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- Afinal, veio! - sussurrou Dominique, apertando o braço de Tony.

Goerg nunca fora alvo de semelhante honra e, quase transtornado, curvava-se diante do insigne crítico.

- Que prazer inesperado, Monsieur D'Usseau - balbuciava. - Permita -me que lhe ofereça uma taça de vinho - e amaldiçoava-se intimamente por não ter adquirido bebidas de melhor qualidade.

- Obrigado, mas vim apenas para satisfazer os meus olhos - replicou o grande crítico. - Desejava conhecer o artista.

Tony sentia-se demasiado aturdido para dar um passo, e Dominique teve de o impelir para a frente.

- Ei-lo - anunciou Goerg. - Monsieur André d'Usseau, este é Tony Blackwell.

- Muito prazer… - articulou Tony, a meia voz. - Agradeço a gentileza de ter comparecido.

D'Usseau inclinou a cabeça ligeiramente e aproximou-se das telas nas paredes, acompanhado pelos olhares curiosos e ávidos de todos. Examinou cada uma demoradamente, antes de passar à seguinte, enquanto Tony desenvolvia esforços desesperados para lhe ler a expressão. No entanto, o crítico não enrugava a fronte nem sorria. Fez uma pausa mais longa diante do nu de Dominique e prosseguiu, até completar o circuito da sala. Por último, dirigiu-se a Tony e limitouse a declarar:

- Estou contente por ter vindo.

Escassos minutos depois de se retirar, todos os quadros

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expostos tinham sido vendidos. Acabava de nascer um grande artista e todos queriam participar no nascimento.

- Nunca tinha assistido a nada assim - confessou Goerg. - André d'Usseau visitou a minha galeria. A minha galeria! Amanhã, toda cidade lerá a notícia nos jornais.

“Estou contente por ter vindo.” Ele não costuma desperdiçar palavras. O momento exige champanhe. Celebremo-lo!

Mais tarde, naquela noite, Tony e Dominique tiveram a sua celebração privada.

Anichada nos braços dele, ela admitia:

- Dormi com diversos pintores, mas com nenhum tão célebre como tu virás a ser.

Amanhã, Paris em peso saberá quem és.

E não se equivocava.

Às cinco horas da madrugada seguinte, vestiram-se apressadamente e saíram para comprar o matutino que acabava de chegar ao quiosque mais próximo. Tony abriu-o na secção artística e descobriu sem dificuldade a crítica que lhe interessava, assinada por André d'Usseau, a qual leu em voz alta: “A noite passada, foi inaugurada uma exposição de um jovem pintor americano, Anthony Blackwell, na Galeria Goerg, a qual constituiu uma experiência excepcional, para o autor destas linhas. Assisti a tantas mostras de pintores talentosos que já esquecera o aspecto de uma tela má. A memória foi-me avivada ontem à noite…” - Não leias mais, por favor - murmurou Dominique, tentando arrancar o jornal das mãos de Tony, que se tornara lívido.

- Larga! - vociferou ele. E continuou a ler: “Ao princípio, pensei que se tratava de uma brincadeira. Custava-me a crer que alguém tivesse o arrojo de exibir semelhantes trabalhos de amador e chamar-lhes arte. Esquadrinhei-os em busca de um indício de talento, mas debalde. Deviam pendurar o pintor em vez das telas. Recomendo a Mr. Blackwell que regresse à sua verdadeira profissão, a qual decerto consiste em pintar paredes.” - Não acredito - disse Dominique. - É impossível que não visse o talento. O bastardo! - e rompeu em soluços.

Tony sentia a impressão de que tinha o peito cheio de chumbo e experimentava dificuldade em respirar.

- Ele viu-o - afirmou. - E reconheceu-o - a voz

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denunciava profunda amargura. - É isso o que mais me magoa. Fui um imbecil!

- Aonde vais? - perguntou ela, vendo que se afastava.

- Não sei.

Tony vagueou pelas ruas, sem se aperceber das lágrimas que lhe deslizavam pelas faces. Dentro de poucas horas, todos os parisienses interessados pela arte teriam lido a crítica, e seria alvo de comentários jocosos. Mas o que mais lhe custava era que se iludira a si próprio. Chegara a acreditar realmente que tinha um futuro brilhante à sua frente como pintor. Pelo menos, André d'Usseau impedira-o de cometer esse erro. Por fim, entrou num bar e embriagou-se metodicamente.

