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Tony trabalhava com afinco insuperá vel na Kruger-Brent, Ltd., numa tentativa para se libertar de recordações demasiado pungentes para suportar. Escreveu várias vezes a Dominique, mas as cartas foram devolvidas intactas. Telefonou a Maítre Cantai e obteve a informação de que ela já não trabalhava como modelo na escola. Desaparecera.

Tony executava a sua missão com perícia e método, sem paixão nem amor, e se sentia um vazio profundo no seu íntimo, ninguém o suspeitava. Nem sequer Kate, que recebia relatórios semanais dele e ficava satisfeita com o que lia.

- Tem uma aptidão natural para os negócios - afirmou Brad Rogers.

Para ela, as longas horas que o filho consagrava ao trabalho provavam que gostava do que fazia. Cada vez que pensava como estivera na iminência de comprometer o futuro, estremecia e congratulava-se por o ter salvo a tempo.

Em 1948, o Partido Nacionalista assumiu plenos poderes na África do Sul, com a segregação em todos os locais públicos. A migração era controlada rigorosamente, com a separação de famílias para satisfazer as conveniências governamentais. Cada negro tinha de se munir de um bewyshoek, o qual, mais do que um salvo-conduto, constituía o seu salva-vidas, certificado de nascimento, licença para trabalhar e recibo de impostos. Por outras palavras, regulava-lhe os movimentos na vida. Registavam-se tumultos crescentes no país, reprimidos

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impiedosamente pela Polícia. De vez em quando, Kate lia nos jornais casos de sabotagem e agitação a que o nome de Banda se achava invariavelmente ligado.

Continuava a desempenhar as funções de dirigente na resistência, apesar da idade. “Compreende-se que lute pelo seu povo”, pensava ela. “É Banda!”

Kate celebrou o seu quinquagésimo sétimo aniversário com Tony, na residência da Quinta Avenida, e pensou: “Este belo rapaz de vinte e quatro anos, sentado na mesa diante de mim, não pode ser meu filho. Sou demasiado jovem.” Entretanto, ele erguia a taça num brinde:

- A m-minha fantástica m-mãe. Feliz aniversário!

- Diz antes “à minha fantástica e velha mãe”.

“Não tardarei a retirar-me da actividade, mas ele tomará o meu lugar. O meu filho!”

Por insistência dela, Tony mudara-se para a mansão da Quinta Avenida, sob o pretexto de que era demasiado grande para viver só. Além disso, prometera reservar-lhe toda a ala leste e o isolamento de que necessitasse, e ele considerara mais fácil aceder do que argumentar.

Tomavam o pequeno-almoço juntos todas as manhãs e o tópico abordado era sempre a Kruger-Brent, Ltd. Tony surpreendia-se com o facto de a mãe se preocupar tão apaixonadamente com uma entidade sem rosto nem alma, uma colecção amorfa de edifícios, máquinas e números registados em livros. “Onde residirá a magia?” Com toda a miríade de mistérios do mundo para explorar, porque desejaria alguém desperdiçar uma vida inteira acumulando riqueza para a juntar a outras riquezas, reunindo poder que se situava para além do poder? Viase forçado a admitir que não a entendia. Não obstante, amava-a. E tentava corresponder às suas esperanças.

O voo da Pan American de Roma para Nova Iorque decorrera sem qualquer novidade. Tony gostava de viajar de avião, por o julgar um meio de transporte agradável e eficiente. Debruçara -se sobre os relatórios das aquisições no estrangeiro desde o momento da descolagem, ignorando o jantar e a hospedeira, que de vez em quando se aproximava para lhe oferecer bebidas, almofadas ou outra coisa susceptível de atrair o interesse do importante passageiro.

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Uma mulher de meia-idade no assento ao lado dele lia uma revista e, no momento em que voltava a página, Tony lançou-Lhe uma olhadela e estremeceu ao ver um modelo que apresentava um vestido de baile. Era Dominique. Não podia haver a mínima dúvida, e sentiu as pulsações acelerarem-se.

