O ruído das conversas, que fora aumentando gradualmente, extinguiu-se de súbito, como que em obediência a um sinal, e todos os olhares se concentraram na entrada.
André d'Usseau acabava de fazer a sua aparição. Aparentava uns cinquenta e cinco anos, mais alto que o francês médio, de expressão leonina e cabelos abundantes revoltos. Usava uma capa sem mangas e chapéu estilo Borsalino e seguia-o uma comitiva de oportunistas. Automaticamente, todos começaram a desviar-se para que a importante personagem passasse. Com efeito, não havia um único dos presentes que não soubesse de quem se tratava.