Quando regressou ao apartamento, eram cinco horas da madrugada seguinte e Dominique esperava-o com profunda ansiedade.

- Onde estiveste? Tua mãe tentou contactar contigo. Parecia preocupadíssima.

- Leste-lhe a crítica?

- Sim. Insistiu, mas…

Naquele momento, o telefone tocou, e a rapariga, depois de se entreolharem, levantou o auscultador.

- Estou… Sim, Mistress Blackwell. Acaba de chegar. Estendeu-o a Tony, que o aceitou, após breve hesitação.

- Sim, m-mãe?

- Escuta, querido - a voz de Kate achava-se alterada pela apreensão. - Posso obrigá-lo a retractar-se…

- Isto não é uma operação de negócios. Trata -se de um crí-crítico exprimindo uma opinião segundo a qual eu mereço que me en-enforquem.

- Custa-me que estejas tão amargurado. Não consigo… - interrompeu-se, dominada pela emoção.

- Não te preocupes, m-mãe. Foi um capricho que não resultou. Fiquei com ódio a D'Usseau, mas é o melhor crítico de arte do mundo. Devo reconhecê-lo. No fundo, impediu-me de cometer um erro grave.

- Gostava de poder dizer alguma coisa para te animar…

- Ele já disse tudo. Foi preferível inteirar-me agora do que dentro de dez anos. Tetenho de abandonar esta cidade.

- Espera aí por mim. Sigo amanhã para Joanesburgo e acompanhar-me-ás até Nova Iorque.

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- Pois sim - Tony pousou o auscultador e voltou-se para Dominique. - Tenho muita pena. Escolheste o homem errado.

Ela conservou-se silenciosa, limitando-se a contemplá-lo com os olhos dominados por uma amargura indizível.

Na tarde seguinte, Kate Blackwell preenchia um cheque no escritório da sucursal da Kruger-Brent, na Rue Matignon, enquanto o homem sentado na sua frente exalava um suspiro.

- É pena, porque o seu filho tem realmente talento, Mistress Blackwell. Podia tornar-se um pintor importante.

- Há dezenas de milhares de pintores no mundo, Mon-sieur D'Usseau - replicou ela, glacialmente. - Meu filho não nasceu para se incorporar nessa multidão - e fez deslizar o cheque ao longo do tampo da secretária na direcção do interlocutor. - Cumpriu a sua parte do acordo e eu acabo de cumprir a minha. A Kruger-Brent patrocinará museus de arte em Joanesburgo, Londres e Nova Iorque e o senhor encarre-gar-se-á de escolher as telas… por uma comissão generosa, evidentemente.

No entanto, muito depois de o francês se haver retirado, Kate permanecia sentada sob o efeito de uma tristeza irreprimível. Amava o filho profundamente, e se alguma vez ele descobrisse… Reconhecia o risco a que se expusera, mas não podia permitir, de braços cruzados, que Tony voltasse as costas à herança.

Necessitava de o proteger por qualquer preço. Os interesses da companhia exigiam todos os meios para alcançar esse fim. Por fim, levantou-se, sentindo uma súbita e enorme fadiga. Eram horas de o ir buscar e levar para casa. Ajudá-lo-ia a recompor-se, para que pudesse cumprir a tarefa para a qual nascera: dirigir a companhia.

Capítulo décimo nono Nos dois anos que se seguiram, Tony Blackwell sentiu que se encontrava num instrumento de tortura gigantesco que não o conduzia a parte alguma. Era o herdeiro aparente de um império impressionante. O império da Kruger-Brent expandira-se, para incluir fábricas de papel, uma companhia aérea,

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bancos e uma rede de hospitais. Ele aprendera que um nome constituía uma chave que abria todas as portas. Havia clubes, organizações e diques sociais onde a moeda corrente não era o dinheiro ou a influência, mas o nome apropriado.

Tony fora aceite como sócio do Union Club, do Brook e do Links Club.

Cumulavam-no de atenções aonde quer que se dirigisse, mas considerava-se um impostor, pois nada fizera para merecer tudo aquilo. Achava-se na sombra gigantesca do avô e assolava-o a impressão de que o comparavam constantemente com ele. Afigurava-se-lhe injusto, porque já não havia campos de minas para transpor rastejando, guardas que o alvejassem ou tubarões ameaçadores. As velhas histórias de heroicidade não tinham nada de comum com ele. Pertenciam a outro século, outra época, outro lugar, actos heróicos praticados por um desconhecido.