- Queira desculpar - proferiu, polidamente. - Empresta-me a revista, quando terminar de a ler?

Na manhã seguinte, telefonou ao costureiro autor do vestido e obteve o nome da agência publicitária a que recorrera, com a qual se apressou a contactar.

- Tento localizar um dos vossos modelos - explicou à telefonista. - Pode?…

- Um momento, por favor.

No instante imediato, surgia uma voz masculina na linha:

- Em que lhe posso ser útil?

- Trata-se de uma fotografia publicada no último número da Vogue. É de um modelo que exibe um vestido do costureiro Rothman. Foram vocês que trataram disso?

- Sim.

- Pode dar-me o nome da agência desse modelo?

- Deve tratar-se da Carleton Blessing - e o homem mencionou um número de telefone.

Transcorrido menos de um minuto, Tony falava com uma mulher da agência.

- Interessa-me localizar um dos vossos modelos. Dominique Masson.

- Lamento, mas não fornecemos informações de natureza pessoal.

E a ligação foi cortada, antes que ele pudesse acrescentar algo. Tinha de haver uma maneira de entrar em contacto com Dominique. Por fim, dirigiu-se ao gabinete de Brad Rogers e perguntou:

- Conhece a agência Carleton Blessing?

- Sem dúvida. Pertence -nos.

- O quê?

- Encontra-se à sombra de uma das nossas subsidiárias.

- Quando a adquirimos?

- Há uns dois anos. Mais ou menos na altura em que você ingressou na companhia. Qual é o seu interesse nela?

- Queria localizar um dos seus modelos. Trata -se de uma velha amiga.

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- Nada mais fácil. Vou ligar para lá e…

- Não. Eu encarrego-me disso. Obrigado, Brad. Entretanto, Tony sentia-se invadido por uma agradável sensação de antecipação.

À tarde, visitou os escritórios da agência Carleton Blessing c, sessenta segundos depois de se identificar, encontrava-se sentado no gabinete de um tal Tilton, o presidente.

- É uma honra inesperada, Mister Blackwell. Espero que não haja nenhum problema. Os nossos lucros do último trimestre…

- Não venho em missão oficial. Interessa-me um dos vossos modelos. Dominique Masson.

- É uma das melhores - a expressão do homem iluminou-se. - Sua mãe sabe escolher o pessoal.

- Desculpe… - articulou Tony, julgando ter ouvido mal.

- Sua mãe insistiu pessoalmente em que contratássemos Dominique. Foi uma condição implícita na aquisição da nossa firma pela Kruger-Brent. Está tudo mencionado nos arquivos. Se lhe interessa consultar o processo…

- Não é necessário - não conseguia encontrar uma explicação para o que escutava. “Que motivo levaria a mãe?…” - Pode dar-me o endereço de Dominique?

- Decerto, Mister Blackwell. Hoje, teve de se deslocar a Vermont, em serviço - informou Tilton, consultando uma agenda -, mas deve regressar amanhã à tarde.

Tony aguardava à entrada do prédio de apartamentos, quando um sedan negro se imobilizou e a rapariga desceu. Acompanhava -a um homem de porte atlético, com a mala dela na mão. Dominique estacou abruptamente no momento em que avistou Tony e exclamou:

- Meu Deus! Que… que fazes aqui?

- Preciso falar contigo.

- Fica para outra vez, amigo - interveio o atleta. - Temos uma tarde muito atarefada.

- Manda-o embora - indicou Tony, sem o olhar.

- Quem diabo se julga, para?…

- Deixa-nos, por favor, Ben - rogou ela. - Telefono-te à noite.

O outro hesitou por um momento e acabou por encolher os ombros.

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- Está bem - e afastou-se, após uma mirada incendiária a Tony.

- É melhor entrarmos - sugeriu Dominique, voltando-se de novo para Tony.

O apartamento era um duplex espaçoso, com decoração moderna, que decerto custara uma pequena fortuna.